Corpo, sexualidade e autoexploração feminina
Aline Karen Cristina Canella
Doutoranda e mestre em Filosofia (PPGFIL/UCS)
05/11/2026 • Coluna ANPOF
Byung-Chul Han identifica uma transformação fundamental na maneira como o poder opera no capitalismo contemporâneo: já não é necessário que exista um senhor ordenando ao indivíduo que trabalhe. O sujeito contemporâneo acredita-se livre. É justamente essa sensação de liberdade que torna a exploração mais eficiente. O indivíduo já não precisa ser coagido de fora, porque passa a explorar a si mesmo. Ele se transforma simultaneamente em explorador e explorado.
A fórmula “você está livre” contém, nesse sentido, uma ambiguidade fundamental. A liberdade deixa de significar apenas a possibilidade de recusar, interromper ou não participar e passa a funcionar como uma convocação: você é livre, portanto deve realizar-se; você é livre, portanto deve produzir; você é livre, portanto deve aproveitar todas as possibilidades que estão à sua disposição. O imperativo não desaparece. Ele apenas muda de forma. Deixa de ser “você deve” e assume a aparência sedutora de “você pode”. E esta última, é mais eficiente, porque permite que o sujeito explore a si mesmo, 24 horas por dia, 7 dias por semana.
Essa transformação pode ser pensada também a partir da sexualidade feminina. A conquista histórica de maior autonomia sobre o próprio corpo e sobre a própria sexualidade constitui, evidentemente, uma ruptura importante com formas anteriores de controle patriarcal. Entretanto, a própria linguagem da liberdade pode ser incorporada pela racionalidade capitalista e convertida em uma nova forma de exigência: uma nova forma de controle patriarcal. A mulher já não é necessariamente interpelada apenas pela obrigação de preservar sua sexualidade, sua castidade ou sua reputação. Ela pode ser interpelada, simultaneamente, pela obrigação de vivê-la, explorá-la, aperfeiçoá-la e demonstrá-la.
A lógica torna-se semelhante àquela descrita por Han: “você está livre” pode transformar-se em “você deve usufruir da sua liberdade. E deve fazê-lo de determinada forma”. A sexualidade, então, passa a ser também um campo de desempenho, de performance (lembrar do conceito de performatividade de Judith Butler). Não basta possuir autonomia; é preciso parecer autônoma, mas de uma maneira específica, que agrade uma visão patriarcal sobre a sexualidade feminina. Não basta estar confortável com o próprio corpo e desejo; é preciso aperfeiçoá-lo, sexualizá-lo e apresentá-lo de determinada maneira. A liberdade sexual pode converter-se, assim, em mais uma tarefa a ser cumprida.
Surge uma espécie de autoexploração sexual: a mulher explora a si mesma em nome de sua própria liberdade. Seu corpo pode tornar-se projeto; seu desejo, desempenho; sua experiência sexual, capital simbólico. Aquilo que deveria ampliar as possibilidades de existência pode ser absorvido por uma lógica na qual toda possibilidade se converte em potencial de realização e, consequentemente, em potencial de fracasso.
Nesse ponto, a dimensão de gênero é fundamental. A exigência não recai sobre um sujeito abstrato e universal, mas sobre um corpo historicamente produzido como objeto de vigilância, avaliação e desejo. A mulher contemporânea pode experimentar uma situação paradoxal: é libertada de determinadas proibições justamente para tornar-se carrasca de uma outra obrigatoriedade, agora, ligada a uma pretensa “liberdade positiva” mas que, na realidade, pouco é verdadeiramente livre. O controle, portanto, não desaparece necessariamente quando a proibição desaparece. Ele pode mudar de lugar: do não fazer, ao necessariamente precisar fazer, e de determinada forma. O problema começa quando o poder de escolha se transforma em obrigação de “escolher corretamente”, esta esfera moral sobre a sexualidade feminina apenas ganhando nova roupagem.
