A Solidão, os Livros e o Espelho: Reflexões Sobre a Antiga e Incontornável Questão da Felicidade

Hilton Leal da Cruz

Professor Efetivo do IFBA; Membro do GT Poética Pragmática (UFBA)

11/02/2026 • Coluna ANPOF

Todos queremos ser felizes e desejamos que nossas vidas tenham sentido. Contudo, poucas coisas são tão incertas quanto descobrir como alcançar esses objetivos. Entre o berço e o túmulo buscamos segurança, prazer, status, autoridade, fama e incontáveis outros bens, cuja importância varia conforme a pessoa e o momento. Envolvemo-nos em credos religiosos e políticos, gastamos tempo e dinheiro, cultivamos admiração, inveja ou hostilidade por quem nunca encontramos. Em outras ocasiões desafiamos nosso próprio destino escalando montanhas ou nadando com tubarões. Se o prazer fosse o objetivo final da vida — como alguns defendem — por que nos exporíamos a riscos, dor e sofrimento, sob pena de abreviar nossa existência? E mesmo com tanto esforço, apesar da aparência fabricada das redes sociais, os níveis de felicidade não acompanham linearmente a melhoria das condições materiais. Mesmo em países desenvolvidos, eles oscilam bastante.

Um dado curioso reforça essa inquietação: segundo o Relatório Mundial da Felicidade[1], pessoas nascidas após 1980 relatam índices de satisfação inferiores aos das gerações anteriores, mesmo quando comparadas na mesma idade. Justo aqueles que cresceram em meio a abundância de bens e experiências relatam menos felicidade. Não é preciso considerar tais pesquisas infalíveis para perceber que algo não vai bem na maneira como conduzimos nossas vidas. O que falta?

Embora se fale muito em política e transformação social, e embora prolifere o engajamento em crenças religiosas “modernizadas” e em inúmeras expressões estéticas e morais, quase ninguém nota que essa variedade de estilos de vida surge num contexto cultural que sugere — ainda que tacitamente — que quase toda forma de buscar a autorealização é igualmente válida. Compartilho com outros filósofos a ideia de que vivemos um tempo de desarticulação do discurso moral, de silenciamento da reflexão sobre o sentido da vida e sobre os referenciais necessários para pensar a felicidade. Como primeiro passo para enfrentar essa dificuldade, proponho examinar os riscos que ameaçam nossa aspiração por uma vida com sentido. O primeiro deles, talvez o mais inescapável, é o que chamarei de armadilha da felicidade obrigatória. Somos bombardeados por discursos que proclamam a necessidade de se dizer feliz. Admitir não estar feliz — ou sentir falta de sentido — produz culpa, amplificando o mal-estar, como se a infelicidade não fosse humana e comum. Assim, diante de dificuldades, olhamos o que os outros parecem estar fazendo e procuramos imitar suas performances sociais para conquistar nossa parcela de felicidade. Porém, a felicidade alheia, exibida e artificialmente aperfeiçoada pelas tecnologias digitais, rebaixa nossas expectativas. Paradoxalmente, nada nos torna mais infelizes do que o imperativo social da felicidade, que cresce quanto mais a vida dos outros invade a nossa. A sensação de obrigatoriedade corrói a possibilidade de uma perspectiva autêntica, intensificando-se à medida que perdemos o espaço de privacidade no qual o mundo alheio não nos alcança. Como evitar esse problema? Talvez parte da resposta esteja na recuperação de práticas vinculadas ao enriquecimento da vida interior — como a literatura.

O filósofo Richard Rorty dizia que “literatura é o que fazemos com nossa solidão”[2] e que ela é uma das principais ferramentas para construir uma vida da qual possamos nos orgulhar. Para ele, a literatura enriquece nossa imaginação moral ao ampliar nossa capacidade de compreender vidas muito diferentes — ou até opostas — às nossas. Isso é o oposto do que ocorre quando, ao retirar o smartphone do bolso, somos inundados por vidas alheias superficialmente apresentadas.

A observação de Rorty dialoga com muitos pensadores, antigos e contemporâneos — Sócrates, Epicteto, Sêneca, Marco Aurélio, assim como Buda, Lao-Tsé, Krishnamurti e Alan Watts —, todos sugerindo que tanto a felicidade quanto o sentido da vida dependem de algum tipo de autoconhecimento. Embora cada um tenha compreendido a própria ideia de autoconhecimento à sua maneira, me parece razoável sugerir que todos concebiam essa ideia como um tipo de retorno à nós mesmos para daí então investigarmos quem somos e quais são nossas possibilidades.

