A farsa da polarização política: a substituição da contradição de classes pela oposição ideológica
Claudinei Luis Chitolina
Professor de Filosofia da UNESPAR
20/05/2026 • Coluna ANPOF
É da natureza da filosofia voltar seu olhar para a realidade política, dado que a filosofia é filha da pólis democrática. É no diálogo, no confronto e na livre discussão de ideias que a filosofia se lança na aventura crítica do pensamento. Em regimes políticos autoritários, a filosofia é perseguida, censurada ou cooptada. Como sabemos, a filosofia tem em seu atestado de nascimento um compromisso com o destino comum da sociedade, por isso, não pode ser indiferente diante do poder político. Não só a sobrevivência e o desenvolvimento da filosofia dependem de decisões políticas, mas também o destino da sociedade. Entretanto, a relação da filosofia com o poder político é, via de regra, uma relação conflitiva, porque os interesses que presidem o funcionamento do poder político nem sempre coincidem com os interesses da filosofia. A filosofia existe para questionar o porquê das coisas, a fim de poder conhecer e defender a verdade, a justiça, o bem e o belo. Se a aparência coincidisse com a essência das coisas, desnecessária seria a filosofia e a própria ciência. Daí dizer que tudo o que parece óbvio desafia e interpela o pensamento filosófico. Assim, a análise filosófica implica considerar o poder político como um problema a ser compreendido em sua natureza e em sua lógica de funcionamento.
Ora, o atual cenário político brasileiro revela-se, à primeira vista, enigmático para o cidadão comum, uma vez que vivenciamos os efeitos perversos e as ameaças da ascensão do pensamento político-ideológico de extrema direita ao redor do mundo e no Brasil. Há, entretanto, uma contradição flagrante em nossa realidade política e social, mas que não é percebida por muitos brasileiros. Como entender o fato de que a sociedade brasileira é composta, em sua grande maioria, por pessoas empobrecidas (trabalhadores de diferentes ofícios, profissões e ocupações) que são exploradas e excluídas socialmente do acesso a muitos bens do progresso técnico-científico, mas uma parcela considerável desses trabalhadores tende a apoiar e a eleger candidatos que representam os interesses das elites econômicas que, expressamente ou não, pretendem retirar ou reduzir direitos trabalhistas? Existem inúmeros fatores que explicam este fato, mas não será aqui objeto de análise. O que pretendemos analisar é a suposta polarização política que capturou o discurso e o pensamento dos analistas políticos da grande mídia, assim como sua reverberação nas plataformas digitais e nas redes sociais. Para muitos brasileiros, a sociedade está politicamente polarizada (entre esquerda e direita) ou ideologicamente dividida, supondo que o termo esquerda está associado ao socialismo e o termo direita está associado ao capitalismo.
Embora sejam de largo uso, os termos, esquerda e direita não retratam a realidade política brasileira. Ao contrário, são utilizados sem um referencial histórico que possa fundamentar o discurso ideológico e político. É preciso recuar na história para entendermos a origem, o uso e os significados destes termos, que carecem de significado, quando em confronto com nossa realidade social e política. No contexto histórico da Revolução Francesa, duas facções políticas da burguesia estiveram em conflito. Os jacobinos, considerados radicais e violentos, se sentavam à esquerda da mesa diretora da Assembleia legislativa e pretendiam sepultar de vez o antigo regime político (o absolutismo monárquico dos reis) e o regime econômico (o feudalismo) para dar lugar ao capitalismo. Para tanto, defendiam mudanças bruscas e transformações revolucionárias na política e na economia. Por outro lado, os girondinos (moderados) sentavam-se à direita, defendiam mudanças lentas e graduais na implantação de governos republicanos (repúblicas constitucionais) e na implementação do capitalismo.
Ora, no transcurso da Revolução Francesa, o termo esquerda não tinha conotação socialista, mas apenas antiaristocrática. É com o desenvolvimento da Revolução Industrial (no decorrer do século XIX) que tem origem o proletariado e o aprofundamento das desigualdades sociais e econômicas. No início do séc. XX, a Revolução Russa pretendeu transpor para o plano histórico (social, político e econômico) a teoria marxista. Nesse contexto histórico, a teoria socialista de extração marxiana e marxista se apropria e ressignifica o termo esquerda e se torna a sua expressão mais radical, porque propõe a luta contra o capitalismo. Em 1848, Marx e Engels publicaram o Manifesto do partido comunista e, em 1845/1846 redigiram A ideologia alemã (publicada postumamente em 1932). Em 1864 é criada a Associação internacional dos trabalhadores (a Primeira Internacional). A luta política deixou de ser contra a monarquia para ser uma luta revolucionária, a fim de superar o capitalismo.
