Especial 8M - Troca de saberes entre mulheres: cultivando afetos e tecendo ações
Carmelita Brito de Freitas Felício
Doutoranda em Filosofia na UFG
Iarle Sousa Ferreira
Mestra em Filosofia pela UFG
31/03/2025 • Coluna ANPOF
Em colaboração com GT Filosofia e Gênero
Passei por um longo exercício de escuta, no sentido de reconhecer e acolher as diferenças, reconhecimento que quase nunca vem sem conflito. Porém, insisto, demoramos muito para escutar as diferenças entre as mulheres e, ainda assim, continuamos escutando pouco[1].
Heloisa Teixeira
(in memoriam)
Olhar em torno de si” e pôr-se à escuta [...]. Mais ainda, a leitura atenta das filosofias é indispensável porque, não só curiosidade nem só erudição, dota-nos, precisamente, de um olhar recuado [e de uma escuta atenta]que propicia melhor visão [e audição] do nosso próprio presente.[2]
Salma Tannus Muchail
Nosso título remete a um Projeto de Extensão em curso no Instituto Federal de Goiás- campus Goiânia, lançado ao final de 2022[3] com o propósito de analisar os efeitos da Pandemia da Covid-19 na vida das mulheres. O caminho que seguimos[4] foi trocar saberes com a finalidade de diagnosticar as situações de violências vivenciadas pelas mulheres, concentrando-nos nas condições de trabalho de mulheres que cuidam de outras em situações de vulnerabilidade.
Nosso projeto conta com a participação de professoras e de alunas do IFG e estas últimas remuneradas com recursos da Pró-Reitoria de Extensão. Do âmbito externo, participam professoras de outros campi, do IFG e da UFG, mulheres dos movimentos feministas, do movimento negro, educadoras populares e de outros movimentos sociais.
Neste texto, relatamos a experiência de escutar as narrativas dessas mulheres, não sem antes reatar o fio que liga essa experiência com a que vivenciamos em 2016[5]. Reportamo-nos a um episódio violento a partir do qual professoras e alunas da UFG reuniram-se para escutar uma professora do IFG que vivenciava uma situação de assédio. A partir desse episódio e de sua gravidade, organizamos encontros de solidariedade e sororidade à nossa colega. Essa ação desaguou na criação de um Projeto de Extensão para escutar e registrar em vídeos as experiências de mulheres em circunstâncias de opressão, de emancipação e de superação.
Criou-se assim um espaço de “escutas interna” em torno de problemas relativos ao exercício da profissão docente e da vida estudantil das alunas. Essas ações”[6] foram realizadas nos anos de 2017 a 2019. Contextualizá-las significa “voltar às coisas mesmas” com os estilhaços da memória deste tempo vivenciado por nós, em um ambiente acadêmico onde reina a violência e muitas delas, invisibilizadas e dissimuladas.
Com os desafios em nosso percurso, fomos aprendendo a pôr-nos à escuta, por meio de diálogos entre saberes acadêmicos e não acadêmicos. Nesse horizonte de trocas plurais, vimos construindo um espaço educativo não hierarquizado. O que estamos fazendo é uma “escuta ético-política-comunitária”, traduzindo uma metodologia que foi tomando forma no percurso. Gostamos de pensar que é uma “Escuta feminista”, um modo de fazer filosofia e formação política, mediado por uma ética e uma política que inclui afroternidade, amizade, dororidade, poeticidade, sororidade, entre outras afetividades. Um modo de fazer filosofia no qual voz e audição entram em cena e em ação, desvelando a comunidade entre voz e escuta[7].
Grada Kilomba nos ajuda a relembrar da “política sádica do colonialismo de silenciamento do chamado ‘Outro’. Quem pode falar? O que acontece, o que se passa quando falamos? E de quê podemos falar?”[8]. E Heloisa Teixeira complementa: “estamos realmente ouvindo? A realidade mostra que a escuta é bem mais difícil e perigosa do que parece”[9]. Temos ouvido muito a expressão “lugar de fala”, que vem ressoando nas vozes das mulheres negras, indígenas, muito mais expostas do que as mulheres brancas às violências que recaem sobre elas, suas filhas, seus filhos, suas companheiras e seus companheiros.