Mas como descobrir quais são essas possibilidades? Em grande parte, só avançamos nesse campo quando a exposição ao mundo, o confronto com as circunstâncias, nos leva a delinear nossos contornos. No entanto, nem toda exposição é viável; algumas podem nos desestabilizar profundamente, confundindo e desarticulando. Há aqui uma circularidade: para conhecer a si mesmo, é preciso estabelecer relações com o mundo; porém algumas circunstâncias ameaçam essa autocompreensão. Assim, não é qualquer experiência que pode ser vantajosa — precisamos selecionar. É nesse ponto que minha reflexão filosófica se distancia do discurso religioso. Para enfrentar a armadilha da felicidade obrigatória e lidar com nossa singularidade e nosso sofrimento, é preciso desenvolver algum tipo de autocompreensão provisória, heurística, articulada tanto por novas descobertas da neurociência, quanto por leituras que expandem a imaginação moral, ou ainda por práticas terapêuticas sérias. Tomando certa licença poética, diria que precisamos fincar raízes em nós mesmos, mesmo enquanto nos expomos ao mundo. Somos seres físicos e culturais, formados no entrelaçamento entre limitações biológicas e imposições históricas. Cada pessoa é, simultaneamente, uma possibilidade e um risco. Por isso, parece imprudente apostar tudo em um único mestre espiritual ou num único discurso religioso ou científico. A vida é séria demais para que depositemos todas as fichas na primeira rodada. Sugiro, então, uma lente pluralista e materialista para a autocompreensão: uma via que não se rende às soluções religiosas, mas tampouco descarta os sistemas de sabedoria do passado. Minhas sugestões sobre felicidade dialogam com Jonathan Haidt, em A Hipótese da Felicidade[3], e com André Comte-Sponville, em Felicidade Desesperadamente[4]. De Haidt, tomo a noção neuro cultural de ser humano: há limites pré-estabelecidos para o tipo e grau de felicidade que podemos atingir, mas podemos nos aproximar desses limites ou ficar aquém deles, dependendo das ações, do ambiente e da cultura. Entretanto, contra Haidt, considero que a questão do “quem somos” não se resolve apenas pelas ciências naturais. Se o desejo de tomar café pode ser explicado fisiologicamente, o modo como experienciamos esse café varia segundo a maneira como nos tornamos conscientes da experiência. Posso ser arrastado por minhas memórias ou posso deliberadamente direcionar a consciência à experiência presente. É essa diferença na relação entre a experiência e o tipo de consciência que se tem dela que Comte-Sponville explora para formular o seu conceito de felicidade em ato. Contudo, essa proposta depende daquilo sobre o que as ciências ainda não conseguiram formular uma teoria consensualmente aceita: a autoconsciência.

É razoável supor, como muitos já supuseram, que modificar o modo como nos tornamos conscientes de nossos pensamentos, sentimentos e ações altera profundamente nossa experiência deles. Trata-se de retornar a si mesmo no presente, na concretude do instante em que vivemos e agimos. Poderia a repetição desse tipo de experiência modificar o modo como percebemos a nós e ao mundo? Poderia acrescentar alegria, leveza, sentido? Algumas correntes contemporâneas da psicoterapia parecem responder positivamente. O neurocientista Sam Harris, em seu livro Despertar[5], afirma que práticas como mindfulness e determinadas formas de meditação podem alterar drasticamente nossa experiência do mundo e de nós mesmos. Para ele, porém, não é um argumento que deve nos convencer disso — mas a própria experiência. Concordo, com ressalvas, que não cabem aqui. Concluo afirmando que a questão do sentido da vida precisa ser retomada pela filosofia, e que nosso tempo, apesar dos desafios, oferece ferramentas para isso. Cada pessoa trilhará seu caminho, mas o êxito dependerá sempre da interação entre limites fisiológicos e culturais. Podemos nos tornar muitas coisas diferentes e viver de muitas maneiras, mas não podemos ser qualquer pessoa, nem viver todas as possibilidades.


Bibliografia

COMTE-SPONVILLE, André. A felicidade, desesperadamente. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2001

HAIDT, Jonathan. A hipótese da felicidade: encontrando a verdade moderna na sabedoria antiga. Tradução de Helena Mussoi. 2. ed. São Paulo: LVM Editora, 2022.

HARRIS, Sam. Despertar: um guia para a espiritualidade sem religião. Tradução: Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2015

RORTY, Richard. Contingência, ironia e solidariedade. São Paulo: Martins Fontes, 2007


Notas

[1] https://www.worldhappiness.report

[2] O texto principal em que Rorty desenvolve essa distinção, propondo que a reflexão filosófica (e por extensão a literatura) seja transformada em um assunto privado, é Contingência, Ironia e Solidariedade. Embora Rorty frequentemente use a expressão "o que você faz com sua solidão" (uma referência à definição de religião de A.N Whitehead) para caracterizar a esfera privada, ele a aplica ao projeto do intelectual ironista de autocriação, que se manifesta e efetiva por meio da leitura e escrita consideradas literárias. (RORTY, Richard. Contingência, ironia e Solidariedade. São Paulo: Martins Fontes, 2007)

[3] HAIDT, Jonathan. A hipótese da felicidade: encontrando a verdade moderna na sabedoria antiga. Tradução de Helena Mussoi. 2. ed. São Paulo: LVM Editora, 2022

[4] COMTE-SPONVILLE, André. A felicidade, desesperadamente. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2001

[5]Sobre as dificuldades científicas para explicar satisfatoriamente fenômeno da consciência, bem como da relação entre  esse fenômeno e as possibilidades de autorrealização sem compromissos religiosos o livro de Sam Harris oferece Interessantes e instigantes observações.  (HARRIS, Sam, Despertar: um guia para a espiritualidade sem religião Tradução de Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2015)


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