14/04/2026
I Simpósio de Filosofia e Literatura Antiga
CCSE - UEPA, Tv. Djalma Dutra, s/n, Sala de Defesa PPGED
Desde as bases da formação há um equívoco comum: ver nos pensadores da filosofia antiga apenas nomes empoeirados de um currículo escolar, autores de sistemas fechados, conceitos abstratos, datados e ensimesmados, sem quaisquer conexões predecessoras ou porvindouras. Entretanto, quando nos aprofundamos no estudo da filosofia, podemos notar uma perspectiva diferente: a de que a filosofia antiga é, antes de qualquer coisa, um projeto vital, um pensar extemporâneo, que através de suas postulações sumariamente humanas, ônticas, reverbera eterna nos entes.
Tudo começou, como todos nós aprendemos, com uma pergunta aparentemente simples, feita por Tales de Mileto “Qual é a origem de todas as coisas?”. Essa indagação não inaugurou apenas uma disciplina acadêmica; ela representou uma revolução no modo de o ser humano se colocar no mundo. Era o momento em que o mythos, a explicação baseada na tradição e no divino, começava a ceder espaço ao logos, ao exercício da racionalidade crítica - ou, talvez, à uma reconfiguração, como Cornford propusera, do mythos no logos, à uma continuidade léxica, tal Cassin imaginara, de uma protofilosofia literária dos épicos. Talvez, em Homero, tenha-se, na verdade, começado tal revolução; talvez em Odisseu, nas sereias, no escudo de Aquiles - na produção de sentido(S), de signos fabricados por Hefestos - tenha-se começado tal revolução.
E, desde então, são essas as perguntas que nos reúne. E é por isso que a investigação dos antigos permanece atual. Quando Sócrates, nas praças de Atenas, propusera “o cuidado de si” ou quando afirmou “procurei em mim” ele não estava propondo um narcisismo intelectual, mas sim, lançando um desafio que até então não tinha recebido a devida importância: o de conhecer a si mesmo para, a partir daí, agir com virtude. Esse exame socrático ecoa ainda hoje, em um mundo de opiniões prontas, algoritmos, “pesquisas” de cinco minutos em uma “inteligência” artificial qualquer. O mundo do imediato clama por autenticidade e diálogo genuíno, ao mesmo tempo que apaga as suas possibilidades.
Em um tempo de polarizações e excessos, a ideia de buscar a justa medida entre os extremos não parece um conselho banal, mas uma ferramenta de sobrevivência psíquica e social que encontrará fundamentação direta em Aristóteles e sua noção de que a virtude está no meio-termo, na justa medida. Mas cabe a pergunta, será possível a temperança em um mundo onde sobreviver é uma ação diária? Afinal, há dias em que a vida é um ato de coragem, de que o viver, o amor, o escolher a Eros - ou aos erotes - é um ato de coragem, afinal, o Amor, segundo Simônides, é filho da Coragem. Portanto, a reflexão política será inevitável, uma vez que, Platão e sua República ou Cícero e seu sentido do bem comum - ou Eurípides com sua Medeia - questionam o que é uma sociedade justa? O que é Justiça? Como seria a sociedade ideal? A filosofia antiga nos lembra que a pólis não é uma máquina administrativa, mas um organismo vivo que depende da atitude de cada cidadão, que é construída e constrói o homem políade - ou que o destrói, à moda de Dioníso, tão caro aos helênicos.
Portanto, este evento não é um curso de história da filosofia. É um convite à reflexão. Uma jornada que começa com a coragem de questionar, passa pelo rigor de examinar a própria vida e a sociedade ao redor. De Homero a Heidegger, passando pela importância das mulheres na filosofia antiga, até as discussões sobre Platão a Nietzsche, evocando a importância da literatura no mundo antigo, o I Simpósio de Filosofia e Literatura Antiga: Fronteiras e Alteridades, busca o que se expõe no seu título, analisar e discutir sobre as fronteiras e as possibilidades de alteridade encontradas a partir do pensamento antigo.
O que a filosofia e a literatura antiga tem a nos dizer hoje? Neste evento, teremos contato com a atualidade do passado. É com muito prazer que o Grupo Maiêutica convida vocês a uma jornada de reflexão sobre ética, política e arte, mostrando que a filosofia antiga não nos dá respostas prontas para os dilemas do século XXI; ela nos oferece, e isso é muito mais valioso, o método e o espírito para que nós mesmos possamos encontrá-las.