Crítica de Honneth a Lukács: um caso que merece investigação
Gutemberg Miranda
Professor da UFAL
30/09/2025 • Coluna ANPOF
O livro chama-se Reificação, o autor Honneth. O que parece ser uma obra inscrita numa tradição que todos tão bem conhecemos, demonstra ser desde o início um caso para investigadores e hermeneutas interessados tanto em história quanto em filosofia. Um caso daqueles que Victor Farias ensinou a resolver a partir de uma suspeita sociológica ou da sociologia do conhecimento. A comunidade filosófica internacional deve ficar atenta aos argumentos de Honneth. Ao acusar Lukács de frieza, não podemos ignorar o caráter nocivo desse tipo de abordagem, que certamente não envolve apenas questões teóricas. O tipo de acusação é sério e, além disso, o autor compara Lukács a Heidegger sem respeitar aspectos biográficos e históricos que até hoje causam os mais sérios ressentimentos e nos levam a perguntar acerca da possibilidade do próprio filosofar ao modo de Adorno.
O texto de Honneth começa detratando Lukács, o autor húngaro não conheceria fenomenologia e, portanto, sua compreensão de alienação é insuficiente. Mas não conhecer fenomenologia equivaleria partir de uma visão cotidiana ontológica do fenômeno da alienação. Lukács é frio, mas sua visão pode ser próxima do conceito heideggeriano de cuidado. Cuidado e reconhecimento se complementam, Lukács com sua frieza estaria próximo da questão do cuidado e do tema do reconhecimento. Não sabemos as pretensões de Honneth, não é possível saber aonde ele quer chegar. Honneth define a alienação para Lukács enquanto uma práxis distorcida, tal distorção nasceria das trocas capitalistas. Uma práxis distorcida negaria a alienação enquanto erro moral ou epistêmico, logo, as trocas não partiriam dos erros morais ou epistêmicos. Seria essa práxis distorcida o que Honneth tenta aproximar do conceito de cuidado e de reconhecimento, porém, Lukács não pode ser reduzido a um crítico das relações de troca. O marxismo de Lukács não se limita ao tema da alienação, O Capital de Marx também não enxerga na alienação o cerne da crítica capitalista.
Há certamente uma tentativa de associar Lukács ao idealismo, tal estratégia é uma forma conhecida de ataque aos marxistas em todo o mundo. Uma frieza logocêntrica é uma acusação que tenta aproximar Lukács dos alemães e não apenas do idealismo alemão. Tal baixeza praticada por Honneth encontrou eco nos redutos da direita, seu livro foi recebido com entusiasmo principalmente nos Estados Unidos. Uma abordagem crítica da obra de Honneth deve partir da postura desrespeitosa não apenas para com Lukács, mas para com todos que admiram o pensamento de Marx e o dos frankfurtianos. Uma práxis distorcida a partir de relações de troca não explica o marxismo de Lukács, nem tampouco o marxismo de O Capital. Tal argumento não é suficiente para aproximar Lukács do idealismo, nem tampouco serve para aproximar Lukács da questão heideggeriana do cuidado. Quais as motivações de Honneth? O que teria conduzido a autor alemão a polemizar com Lukács? O livro Reificação é enigmático ao estilo de Heidegger, a tríade Lukács-Heidegger-Hegel não seria uma forma de conversão mística de uma área da filosofia que sempre resistiu ao misticismo irracionalista dos nazistas? Práxis distorcida e troca de mercadorias são tematizadas de forma séria por Marx e Lukács, seriedade que parece faltar ao pensamento de Honneth.
A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.