26/07/2025

Lançamento: Marco Aurélio - Cartas, discursos e ditos célebres

Canal Afonso Jr. 19h00, ao vivo https://www.youtube.com/@afonsojr1

Nesta edição, com texto traduzidos por Aldo Dinucci, Cristóvão Santos (doutor de filosofia e letras clássicas), e com prefácio de Donato Ferrara, graduado em letras pela USP, seguimos a numeração e a sequência de discursos e ditos tal como aparece na edição de  Haines (1919). Contextualizamos historicamente os excertos e acrescentamos seleta de cartas trocadas entre Marco Aurélio e Frontão , seu professor de retórica. 

O leitor atento perceberá que tais cartas, discursos e ditos refletem o comprometimento de Marco com a filosofia estoica. As cartas a Frontão nos remetem a seu amor e respeito por seus mestres e preceptores, bem como a cenas de sua adolescência no campo, pisando em uvas para o preparo do vinho, uma simplicidade de vida que atraía Marco desde a tenra infância.  Por fim, a Carta de Marco à Assembleia Comum da Ásia Menor nos ajuda a salvaguardar nosso imperador das falsas acusações de perseguição aos cristãos.     

Ao longo de nosso livro, temos notícias que nos chegaram da Antiguidade sobre discursos e frases de Marco Aurélio proferidos diante de seus contemporâneos, bem como uma breve seleta de cartas trocadas entre ele e seu mestre de retórica Frontão.

Os dois primeiros discursos ocorrem em ocasião do fracassado golpe de Estado de Avídio Cássio. O terceiro discurso teria sido proferido por Marco na iminência de sua morte, assim como os ditos 20, 21a e 21b.

Das cartas entre Marco e Frontão, selecionamos algumas que ilustram o respeito que nosso imperador nutria por seus mestres, como o prova também o livro primeiro de suas Meditações e alguns ditos indicados abaixo e as cartas trocadas com seu mestre de retórica Frontão. 

 

Dos ditos de Marco Aurélio que nos chegaram, alguns revelam suas atitudes e convicções como monarca: o dito 3 nos mostra que Marco cria com sinceridade na viabilidade do rei filósofo platônico, isto é, de um governante esclarecido pela filosofia e tornado por ela apto a governar; o dito 4 nos informa sobre os critérios que Marco utilizava para selecionar homens para cumprir funções no Estado; o dito 8 nos apresenta reflexão  sobre a justiça; os ditos 10 e 11 nos falam sobre sua prudência e seu autocontrole como governante; os ditos 5 e 18 tratam de seu caráter republicano, pelo qual jamais tomava decisões monocraticamente, mas sempre consultava os senadores para todos os assuntos de Estado que houvesse. Os ditos 6, 15 e 23 (bem como os discursos 1 e 2), relativos  a suas atitudes durante a conspiração de Ovídio Cássio , evidenciam seu caráter clemente e sua aversão ao derramamento de sangue; o dito 7 nos fala sobre o caráter político de seu casamento com Faustina ; finalmente, os ditos 1, 15 e 17 mencionam sua admirável liberalidade e sua crítica à avareza dos políticos.

Temos, por outro lado, testemunhos de sua reverência e admiração por seus mestres e pelos filósofos de sua época nos ditos 9, 11, 16 e 19, bem como a testificação de seu caráter plenamente humano, que o faz sorrir (dito 17), chorar (16) e também se irar (dito 13). Temos referência ao famoso Milagre da Chuva no dito 12. 

 

Os ditos [1] e [2] se referem ao desconcerto do jovem Marco Aurélio diante de sua indicação como sucessor de Antonino Pio. 

Marco, em seu império, encontrou forças para superar grandes adversidades, além de longa epidemia e guerras que assolaram Roma, sofreu tentativa de golpe de Estado, que fracassou. Para Panécio de Rodes (c. 185 — c. 110/09 AEC), sétimo e último escolarca do Pórtico , cada humano tem diante de si quatro papéis fundamentais a cumprir : o primeiro é o de animal racional, que nos distingue dos demais animais, papel do qual decorre o caráter moral do humano (a capacidade de ser justo ou injusto, bom ou mau), ausente nos demais seres cósmicos; o segundo é o caráter próprio de cada um, tanto físico quanto psíquico, pelo qual os humanos se distinguem entre si ; o terceiro é aquele imposto pelas circunstâncias, pelo qual, por exemplo, uns nascem em famílias abastadas e outros em  famílias humildes; o quarto é a profissão que cada um escolhe seguir. 

