Alteridade e vítima: a des-construção na ética da libertação de Enrique Dussel
Gedeon José de Oliveira
Doutorando em Filosofia na Universidade Federal do Ceará
05/11/2025 • Coluna ANPOF
De acordo com a leitura de Enrique Dussel, o projeto histórico da metafísica ocidental esteve, desde sua origem, voltado para a questão do ser, de modo a reduzir a pluralidade de pensamentos, à lógica de um “ser supremo”, que se coloca como medida e fundamento para pensar a totalidade da vida. Essa centralidade não apenas impôs um paradigma eurocêntrico de racionalidade, como também legitimou formas de dominação ao longo da história, servindo de base para justificar hierarquias, exclusões e, a cima de tudo, mobilizou a colonização na América Latina.
Esse projeto, que tem raízes nos pré-socráticos, passando por Platão e Aristóteles, radicaliza-se na “modernidade” mediante racionalidade cartesiana e a metafísica do sujeito. “Os gregos foram os primeiros que descobriram explicitamente o nível ontológico: os entes desde o horizonte do ser. Porque o ser, sendo o supremamente óbvio, é, contudo, o mais difícil de discernir tematicamente: ‘A fysis (o ser) gosta de ocultar-se (kriptesthai)’, dizia Heráclito” (Dussel, 1973, p. 45). O ser, neste sentido, é interpretado como devir, isto é, como fluxo universal das coisas, mediante velamento e desvelamento. Esse entendimento traz, para o interior da Ética da Libertação, uma contradição fundamental.
O ser é horizonte dentro do qual tudo assume forma e sentido: “É necessário seguir o que é de todos (o ser), isto é, o comum. Porque o que é de todos é comum. Embora o lógos (a compreensão do ser) seja o que é de todos, a maioria (hoi polloi) vive como se cada um tivesse sua própria (idian) sabedoria. A sabedoria consiste (ao contrário) em prestar atenção ao enunciar (légein) e agir, a fim de descobrir (aletheia) segundo a fysis (o ser) ” (Dussel, 1973, p. 45).
Se o ser é comum, como pode cada indivíduo acreditar possuir uma sabedoria particular? Essa contradição não é apenas especulativa, mas prática, pois o modo de viver humano oscila entre a abertura e o fechamento ao ser. A contradição está entre o caráter universal do ser (logos) e a pretensão de um fechamento individualista, onde cada um tem uma “sabedoria própria”. Para Dussel, a sabedoria precisa retornar ao seu aspecto comum: uma disciplina de ouvir o lógos que é de todos, contra a tentação de se refugiar na “opinião” (dóxa) como se fosse um saber. Desse modo, a Ética da Libertação I: acesso ao ponto de partida da Ética desenvolve um projeto que visa romper essa contradição pela escuta e pelo agir em direção ao que se revela (aletheia) no horizonte comum da physis.
O que vai estruturar a Ética da Libertação é o “enunciar” (légein), o “agir” (práxis) a fim de “descobrir” (aletheia) segundo a “fysis” (ser). Nascida no contexto latino-americano, isto é, marcada pela crítica à dependência cultural, política e econômica, a Ética da Libertação caracteriza-se pela sua capacidade de “enunciar” desde o seu contexto de vítima, o outro, isto é, uma alteridade que Dussel denomina de “exterioridade”. Daí que enunciar significa dizer que a Ética da Libertação dá voz, ouve o grito daquele cujo silêncio fora imposto pela colonização. No entanto, não basta ouvir o grito do outro, mas, a partir do grito do outro, desvela-se (aletheia), na América Latina, uma práxis libertadora, isto é, uma ética libertária. Tal ética orienta-se pela alteridade, pela comunidade humana e pela natureza (fysis), contra a depredação do capitalismo em curso. Mediante esse contexto, surge, então, a pergunta fundamental: é possível pensar fora do eixo da filosofia e teologia ocidental?
