Até Meu Cachorro?! Sobre a Onipresença do Paradoxo
Gabriel Azevedo Cruz
Mestrando em Filosofia na UFRRJ
10/12/2025 • Coluna ANPOF
A possibilidade de propor teorias abrangentes capazes de delinear o caráter essencial da realidade a partir de concatenações abstratas, embora se imponha como uma empresa que suscita desconfiança, transparece, na contemporaneidade, como um catalisador para projetos filosóficos ousados e promissores tais quais o materialismo especulativo, a ontologia dos campos de sentido, a ontologia orientada aos objetos etc. Um compromisso-chave dessa ruptura paradigmática é a consideração de que a filosofia, com sua capacidade ímpar de articular lógica, conceitos abstratos e dados empíricos, tem como função delinear um arcabouço consistente que forneça uma imagem produtiva da realidade como um todo, na busca por uma melhor compreensão da natureza, da sociedade, do humano e de como devemos agir: nessa imagem herética e sectária, vale a fórmula: “filosofia = metafísica”.
Em 2024, nossa própria contribuição para este cenário de experimentações filosóficas foi articulada sob o nome de Paradoxismo, no artigo “The World In Paradox”.[1] O centro polêmico da proposta é facilmente sintetizável: “ser é ser paradoxal”. “Mas até meu cachorro?!” – essa foi a reação imediata de Gabriel Brasileiro, Mestrando em Filosofia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) quando enunciamos[2] a fórmula básica do ser segundo o paradoxismo. A reação é justa por, ao menos, um motivo central: ainda que seja verdadeira a ideia de que o centro de uma filosofia possa ser resumido em poucas asserções paradigmáticas, essas mesmas asserções trazem uma sonoridade místico-oracular suspeita, precisamente porque toda a justificação lógico-conceitual que as subsidia é elidida em prol de uma apresentação hiper-sintética. Brasileiro queria compreender quais são as justificativas para a generalização do paradoxo a tudo o que existe, incluindo, claro, seu cachorro. O desenrolar dessa história foi um processo argumentativo estimulante, que nos forneceu a oportunidade de elaborar e reelaborar uma série de intuições do Paradoxismo em face de oposições filosóficas pertinentes. Nosso objetivo no presente texto é delinear as oposições e respostas que ali emergiram com um pouco mais de rigor.
Existem dois pontos fulcrais que constituem o âmago dos problemas filosóficos circunscritos ao diálogo, a saber, (1) o pressuposto da oposição ao Paradoxismo e (2) o modelo argumentativo aplicado. Longe de defender disparates como faz o Paradoxista, Brasileiro apresentou posturas sóbrias que podem ser facilmente vinculadas a dois compromissos padrão da filosofia clássica, a saber, uma adesão irrestrita ao princípio de não-contradição (PNC) e um realismo de base estética. A análise desses dois pontos constitui o centro conceitual e o itinerário factual de nosso texto.
Começando pelo ponto (1), é a “adesão irrestrita ao PNC” que nos auxilia a progredir na caracterização dos pressupostos anti-paradoxistas explicitados pelo interlocutor. Tradicionalmente, essa postura põe em xeque a ideia de se adicionar objetos contraditórios (e contradições no geral,) a ontologias que se querem como produtivas e coerentes, defendendo que paradoxos e contradições são precisamente aquilo que é impossível de existir e, por isso, ser é ser o oposto dessas coisas.[3] Afinal, se um objeto é e não é o que é, então todas as coisas estão e não estão em contato com ele, podem e não podem sair do contato em que estão e não estão — e assim uma implosão ontológica se instaura, a própria realidade colapsa. O adágio de Brasileiro (e, com ele, boa parte do mainstream da filosofia canta em uníssono) é, portanto, diametralmente oposto à fórmula básica da ontologia Paradoxista. Nesse contexto, embora certa perspectiva paraconsistente possa considerar o ponto de Brasileiro como um pseudoproblema,[4] nós o levamos a sério, precisamente porque temos reservas com a resolução logicista: o “logicismo paraconsistente-metafísico” parece pressupor que dois princípios contraditórios (a não-contradição e a contradição) podem ser efetivos, embora privilegie arbitrariamente apenas um como ponto de partida — a harmonia/não-contradição.[5]
Essa estratégia traz dúvidas quanto às condições de possibilidade do sistema: se a harmonia tudo governa, seu oposto transparece como um ponto de externalidade que contradiz a pressuposição básica da metafísica logicista, isto é, de que as regras lógicas (a harmonia) governam “tudo”. Essa contraposição desemboca em um colapso segundo o qual o “paradoxo-puro-sem-harmonia” seria o que se impõe verdadeiramente como governante mundial. Isso, no entanto, destrói a possibilidade de qualquer postulação coerente: restaria apenas o caos ontológico. Em outras palavras: a paraconsistência-metafísica parece depender de uma base mundial (metafísica) que não consegue se justificar por si mesma.
