A atualidade de As Pontes de Madison

Juan Erlle Cunha de Oliveira

Doutorando em Filosofia na UFBA

05/12/2025 • Coluna ANPOF

O filme As Pontes de Madison é, ao mesmo tempo, terno e trágico. Causa e efeito de um encontro trivial, capaz de se converter em um amor tórrido, cuja tragédia é a interrupção, um tanto abrupta, entre dois amantes em estado de graça. Robert Kincaid trabalha para a revista National Geographic e viaja para o interior de Iowa, nos Estados Unidos, a fim de fotografar belas pontes. Apenas isso. Francesca é uma dona de casa devota, casada e mãe de dois filhos, simbolizando a típica família americana. Teve de sacrificar, é verdade, os seus sonhos em prol do trabalho de cuidado. Robert é o oposto disso: não tem um lugar fixo, é um ermitão viajando o mundo a trabalho, colecionando experiências, lugares e pessoas. Francesca encontra-se sozinha em casa, já que o marido e os filhos viajaram para participar de um festival. Oportunidade propícia para solilóquios, tempo de qualidade e autocuidado. É nesse interim que Robert aparece. O filme é permeado por cenas sutis, cuja importância não é tão flagrante.

Ao que realmente importa. O filme pode nos oferecer uma reflexão mais contraposta aos arranjos das relações sociais e amorosas atuais. Uma breve pesquisa na internet mostra que a taxa de divórcio no Brasil cresce ano após ano, ao mesmo tempo em que há um recuo na taxa de casamento. Os brasileiros estão se casando cada vez menos e se divorciando cada vez mais. O livro Fracassou o casamento por amor?, de Pascal Brukner, contém um título que, por si só, é bastante provocativo. Aliás, filósofos franceses da atualidade adoram dar seguimento à tradição talvez iniciada com Madame Bovary, mas por um viés filosófico — pouco clássico, mas mais soft.

O parágrafo anterior contém, é verdade, muitas referências em tão pouco espaço. Mas hão de convir que se trata de um tema muito dissonante e as referências vão pululando em razão de esse texto ser também uma expiação.

A pergunta-título de Pascal Brukner deve ser invertida: acabou o amor por causa do casamento? O filme As Pontes de Madison é, de alguma maneira, a encarnação dessa pergunta. O poema-título de Juan Gelman é ainda mais perturbador: “Amor que serena, termina?”.

A atualidade de As Pontes de Madison se converge na conjectura acerca das eventuais consequências da hiperdigitalização da vida nua, que impõe velocidade, amplitude e profundida nas relações, à sombra pérfida de uma desenfreada disponibilidade de pessoas. Crises conjugais, ou de relações quaisquer, são facilmente dirimíveis, basta apenas fiar-se no alto intercambio de indivíduos. Redes sociais e aplicativos estão aí para isso. Há o medo do sofrimento de Eros, e cada um carrega um substituto, um outro ad hoc.

O filósofo coreano Byung-Chul Han tem dilatado a sua reflexão, presente em A sociedade do cansaço, para matizar temas variados, entre eles em como tem sido, hoje, o aparecimento do outro. Para Chan, a internet instaura uma comunidade de iguais e a crise de eros consiste precisamente no fato de que o outro não é mais um limite do eu; todos são superficialmente idênticos. Um problema endêmico das redes sociais é a recorrente procura por validação, convergindo para um ambiente propício de “doutrinação de nossas próprias ideias”. Não há maior tolo do que aquele indivíduo agarrado irrenunciavelmente às suas próprias convicções. Nem as pontes de concreto são assim, afinal de contas até elas precisam de pequenas frestas para que a dilatação dos corpos seja acomodada. Um prédio que atenda a expectativa de poder enfrentar terremotos não deve ser mais rígido, mas mais flexível.

A depressão surge, portanto, do auto-centramento excessivo e é assim que “um sistema que rejeita a negatividade do diferente desenvolve traços autodestrutivos.” (HAN, 2022, p. 9) Uma Ironia do destino ou da história, já que a internet surgiu como uma prática subversiva ou pelo menos com a virtude de ser uma espécie de praça pública.  A saída budista é, em rápidas palavras, um esvaziamento do eu. A visão de Han é, com razão, um tanto apocalíptica.

Se os indivíduos estão afoitos na procura de seus iguais, as afinidades eletivas decorrem de uma espécie de entrevista de emprego, colaborando com exatidão oferta e procura. O outro é aprovado segundo critérios enrijecidos. Basta apenas consultar os seus perfis nas redes sociais para que o estranho seja previamente conhecido, e as conversas iniciais tendem a ser meros procedimentos cartoriais e burocráticos. Em As Pontes de Madison, Francesca e Robert são, inicialmente, dois completos estranhos e é justamente nessa fresta que a cupidez é instaurada. Suas etiquetas são tão gerais que, no final das contas, nada informam um sobre o outro. Ela, uma dona de casa; ele, um fotógrafo ermitão. Para ele, o mundo é a casa, para Francesa a casa é o mundo.