A Guerra Fria (1947-1991) redefiniu política e ideologicamente o mundo em dois blocos. O bloco capitalista – liderado pelos EUA e o bloco socialista/comunista – liderado pela ex-URSS. O fim da Guerra Fria – marcado pela derrubada do muro de Berlim (1989) e pela desintegração das repúblicas soviéticas, em 1991, provocou o colapso da divisão do mundo em dois blocos ideológicos, políticos e econômicos. Assim, o suposto ou aparente triunfo do capitalismo fragmentou e enfraqueceu as lutas políticas da esquerda pela superação do capitalismo em direção ao socialismo. Como efeito da Guerra Fria, no final do século XX, a esquerda foi se distanciando do socialismo científico, de modo que muitos partidos políticos de esquerda abandonaram o ideal revolucionário na Europa e aceitaram o capitalismo (na versão política de Estado de Bem-estar social). Enfraquecida pelo fim da Guerra Fria e pela crise do socialismo real, a esquerda abandonou a luta revolucionária e reformulou sua agenda política e passou a lutar apenas por direitos humanos, democracia, meio ambiente e identidade de gênero. A esquerda deixou de ser marxista para ser liberal na economia e progressista nos costumes e nas pautas sociais. Ou seja, já é possível ser de “esquerda” sem ser socialista e sem pretender abolir o capitalismo.
Porém, sem um adversário externo que pudesse rivalizar e se contrapor ao capitalismo, o sistema capitalista viu na classe trabalhadora um inimigo interno, por isso, intensificou a exploração, a dominação e a subjugação dos trabalhadores para responder à sua crise estrutural. Os direitos trabalhistas passaram a ser vistos como um obstáculo para a exploração capitalista, por isso inúmeras ofensivas neoliberais sobre os trabalhadores promoveram reformas trabalhistas e previdenciárias ao redor do mundo para reduzir os custos da mão de obra e atender às imposições do capital.
Diante disso, resulta necessário retornarmos à questão inicial: existe polarização política no Brasil ou se trata de um instrumento ideológico para impedir a organização e a luta revolucionária da classe trabalhadora? Existe polarização política sem polos opostos ou sem antagonismos de classe? Ora, a tese de que há uma polarização política encobre as contradições (e as lutas) de classe e os conflitos sociais no interior do capitalismo. Por isso, funciona como um dispositivo ideológico para desviar a atenção da classe trabalhadora sobre as causas estruturais e materiais dos problemas sociais. Desloca-se o problema político para a superestrutura – que é a esfera das ideias e da cultura. A luta passa a ser puramente ideológica, cultural e moral. Rompe-se o vínculo que une e subordina o poder político ao poder econômico. Porém, não é possível compreender a política como esfera autônoma ou independente da economia.
Portanto, é falsa a ideia de que há polarização política no Brasil. De acordo com a análise marxista, a extrema direita e os partidos de esquerda de maior representatividade (liderados pelo PT) não são projetos políticos contraditórios, mas posições ou oposições ideológicas diferentes na defesa do sistema capitalista. Existe uma polarização partidária (e eleitoral) que se limita a disputar ideias, símbolos e narrativas. A esquerda radical, porque tem baixa representatividade política não constitui uma ameaça real ao capitalismo. A extrema direita (capitaneada pelo bolsonarismo) defende a liberdade econômica, a ordem estabelecida e a tradição, por isso, é denominada de conservadora, retrógrada, autoritária e neofascista. Defende a reinstauração da ditadura no Brasil para conter ou reprimir possíveis levantes ou insurreições da classe trabalhadora. Por sua vez, a esquerda liberal foi domesticada pelo capital; defende o papel do Estado na valorização do salário mínimo e na ampliação de políticas públicas compensatórias para abrandar problemas sociais e reduzir o fosso que separa os ricos dos pobres, mas sem propor uma ruptura revolucionária. Assim, a esquerda liberal imagina ser possível avançar na direção de uma sociedade mais justa, igual e humana lutando pela inclusão dos excluídos no mercado de bens de consumo. Como se vê, a luta política da esquerda (liderada pelo PT) não é pela revolução socialista, mas pela defesa da democracia liberal burguesa e pela soberania nacional. O projeto nacional-desenvolvimentista da esquerda que contrasta com o projeto neoliberal da direita e da extrema direita (de privatização das empresas públicas) e de transformação dos direitos em serviços confluem na defesa do sistema capitalista. Portanto, a farsa da polarização política consiste em reduzir a política a um jogo de aparências, petismo versus antipetismo e bolsonarismo versus antibolsonarismo; amigos versus inimigos, o bem versus o mal, onde a hostilidade e a intolerância mútua predominam entre os oponentes. O teatro político representa a morte da verdadeira política. Enquanto a luta política não for travada entre capital versus trabalho e entre capitalismo versus socialismo não haverá verdadeira polarização e transformação política.
A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.