Emergência climática e fundamentação educacional: O imperativo da reconexão

Roberto Franzini Tibaldeo

Professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR

03/11/2025 • Coluna ANPOF

Em colaboração com GT Hans Jonas da Anpof

As últimas décadas nos tornaram extremamente conscientes de que estamos sofrendo uma grave emergência ambiental caracterizada pela mudança climática. O medo relacionado à ‘janela de oportunidade’, que está se fechando rapidamente para garantir um futuro habitável e sustentável, oferece uma motivação preliminar para buscar o cuidado e a responsabilidade ambiental para reverter a crise. Entre as atividades concebidas e desenvolvidas para responder a estes desafios sociais do ponto de vista educativo, destaca-se a educação ambiental, que desempenha um papel fundamental na formação de cidadãos responsáveis e empenhados, de modo a garantir um futuro sustentável.

Todavia, recentes pesquisas destacam que, apesar da importância da educação ambiental escolar para enfrentar problemas, como o negacionismo climático, o fatalismo ecológico e a falta de engajamento ambiental, o ensino ambiental ainda não é suficientemente eficaz. Isto porque não lida de maneira adequada com o problema característico da chamada civilização ocidental (que hoje tornou-se global), ou seja, o afastamento e o desligamento do ser humano da natureza.

Gostaria de abordar esse desenraizamento a partir de uma dupla perspectiva crítica, ou seja, tanto interna como externa à tradição cultural ocidental. O objetivo é evidenciar que ambas as críticas (a) compartilham a polêmica contra o desligamento ocidental, (b) visam reconectar o humano com a natureza e (c) oferecem sugestões a serem desenvolvidas do ponto de vista educacional para atingir esse fim. O intelectual ocidental escolhido é o filósofo alemão Hans Jonas (1903-1993), já para trazer uma perspectiva não ocidental irei me referir ao líder indígena Ailton Krenak.

Conforme Jonas, o marco fundamental da situação atual é a descoberta da “crítica vulnerabilidade da natureza” (Jonas, 2006, p. 39) ao agir tecnológico humano. Esta peculiaridade do nosso tempo levanta uma questão normativa, pois uma vez que a natureza é vulnerável à ação humana, como podemos evitar que esta ponha em perigo a biosfera como um todo? E sobretudo: porque, afinal, deveríamos ter como objetivo preservar a existência e a integridade da natureza?

O conceito ético escolhido por Jonas para reagir à atual ameaça tecnológica é o da responsabilidade. No entanto, o aspecto que gostaríamos de focar tem a ver com o chamado “arquétipo original e intemporal da responsabilidade” (Jonas, 2006, p. 219), cuja encarnação é o recém-nascido, no qual ser e dever-ser coincidem:

o recém-nascido, cujo simples respirar dirige um “dever” irrefutável ao entorno, o de dele cuidar. Olhe e você saberá! Eu disse “irrefutável” e não “irresistível”, pois certamente é possível opor-se à força deste ou de qualquer outro “dever”, fazendo-se ouvidos surdos ao seu apelo [...], sem que tudo isso altere em nada o caráter irrefutável do apelo e a sua evidência imediata. (Jonas, 2006, p. 220)

O que é que se vê, então, no recém-nascido? Em primeiro lugar, verifica-se que a sua marca distintiva está na precariedade que caracteriza de forma única a vida que começa. Em segundo lugar, manifesta-se um dever ético, nomeadamente a exigência “que sua causa continue com aquilo que ela começou” (Jonas, 2006, p. 221). A proposta jonasiana se caracteriza justamente por esta inter-relação entre precariedade e dever. O que tem de eticamente relevante na precariedade da vida?

Juntando as reflexões das duas obras principais de Jonas, O princípio responsabilidade (2006) e O princípio vida (2004), entende-se que o que caracteriza a vida é a união de precariedade e possibilidade. É esta coexistência paradoxal que constitui precisamente a vulnerabilidade da vida. O que vale a pena destacar é que a categoria central para a compreensão da vulnerabilidade é a relação. Por exemplo, no caso do recém-nascido, há um aspecto relacional evidente, quando a vulnerabilidade do recém-nascido faz com que ao pedido de atenção enviado para o ambiente corresponda uma resposta solícita de alguém. A quem se dirige este pedido? A um possível destinatário capaz de o perceber, entender e possivelmente responder. Responsabilidade significa, portanto, cuidar do objeto da responsabilidade, que é vulnerável e “perecível como tal” (Jonas, 2006, p. 159), e construir com este objeto uma relação de reconhecimento da sua alteridade radical, que exclui “ser superada por uma aproximação minha em sua direção, ou vice-versa” (Jonas, 2006, p. 159). E é precisamente esta alteridade que “se apossa da minha responsabilidade, e não se pretende aqui nenhuma apropriação” (Jonas, 2006, p. 159). A relação com o objeto da responsabilidade acaba assim por modificar o sujeito, que se coloca à sua disposição e age para que o objeto possa sobreviver e ter futuro.