No entanto, se nos parece que as preocupações de Brasileiro devam ser levadas a sério, por que não concordamos com ele plenamente? Porque a defesa da pura consistência, o que chamamos de “harmonicismo”, é tão problemática quanto a adesão precipitada (injustificada) à ideia da plausibilidade de objetos contraditórios. Nosso guia aqui é o problema da totalidade, conforme foi delineado por Markus Gabriel[6] e Shajara Bensusan.[7] Se existem sistemas filosóficos que banem a contradição, então uma totalidade harmoniosa (anti-contraditória) é posta. O problema, como Gabriel expõe, é que essa totalidade desencadeia uma série de aporias e paradoxos: a totalidade parece apontar para alguma coisa externa ao próprio todo quando se impõe, por exemplo, a questão de suas condições de possibilidade. Isso significa que a defesa da totalidade compromete o harmonicista à destotalização do total. Por isso, os sistemas filosóficos anti-contradição seriam autocontraditórios: porque decaem em pura contradição.
Em “The World in Paradox” apresentamos três opções no que tange ao PNC: (I) adesão plena (harmonicismo puro); (II) adesão parcial (harmonicismo híbrido ou contraditorismo híbrido); (III) rejeição plena (contraditorismo puro). Já evidenciamos os problemas dessas três alternativas: (I) → autocontraditório (a totalidade harmônica decai em contradição); (II) → contradição de princípios, como no caso da paraconsistência; (III) → autocontradição performativa (defende o puro colapso a partir de argumentações não colapsadas, ou harmônicas), como parece ocorrer se levarmos os resultados do harmonicismo ou das posturas híbridas até as últimas consequências.
Sendo essas opções becos sem saída (literalmente, aporias), buscamos conceber uma via alternativa: se o paradoxo é aquilo que tudo colapsa, o paradoxo como princípio primeiro, isto é, como aquilo que tudo coordena e afeta, deve afetar a si mesmo e, assim, se autocolapsar. Este é o paradoxo do paradoxo, a intuição básica do paradoxismo tout court. Seria, inclusive, esse fenômeno que permitiria derivar do próprio paradoxo a estabilização harmoniosa de todas as coisas: a harmonia não pode derivar o contraditório na medida em que o harmônico exclui seu oposto, mas do contraditório, por sua relação consigo mesmo, conseguimos derivar o harmônico, já que todos os opostos estavam nele contidos (inclusive seu próprio oposto).
O que surge dessa concatenação, ademais, não pode ser nem pura harmonia nem pura contradição, mas uma coexistência tensional fundamentada pela explosão do paradoxo autoreferente. Além disso, os objetos existentes não podem estar isolados em um ou outro lado do espectro, já que provocariam novos colapsos pela coexistência, em última instância, com aquilo que se impõe como o oposto do polo tomado como referência. Por isso, todo objeto é um híbrido de consistência e inconsistência, harmonia e paradoxalidade — o que inclui cachorros! Isso é assim mesmo quando, em alguns contextos, a paradoxalidade pareça ter desaparecido, isto é, contextos que enfatizam a harmonia.