Seja em Han ou em Roland Barthes, a sedução e cupidez são um topos a partir do qual duas pessoas vão se assimilando e se enquadrando em um léxico privado, o desconhecido tornando-se familiar num trabalho lento e artesanal. A hiperconectividade erodiu a conversa e possibilidade de um eu-negativo como um expediente tão caro a uma educação sentimental. Tudo é tão igual e a relação interpessoal se traduz numa constante compulsão por si mesmo. Han vê isso como consequência da inserção de uma lógica neoliberal. Coisas e pessoas são mercadorias e muito bem etiquetadas. Quem nasceu na década de 90 para trás tem o benefício de experienciar uma vida híbrida — com e sem internet -, de maneira que esse texto soaria desconcertante para os mais jovens ou uma tentativa de recuperar um romantismo fora de moda. Esse texto é uma expiação dos híbridos.

Se, portanto, estamos constantemente buscando um igual, como bem aponta Han, qualquer diatribe amorosa é superdimensionada, pois constitui um furo narcísico ante a aquiescência de que tudo deve ser igual. Mas desde quando o amor é asséptico e sem suas diatribes?

Só há um caminho para Robert e Francesca: a conversa. Parece um grande mistério conceber como de um encontro tão trivial e não-intencional pôde surgir um amor intenso. A conversação vai instaurando entre eles uma sedução não-intencionada, sedução pela simplicidade ante a mera existência alheia, culminando na liberdade de o outro poder ser quem realmente é. Eis outra dimensão do filme: não há, entre eles, juízo de valor ou avaliação, porquanto avaliar e julgar é a imposição de uma regra própria. Os dois não são montados para teste. A ausência de juízo de valor é a dimensão profunda de uma relação respeitosa. A digitalização progressiva condiciona uma vida que deve ser sempre roteirizada e o outro se torna mero adereço na realização de propósitos particulares.

Outro ponto no filme é a metanoia. Francesca pergunta por quê Robert gostava de fotografia. Robert apenas diz que é obsessão, mas ao final do filme a resposta muda totalmente: “porque a fotografia me levou até você”. A forma como o filme mostra o amor entre os dois condiz a uma dimensão totalizante e de elucidação absoluta da existência humana, antes um mistério. A resposta de Robert é uma iluminação. Se a vida é um sucedâneo de fatos não-conectados entre si, pela via do amor o destino é de todo esclarecido e todos os pontos da vida são, portanto, conectados pela celebração do encontro. A visão de um mundo uno e totalizante é o que um filósofo austríaco chama de sentimento místico. Robert alcança uma visão epifânica, de maneira que tudo que ele fizera até então foi para levá-lo até Francesca. O início, que apresenta Robert chegando em um Ford, se une ao final do filme como elos de uma corrente.

Os arquétipos estão ali gravitando: o homem das lonjuras, que retorna ao lugar desconhecido e o reconhece como íntimo, como se já estivera ali antes. A mulher como do lugar fixo e com as suas prerrogativas — Elizabeth, de Orgulho e Preconceito, é também exemplo de mulher com prerrogativas. No caso de Francesca, as suas prerrogativas foram silenciadas por um trabalho de cuidado e Robert a faz recuperá-las e, assim, ela se desvela. É nesse aspecto que o filme se assemelha aos romances de formação (Bildungsroman), como Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, de Clarice Lispector. Mas Francesca já era uma mulher formada, que, entretanto, de forma outra vez na meia-idade.

Em Orgulho e Preconceito, Elizabeth se apaixona por Mr. Darsy depois de vê-lo representado em um busto, um distanciamento racionalizado. Não é à toa que o prólogo do livro é escrito por um filósofo humeano. Ali, o homem se apaixona apaixonadamente, a mulher se apaixona racionalmente.

Para se tornar cavaleiro e enfrentar os moinhos de vento, o fidalgo Don Quixote pegou as armas de seus bisavôs, adotou um novo nome e um cavalo. Por fim, precisava de uma dama: Dulcinea del Toboso — “Está claro que ella cierra el conjunto esencial iniciado por las armas y el caballo.” (González, 2010). O homem das lonjuras mobiliza distância e enfrenta os seus moinhos de vento. Qual o erro principal, extraído de As Pontes de Madison? É achar que garantir a “vocação doméstica” é o suficiente para um amor longevo.


Referências

AS PONTES de Madison. Direção: Clint Eastwood. Produção: Clint Eastwood e Amblin Entertainment. Intérpretes: Meryl Streep; Clint Eastwood. Roteiro: Richard LaGravenese. Estados Unidos: Warner Bros. Entertainment, 1995. 135 min.

BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Rio de Janeiro: F. Alves, 1981.

GONZÁLEZ, Mario M. Las transformaciones de Aldonza Lorenzo. In: Lemir 14 (2010): 205-215.

HAN, Byun-Chul. A expulsão do outro: sociedade, percepção e a comunicação hoje. São Paulo: Vozes, 2022.

HAN, Byun-Chul. Agonia do Eros. São Paulo: Vozes, 2017.

ORGULHO e Preconceito (Título em destaque, pode ser em negrito ou itálico, e a primeira palavra em caixa alta). Direção: Joe Wright. Produção: Tim Bevan; Eric Fellner; Paul Webster. [S.l.]: Universal Pictures; Focus Features; StudioCanal; Working Title Films, 2005. 1 DVD (129 min).


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