Conforme Jonas, o dever ético manifesta-se, portanto, a partir da possibilidade de o ser humano pôr em risco a existência do próprio objeto da responsabilidade, a saber, a natureza e as suas possibilidades intrínsecas, das quais o ser humano é parte integrante. O equívoco inerente à autonomia do sujeito moderno é que ele não se percebe em relação à natureza, mas apenas perante ela em uma posição de distanciamento privilegiado e de superioridade. Isto, no entanto, é uma ilusão, como a questão ecológica tem ensinado há algumas décadas. Ao contrário, Jonas sublinha o dever de redescobrir a “solidariedade de interesse” dos humanos com o mundo orgânico (Jonas, 2006, p. 229), ou seja, prestar atenção à relação com o orgânico que constitui o humano, e isto para além do reducionismo antropocêntrico das éticas tradicionais, para as quais o sentido do agir humano era definido à parte da sua relação com o mundo natural, e este não era mais do que o objeto passivo de uma exploração utilitária unidirecional por parte daqueles que, nessa assimetria relacional, ocupavam a posição dominante. Neste contexto, existiam, no máximo, interesses humanos, mas não uma solidariedade de interesse e uma preocupação genuína com o mundo orgânico. A assimetria relacional impedia a própria relação, que se tornava preocupantemente empobrecida. Pelo contrário, recuperar a solidariedade de interesse com a vida significa reinterpretar a nossa condição humana e reconhecer que não ocupamos uma suposta posição autónoma e soberana perante a natureza.

Mais recentemente e em um contexto diferente, Ailton Krenak faz uma observação semelhante ao se posicionar contra a crise ecológica, que afeta com ainda mais severidade os povos do sul global: “Temos que abandonar o antropocentrismo [...]. Esse pacote chamado de humanidade vai sendo descolado de maneira absoluta desse organismo que é a Terra, vivendo numa abstração civilizatória que suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de vida, de existência e de hábitos” (Krenak, 2020, p. 81-82).

Além disso, Krenak retoma o argumento jonasiano sobre a necessidade de restaurar nossa relação responsiva com a natureza e o leva ainda mais longe graças às percepções proporcionadas pelo pensamento indígena. Entre elas, Krenak destaca a possibilidade gnosiológica alternativa relacionada à consciência corporal e sua relação com a natureza, que é inteiramente permeada pela vida: “A vida atravessa tudo, atravessa uma pedra, a camada de ozônio, geleiras [...]. A vida é esse atravessamento do organismo vivo do planeta numa direção imaterial” (Krenak 2020, p. 28). Essa visão da natureza desafia a mentalidade reducionista moderna e oferece um caminho alternativo para a restauração de uma relação com a natureza por meio de nossa experiência corpórea:

Isso que chamam de natureza deveria ser a interação do nosso corpo com o entorno [...]. Para além da ideia de “eu sou a natureza”, a consciência de estar vivo deveria nos atravessar de modo que fôssemos capazes de sentir que o rio, a floresta, o vento, as nuvens são nosso espelho na vida. (Krenak, 2020, p. 99-100)

A referência de Krenak à natureza como imagem-espelho das ações humanas, capaz de orientar eticamente o nosso comportamento, ecoa as reflexões antropológicas de Jonas, segundo as quais o “ser humano configura, experimenta e julga seu próprio ser interior e seu agir exterior segundo uma imagem daquilo que convém ao ser humano” (Jonas, 2004, p. 208). É nesse ponto que a imagem antropológica que os seres humanos têm de si mesmos individualmente, socialmente e historicamente se transforma em uma imagem normativa capaz de nortear o agir. Ser sensível e receptivo à normatividade é o que abre o espaço existencial da ética.

No entanto, além de destacar as deficiências do temperamento moderno que, em última análise, se revelam na atual crise ecológica, assim como nas práticas educacionais que tentam lidar com isso, Krenak também enfatiza a principal razão pela qual é tão difícil lidar com esse problema de forma eficaz:

Se você ainda vive a cultura de um povo que não perdeu a memória de fazer parte da natureza, você é herdeiro disso, não precisa resgatá-la, mas se você passou por essa experiência urbana intensa, de virar um consumidor do planeta, a dificuldade de fazer o caminho de volta deve ser muito maior. Por isso acho que seria irresponsável ficar dizendo para as pessoas que, se nós economizarmos água, ou só comermos orgânico e andarmos de bicicleta, vamos diminuir a velocidade com que estamos comendo o mundo — isso é uma mentira bem embalada. (Krenak, 2020, p. 104-105)

Este último comentário é interessante por duas razões. Em primeiro lugar, porque, tal como Jonas, Krenak salienta as complexas origens culturais da crise atual, que remontam à modernidade ocidental. Em segundo lugar, porque é precisamente com a atitude reducionista decorrente da modernidade que temos que lidar, sem banalizar ou simplificar indevidamente a questão. É, portanto, este pano de fundo cultural, junto com a relacionada atitude reducionista, que os esforços educacionais atuais têm que enfrentar e ultrapassar, imaginado caminhos viáveis de reconexão com a natureza.


Referências

Jonas, H. 2004. O princípio vida. Petrópolis: Vozes.

Jonas, H. 2006. O princípio responsabilidade. Rio de Janeiro: Contraponto/PUC-Rio.

Krenak, A. 2020. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras.


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