Do universalismo à crítica situada: quem somos nós, filósofas brasileiras?
Thaisa Arruda Moreschi
Doutoranda em Filosofia na UFMT
06/11/2025 • Coluna ANPOF
O universalismo, marca central do cânone filosófico ocidental, é também uma de suas pretensões mais problemáticas: a pretensão de falar em nome da humanidade enquanto silencia gênero, raça, classe e localização. Como mulher, latino-americana, não branca e filósofa, não reivindico apenas um lugar de enunciação pessoal, mas um espaço político e histórico, forjado a partir de séculos de exclusão.
Lélia Gonzalez (2020) nos lembra que a distinção entre vivência individual e coletiva é fundamental. Não se trata de identidade isolada, mas de experiências partilhadas por milhões de mulheres ameríndias e amefricanas. É nesse sentido que pergunto: até que ponto podemos criticar o cânone filosófico? Até onde as epistemologias feministas alcançam? Da recusa ao sujeito descorporificado cartesiano à afirmação de uma epistemologia decolonial, onde ficam as filósofas latinas, brasileiras?
Penso que nosso lugar é o da crítica e, seguindo a teoria do ponto de vista, um lugar de privilégio epistêmico. Somos o que Patricia Hill Collins (1991) nomeou de outsider-within, traduzido para o português como “forasteira de dentro”. Esse termo foi utilizado pela autora para descrever a posição dupla que uma pessoa pertencente a um grupo oprimido pode vivenciar. Isso significa que pessoas marginalizadas, apesar de vivenciarem experiências particulares, devem entender os pressupostos que constituem as perspectivas dos grupos dominantes. Ou seja, os agentes pertencentes aos grupos marginalizados, embora vivenciem experiências contrárias às visões dominantes, necessitam compreender essas perspectivas para que “naveguem” com sucesso no mundo social. Na leitura da epistemologia social, os grupos oprimidos devem compreender os conjuntos de recursos conceituais do grupo dominante para que transitem nesse mundo social.
Assim, novamente retorno às questões iniciais que me motivam a redigir o presente texto. Qual é o nosso lugar? A pergunta, sem dúvidas, é meramente retórica, pois nosso lugar, como eu havia dito, é o da crítica e do privilégio epistêmico. Quando se fala em teoria do privilégio epistêmico, cabe ressaltar que essa posição não é automática, ou seja, não ocorre apenas em razão de se ocupar determinada posição no mundo social, mas requer um processo de conscientização perante as opressões vivenciadas coletivamente.
Portanto, nosso lugar é o lugar dentro da filosofia: um lugar de privilégio epistêmico, de críticas, análises e conceituações de problemas que nos cercam, para ser otimista, desde a estruturação da modernidade que trouxe consigo a hierarquização baseada na ideia de raça, como nos alerta Quijano (2005), e também de gênero, como disse Lugones (2020), ambas as ideias baseadas em categorias biologizantes. Nesse sentido, cabe a nós, mulheres latinas e brasileiras, nos firmarmos e nos reconhecermos enquanto filósofas, criando uma teoria feminista localizada, de dentro para fora, que fale de nós, a partir de nós, com todo o rigor filosófico.
E se isso que fazemos não for filosofia, então já não sei o que é essa tal filosofia. Nesse caso, que fiquem eles com sua filosofia descorporificada.
Referências
COLLINS, Patricia Hill. Pensamento feminista negro: conhecimento, consciência e a política do empoderamento. Boitempo editorial, 2019.
LUGONES, María. Rumo a um feminismo descolonial. Revista estudos feministas, v. 22, p. 935-952, 2014.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina1. A Colonialidade do Saber: etnocentrismo e ciências sociais–Perspectivas Latinoamericanas. Buenos Aires: Clacso, p. 107-126, 2005.
VAREJÃO, Adriana et al. Pensamento feminista hoje: perspectivas decoloniais. Bazar do Tempo Produções e Empreendimentos Culturais LTDA, 2020.
A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.