A QUESTÃO DO POBRE COMO OUTRO
Com uma epistemologia que se caracteriza pelo pensar a partir do seu contexto e da sua realidade, Dussel toma como objeto de estudo sujeitos históricos, com rosto e distinto. Esses sujeitos, no pensamento dusseliano, deslocam-se da passividade ao protagonismo e assumem uma posição propositiva e curiosa, tornando-se, assim, chave de leitura crítica para discussão do âmago de seu pensamento: A Ética e a Libertação. Para Dussel, a Ética da libertação não é conjunto de meras ações teóricas, mas uma posição política e o critério determinante para o posicionamento epistemologicamente político, a ética da Libertação parte do outro. Nestes termos, diz Dussel: “Nossa contribuição, como leigo e historiador, ao mesmo tempo que como filósofo e teólogo, residiu em dar primazia absoluta à questão do pobre como Outro” (Dussel, 1984a, p. 7). Neste enunciado, se destacam palavras-chaves fundamentais das quais estruturam um pensamento fora do Ocidente, a saber: história, (historiador) filosofia, (filosofo) e leigo (leigo vem laikós e significa povo). Desde o ponto de vista de um historiador, filósofo e do povo se constrói uma Filosofia genuinamente Latina americana. Enrique Dussel condensa, na questão: “o pobre como outro”, o problema central do seu pensamento filosófico, pois é uma questão que aparece com frequência em todos os seus escritos. Isso nos leva a concluir que o horizonte interpretativo das suas obras já se encontra, desde o princípio, no livro Ética da Libertação I: acesso ao ponto de partida da Ética. Claro que esse ponto de vista pode ser contestado, mas, antes, deve-se observar “a situação hermenêutica (ou aquilo que deve ser interpretado, que é o tema de nossa investigação) que devemos reter em nosso olhar é o homem no mundo como um todo em sua cotidianidade prática” (Dussel, 1973, p. 42). A partir da orientação colocada por Dussel, isto é, a partir da cotidianidade prática, podemos levantar a seguinte questão: quem é o pobre como outro? Dussel, então, responderá: é o distinto.
Trata-se não de “o Mesmo”, nem sequer de “o Outro” como diferença ôntica em “o Mesmo”; trata-se de “o Outro” que é originariamente distinto, sem unidade nem identidade prévia, que converge no encontro: encontro que é a origem mesma do mundo, alteridade metafísica e ética, de onde surge o horizonte ontológico; realidade última e proximidade na qual o homem volta, nos momentos privilegiados de sua história, para beber a água de onde vive sua vida e que apaga sua sede de ser mais (Dussel, 1973, p. 117).
O Outro é, desde o aspecto originário, distinto, irredutível, sem fundamento, impensável e não se deixa confundir com o “mesmo”. O pobre é o Outro e o Outro é, originalmente, o distinto. Assim, o Outro, ora ocidental, constitui-se enquanto distinto desde a Ética da Libertação I.
CONCLUSÃO
Ao tematizar a alteridade, vítima e universalidade no pensamento de Dussel, evidenciamos os aspectos fundamentais na elaboração da Ética da Libertação, acesso ao ponto de partida da Ética.
Existe um debate atual, no qual muitos filósofos latino-americanos defendem a ideia de que a Filosofia da Libertação, por ser um discurso localizado, se enquadra nos parâmetros de uma filosofia regional. Discordamos totalmente de tais narrativas. Pode haver sim, uma filosofia propriamente latina americana, mas não a elaborada por Enrique Dussel. Com Levinas, Dussel deu nome às vítimas, de modo que, ao refletir sobre a Ética da Libertação, verificamos que a alteridade se torna o fundamento ontológico do pobre, pois todo o sofrimento imposto ao pobre pelo ocidente, foi ao outro que fizeram. Por esse motivo, a alteridade tem o caráter de ação e atividade. É por meio da ação em prol da alteridade que se justifica uma ética universal da américa latina para a américa latina e da américa latina para o mundo.
É mediante uma ética da vida, que podemos, grosso modo, analisar a atual sociedade capitalista, pois o processo de globalização econômica, impulsionado principalmente pela corrente liberal-capitalista, cria estruturas sociais complexas para legitimar as injustiças sociais como forma de governabilidade. Nestes parâmetros, abordamos o modelo do pensamento ontológico universalizante que, dentre outras coisas, considera o ser humano e a história como realidades determinadas pelas leis da razão ou pelas leis da natureza.
Referências
CASELAS, J. M. S. A utopia possível de Enrique Dussel: a arquitetônica da ética da libertação. Cadernos de Ética e Filosofia Política, v. 15, 2009.
DUSSEL, Enrique. Para uma ética da libertação latino-americana. 1: Acesso ao ponto de partida da ética. São Paulo: Loyola, 1977.
DUSSEL, Enrique. Filosofia da libertação. México: Editor Edicol, 1997.
DUSSEL, Enrique. Caminhos de libertação latino-americana. São Paulo: Paulinas, 1984a. v. IV.
DUSSEL, Enrique. Ética da libertação: na idade da globalização e da exclusão. Petrópolis: Vozes, 2002.
DUSSEL, Enrique. Política da Libertação: história mundial e crítica. vol. I. Passo Fundo: IFIBE, 2014.
VELASCO, Sírio Lopez. Reflexões sobre a Filosofia da Libertação. Campo Grande: CEFIL, 1991.
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