Especial 8M - GRIFA: promovendo a presença e permanência de filósofas analíticas
Evelyn Erickson
Pesquisadora em estágio pós-doutoral no Programa de Pós-Graduação em Filosofia na UFSC
Paloma Xavier
Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUC-RJ
03/04/2025 • Coluna ANPOF
Como parte do Grupo Interinstitucional de Filósofas Analíticas (GRIFA)
Escrevemos hoje em nome do Grupo Interinstitucional de Filósofas Analíticas (GRIFA), projeto de extensão em fase de cadastramento no Departamento de Filosofia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Já estamos, no entanto, já ativas informalmente a um pouco mais de seis meses.
Nosso projeto surge de laços criados a partir do Encontro Brasileiro de Filósofas Analíticas (EBFA), que ocorreu online em 2021 e 2023, e fortalecidos ao longo de 2024, quando retornamos ao hábito de frequentar eventos presenciais. Nossa história passa pelo 13º Principia, VIII Encontro da SBFA, XX Encontro da ANPOF e pelo III SiLFA, atravessando Florianópolis, Olinda, Recife e São Luís.
A experiência do 2º EBFA tornou clara para nós a utilidade, e a necessidade, de mantermo-nos em contato umas com as outras. Queremos continuar criando espaços no qual pesquisadoras de diversas fases da carreira, mas em especial no início de suas jornadas, possam compartilhar suas pesquisas, interagir, e aproximar-se. Queremos atrair, acolher e apoiar mulheres para as áreas tradicionalmente analíticas da filosofia, entendida de modo amplo. Buscamos através de nossas ações combater tanto nossa solidão acadêmica quanto prevenir nosso apagamento.
O boletim da ANPOF, divulgado em 3 de abril de 2021, anuncia que menos de um quarto das estudantes e docentes nos Programas de Pós-Graduação em Filosofia no Brasil são mulheres. De acordo com o trabalho do Grupo Dataphilo, o número de autoras pesquisadas na academia é significativamente menor em comparação aos autores canônicos: há uma única filósofa que aparece como tema de pesquisa. Esse cenário é parcialmente fruto de uma cultura acadêmica que continua a privilegiar narrativas e representações masculinas, tanto de quem pesquisa quanto sobre quem se pesquisa.
Ainda mais, a história da filosofia analítica é comumente contada como a história de Grandes Homens pensando Grandes Coisas, mas essa narrativa não se sustenta, quando paramos para olhar quem estava pesquisando filosofia nos centros dos quais emerge a Filosofia Analítica, e com quem esses Grandes Homens estavam em diálogo. Filósofas fizeram parte deste movimento filosófico, que no grande esquema das coisas, é recente. Ainda assim, elas parecem precisar de resgate histórico, dado que as suas contribuições não estão devidamente reconhecidas. A filosofia analítica tornou-se, por algum motivo, aversa a presença feminina. Frederique Janssen-Lauret levanta a hipótese de que houve, no século passado, uma inversão de valores na filosofia. Antes era que as sub disciplinas mais abstratas, como a lógica e matemática, eram mais adequadas para serem estudadas por mulheres da segurança e privacidade da poltrona, do que ética e política que exigem conhecimento do mundo e ação no espaço público. Com essa inversão, hoje em dia é mais recorrente encontrar pesquisadoras nas áreas da filosofia prática do que teórica. Katrine Kielos-Marçal aponta em seu livro Mother of Invention que certas áreas, como a Computação, adquiriram um valor social maior após o reconhecimento do valor econômico proveniente desta atividade. Talvez a formalidade da filosofia analítica e seus métodos lógicos sejam apenas um corolário deste fenômeno. Seja por falta de genuíno interesse ou seja pela falta de estímulo, anedoticamente nos encontramos sozinhas em salas de aula, grupos de leitura e eventos de pesquisa. Pensando assim, tanto no cenário atual da pesquisa acadêmica no Brasil quanto no percurso histórico da Filosofia Analítica, surge o GRIFA.
Temos um projeto ambicioso: queremos promover atividades de pesquisa para a formação de filósofas dentro da tradição analítica (com o objetivo de inserção profissional dessas pesquisadoras), assim como fomentar discussões metafilosóficas sobre o que é filosofia analítica e que metodologias são adequadas a esse tipo de pesquisa. Queremos dar visibilidade e qualidade às nossas pesquisas, para que seja mais difícil que sejamos esquecidas como outras foram, e para que possamos também desprendermo-nos do rótulo dessa tradição que historicamente nos negligencia.
Nosso grupo é interinstitucional pois visamos expandir nosso alcance por meio de uma descentralização. Somos compostas por pesquisadoras em todas as fases de formação, de sete universidades diferentes. Buscamos promover engajamento comunitário durante os tradicionais encontros acadêmicos da nossa área por meio de organização de minicursos acerca de metodologia da filosofia. Estamos atualmente em colaboração com o próximo Principia (a ocorrer em julho em Florianópolis) e com o evento conjunto de XII Conferência de Epistemologia Social, V Colóquio Internacional de Epistemologia Analítica e IV SILFA (a ocorrer em outubro em São Luís). Estamos elaborando também eventos na UFRN e na PUC-Rio.
Nosso grupo é de filósofas analíticas para filósofas analíticas: queremos dialogar horizontalmente com outras estudantes e jovens pesquisadoras a respeito dos trajetos e dificuldades da pesquisa acadêmica em filosofia. Vamos oferecer oportunidades de formação específica por meio de workshops e minicursos de temas centrais ao nosso projeto, mas queremos também ouvir as necessidades de nossas outras colegas em outros centros de pesquisa, para que possamos juntas enriquecer nossa formação acadêmica. Queremos estimular a publicação e a divulgação da pesquisa de jovens filósofas, assim como as capacitar no ensino de filosofia.
Temos um site, um perfil no instagram e dois anos de atividades pela frente.