A mulher, então, não é apenas impedida de fazer determinadas coisas; ela também pode sentir que está falhando quando não corresponde ao ideal contemporâneo de mulher sexualmente livre. A ausência de desejo pode ser interpretada como bloqueio. A pouca experiência pode parecer insuficiência. A recusa pode precisar ser justificada. O desconforto pode ser percebido como algo que precisa ser superado. A sexualidade deixa de ser apenas uma possibilidade e passa a ser, paradoxalmente, uma espécie de projeto de produtividade de si.
É nesse ponto que a crítica de Han ao neoliberalismo encontra uma crítica feminista do poder: o capitalismo não precisa necessariamente destruir a liberdade para explorar o indivíduo. Ele pode incorporar a própria linguagem da liberdade. E, quando essa lógica atravessa o gênero, aquilo que historicamente foi uma reivindicação de autonomia pode ser convertido em uma nova forma de responsabilização individual.
A mulher passa a ser responsável por sua performance e até por sua suposta emancipação. Se não se sente suficientemente livre, a questão pode ser devolvida a ela mesma: talvez não tenha se libertado o bastante; talvez precise se conhecer melhor; talvez precise experimentar mais. A estrutura social desaparece do problema (ainda que ficticiamente, porque continua igual, apenas sobre nova roupagem) e sobra o indivíduo diante de si mesmo.
Essa é uma das características mais perversas da autoexploração: ela transforma problemas produzidos socialmente em projetos individuais de aperfeiçoamento. Assim, a sexualidade feminina pode tornar-se um território em que antigas formas de dominação e novas formas de exploração coexistem. A mulher pode estar mais livre de determinadas normas patriarcais e, ao mesmo tempo, submetida a novas exigências neoliberais de desempenho. Não se trata, portanto, de afirmar que a liberdade sexual feminina seja uma forma de opressão em si mesma, nem de desejar o retorno às antigas proibições. Trata-se de perceber como o capitalismo (capitalismo e patriarcado entendidos aqui como historicamente correlacionados e estruturas sociais que se reforçam mutuamente) possui a capacidade de absorver conquistas emancipatórias e reorganizá-las segundo sua própria lógica, seu próprio interesse.
A pergunta deixa de ser simplesmente “quem está proibindo essa mulher?” e passa a ser também: “que tipo de sujeito essa exigência fantasiada de liberdade está exigindo que ela se torne?” Talvez seja justamente aí que a frase “você está livre” revele seu caráter mais ambíguo. Quando a liberdade se transforma em imperativo, ela deixa de ser apenas abertura de possibilidades e passa a produzir obrigações. A mulher não precisa mais de alguém que ordene “seja desejável”, “tenha prazer”, “experimente”, “cuide do corpo”, “seja sexualmente realizada”. Ela pode internalizar essas exigências e passar a cobrá-las de si mesma.
Seguindo a lógica da sociedade do desempenho de Byung-Chul Han (2017), o poder torna-se mais eficiente justamente porque já não parece poder. A exploração não precisa mais vir acompanhada de uma ordem. Ela pode apresentar-se como escolha, prazer, autonomia e realização pessoal. “Você está livre” pode significar, simultaneamente, “você é responsável por fazer de si mesma tudo aquilo que essa sociedade espera que uma mulher livre seja”.
Nesse sentido, a crítica de Byung-Chul Han pode ser ampliada por uma perspectiva de gênero: se o sujeito neoliberal é aquele que explora a si mesmo acreditando estar realizando-se, a mulher neoliberal pode ser aquela que explora a si mesma acreditando estar se libertando. A questão política, então, não é simplesmente conquistar mais possibilidades de escolha, mas perguntar quais escolhas se tornam obrigatórias, quais desejos são produzidos, quem se beneficia deles e por que a liberdade precisa ser constantemente transformada em desempenho.
A verdadeira ruptura talvez não esteja em substituir o antigo “você não pode” pelo novo “você pode (deve) tudo”, mas em recuperar a possibilidade de dizer: “eu posso, mas não preciso, se eu não quiser.” É nessa recusa do imperativo, inclusive do imperativo de ser livre de determinada maneira, que a liberdade deixa de ser uma tarefa e volta a ser possibilidade.
Referências:
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Trad. Enio Paulo Giachini. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2017.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
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