Desse modo, podemos dizer que Marco encarou sua indicação para governar Roma como missão apontada pela fortuna: apesar de seu caráter filosófico  [10], que reconhece e que faria dele filósofo em tempo integral se assim o tivesse escolhido (o quarto papel indicado acima), ele acolhe o poder imperial como  incumbência decorrente de sua posição social e das relações que mantinha graças a seus laços familiares e  políticos. 

Apesar da saúde fraca (como nos relata Dião Cássio, 71.10), ele  pôde, tal como seu sonho de adolescente previu, facejar múltiplos infortúnios com incrível tenacidade. Além disso, seu governo foi caracterizado pela austeridade, pela severidade e pelo rigor em relação a si mesmo. Foi, como atesta Dião Cássio (72.6), monarca consciencioso e diligente, consagrando-se, sempre que se via livre do front, às suas funções como juiz, estudando cuidadosamente (e às vezes varando noites) os processos a ele atribuídos. Manteve a fraqueza física em sua idade adulta e se alimentava com frugalidade e apenas à noite (Dião Cássio 72.6). Tratando com humanidade mesmo seus piores inimigos (Dião Cássio 72.14), foi magnânimo em relação às províncias que participaram do golpe contra ele (Dião Cássio 72.27.3.2; 28; 30), perdoando a quase todos. Concedia frequentemente audiências a embaixadores de nações estrangeiras (Dião Cássio 72.19) e detestava o derramamento de sangue, determinando que gladiadores lutassem com espadas com a ponta encoberta (Dião Cássio 72.29). Dião Cássio,  no fim de seu capítulo dedicado a Marco, oferece o seguinte testemunho sobre o imperador: 

Dião Cássio, 72.34: Além de possuir todas as outras virtudes, governou melhor que quaisquer outros que já estiveram em posições de poder. É verdade que ele não conseguia realizar muitas proezas físicas; porém, desenvolveu seu corpo, a princípio muito fraco, até ser capaz de maior resistência. Ele dedicou a maior parte de sua vida à beneficência, e esta pode ter sido a razão de ter construído, no Capitólio, um templo para a Beneficência [...] Ele se absteve de cometer ofensas e jamais agiu mal, voluntária ou involuntariamente; mas tolerou ofensas de terceiros [...] Enquanto isso, se uma pessoa fazia algo de bom, elogiava-a e utilizava-a no serviço em que se destacou, não dando atenção ao restante de seu comportamento, pois dizia que, por ser impossível criar um humano exatamente como se queria, era melhor empregar o que já existia para qualquer um dos serviços em que cada um deles poderia bem servir ao Estado. Toda a sua conduta se deveu à virtude autêntica, não ao fingimento. Viveu cinquenta e oito anos, dez meses e vinte e dois dias, dos quais passou um tempo considerável como assistente do primeiro Antonino, e foi ele próprio imperador por dezenove anos e onze dias, permanecendo o mesmo do primeiro ao último dia, sem mudar em nada. De fato, foi um bom homem, desprovido de qualquer pretensão.

 

REFERÊNCIAS: 

ARTEMIDORO. Sobre a interpretação dos sonhos. Trad. Eliana Aguiar. São Paulo: Zahar, 2009.

CÍCERO. On Duties. Trad. W. Miller. The Loeb Classical Library. Cambridge: Harvard University Press, 1913.

DIÃO CÁSSIO. Roman History. Trad. Earnest Cary. Harvard: Harvard University Press, 1914 - 1927.

JÚLIO CAPITOLINO et alii. História Augusta. Trad. Cláudia Teixeira, José Luís Brandão e Nuno Rodrigues. Coimbra: Imprensa de Coimbra, 2011.

MARCO AURÉLIO. Meditações. Trad. Aldo Dinucci. São Paulo: Cia das Letras / Penguin, 2023.

MARCUS AURELIUS. Marcus Aurelius. Trad. C. R. Haines. The Loeb Classical Library. Cambridge: Harvard University Press, 1919.

 

Link: para compra: https://a.co/d/cxiiMQb