É aqui que alcançamos o ponto (2) do diálogo com Brasileiro, isto é, o modo pelo qual a defesa do PNC foi proposta: pelo que chamamos de “realismo estético”. Na verdade, o realismo estético pode aparecer em muitos sabores: vinculado principalmente ao senso comum, aos dados dos sentidos e à arte. Em nosso contexto conversacional, o primeiro sinal dessa tendência veio à tona quando Brasileiro, de maneira ousada, nos enviou uma foto de seu cachorro com a pergunta: “No momento capturado por essa foto que acabei de bater, ele não é idêntico a si mesmo?”. Para nós, no entanto, essa é uma pseudo-defesa porque, em filosofia, espera-se argumentação e não a apresentação de uma afirmação que tira sua autoridade de uma certeza subjetiva — a certeza de que “fato x” é o caso. Afinal, se assim fosse, qualquer coisa poderia ser defendida com igual força em filosofia, o que tornaria absolutamente qualquer coisa igualmente defensável na área. Isso é assim porque o que está em jogo não é a experiência de um fato adida à sua explicitação verbal, mas, antes, uma argumentação articulada lógico-conceitualmente que responda ao problema filosófico que pôs em questão os dados dos sentidos em primeiro lugar. No entanto, devemos esclarecer que não estamos querendo dizer que por “até o cachorro” de nosso amigo ser contraditório, o testemunho dos sentidos deva ser desconsiderado, mas que, antes, ele precisa ser anexado a sistema que o justifique.
Fizemos alguns avanços sobre esse último ponto nos movimentos finais do diálogo, mas a madrugada já havia se tornado manhã e não pudemos continuar. Talvez, no entanto, essa articulação mais panorâmica dos pontos abordados facilite nossa próxima interlocução. Ressaltamos, finalmente, que nosso objetivo não é nocautear as posturas que identificamos nos argumentos de Brasileiro, mas clarificar e defender nossa própria posição. Evidentemente, cremos que estamos certos e que Brasileiro está errado. Mas também cremos que podemos estar errados (levamos a falibilidade a sério), de modo que não queremos impor nossa posição, mas antes – e o que parece ser muito mais importante –, continuar uma boa conversa.
Notas
[1] Cruz, 2024. Link para acesso: https://periodicos.unb.br/index.php/dasquestoes/article/view/55113.
[2] Essa conversa ocorreu no estimulante grupo Assemblagens, coordenado pelo professor Dr. Otávio Maciel (UnDF/UnB).
[3] O Paradoxismo não adere a uma cisão conceitual rígida entre “contradição” e “paradoxo” e, por isso, utiliza ambos os termos como sinônimos na maioria dos contextos — procedimento que está ativo no presente texto.
[4] Cf. KRAUSE, D; COSTA, N. Notas de Lógica pt.1: Lógicas Proposicionais Clássica e Paraconsistente. Florianópolis, 2004 e PRIEST, G. “What is So Bad About Contradictions?”. Journal of Philosophy, vol. 95, nº 8 (Aug., 1998), pp.410-426.
[5] Cf. MARKUS, Gabriel. “Sayinh What is Not” in Finkelde, D; Livingston, P. M. (org.): Idealism, Relativism, and Realism: New Essays on Objectivity Beyond the Analytic-Continental Divide. Berlin/Boston: DeGruyter, 2019, p.217-232.
[6] Cf. GABRIEL, M. Fields of Sense: A new realist ontology. Edinburgh: Edinburgh University Press Ltd, 2015. pp. 187-190; Porque o mundo não existe. Tradução de Markus Hediger. Petrópolis: Vozes, 2016a. pp.73-90; O sentido da existência: Para um Novo Realismo ontológico. Tradução de Bernardo Romagnoli Bethonico. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016b. pp.51-60; Sense, Nonsense & Subjectivity. Cambridge: Harvard University Press, 2024a. pp.73-75. Também: GABRIEL, M; PRIEST, G. Everything and Nothing. Cambridge: Polity Press, 2022. pp.39-68,83-95.
[7] Cf. BENSUSAN, H. Excessos e Exceções: Por uma Ontologia sem Cabimento. São Paulo: Ideias & Letras, 2008. pp.19-53; Indexicalism: Realism and the Metaphysics of Paradox. Edinburg: Edinburg University Press, 2021. pp.28-34; Memory Assemblage: Spectral Realism and the Logic of Addition. London: Bloomsbury, 2024. pp.17.
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