As “rodas de escutas” despertaram em nós a necessidade de repensar as atividades de falar e escutar em espaços educativos outros. Isto porque, em utm mundo que não escuta, há uma demanda urgente por ela. Iniciativas como a deste projeto fortalece a relação entre “lugar de fala” e “lugar de escuta”, entre academia e comunidade, onde ambos os lados estejam dispostos a tomar a palavra, dar a palavra, escutar, agir. Onde ambos os lados estejam dispostos a assumir a responsabilidade pelo mundo.
Nossa escuta está relacionada com os lugares de fala e de pertencimento das mulheres que vivenciaram, nas rodas, uma escuta aberta às suas vozes e à tecitura de diagnósticos, análises, encaminhamentos e soluções possíveis aos problemas que elas trouxeram em suas narrativas. Uma escuta que se atém aos lugares de um conhecimento situado para problematizar os processos racionais na produção do conhecimento. Assim, as relações de poder construídas por meio desse processo podem ser questionadas na sua suposta legitimidade. Caminhamos junto com as epistemologias feministas que não só visam à desconstução de teorias e práticas, mas promovem a inclusão e o reconhecimento dos trabalhos produzidos pelas mulheres, na academia e fora dela.
A escuta que aspiramos se atém aos entrelaçamentos entre teoria e prática, como propôs bell hooks: “quando nossa experiência vivida da teorização está fundamentalmente ligada a processos de autorrecuperação, de libertação coletiva, não existe brecha entre a teoria e a prática [...]. O que esta experiência mais evidencia é o elo entre as duas - um processo que, em última análise, é recíproco, onde uma capacita a outra”[10].
A escuta com a qual estamos comprometidas reconfigura os “lugares” de fala para demarcar não só a transitoriedade com que as mulheres habitam esses espaços, mas a reconfiguração da própria ideia de mulher que se entrelaça com o hibridismo da nossa condição: “indígena como o milho, a mestiza é um produto híbrido, desenhado para sobreviver nas mais variadas condições”[11]. São essas condições (e a falta delas) que nos impulsiona a refazer os caminhos por onde as mulheres transitam, de onde vieram para chegar onde chegaram.
P.S.: Em cerimônia realizada no dia 28 de fevereiro passado, em um auditório (lotado) da Reitoria do IFG, com a presença expressiva de pessoas representativas do IFG, das universidades e da comunidade política recebemos a visita da Ministra das Mulheres, Cida Alves que, a convite da vereadora Kátia Maria (PT-Goiânia), veio conhecer o nosso trabalho e prestigiar o momento em que a vereadora fez a entrega de emenda parlamentar destinando com recursos às ações da terceira edição do “Troca de saberes...”.
Referências
ANZALDÚA, Gloria. “La conciencia mestiza / Rumo a uma nova conciencia”. Revista Estudos Feministas. Tradução Ana Cecília Acioli Lima. 13(3), set-dez. Florianópolis: UFSC, 2005. pp. 704-719.
CAVARERO, Adriana. Vozes plurais – filosofia da expressão vocal. Tradução Flavio Terrigno Barbeitas. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.
DAMIÃO, Carla, M.; FELÍCIO, Carmelita B. F. F. “Vozes singulares e relacionalidade no pensamento de Adriana Cavarero”. In: As pensadoras, v. 1., São Leopoldo, RS: Editora As pensadoras, 2021, p. 44-61.
hooks, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: Martins Fontes, 2013.
HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Explosão feminista – arte, cultura, política e universidade. 1ª ed., SP: Companhia das Letras, 2018.
IFG. Pró-Reitoria de Extensão. Troca de saberes entre mulheres, cultivando afetos e tecendo ações.
SUAP, 2022. Disponível em:
<https://www.ifg.edu.br/attachments/article/3734/Relat%C3%B3rio%20A%C3%A7%C3%B5es%20d e%20Extens%C3%A3o%20EDITAIS%20-%20GERAL.pdf>. Acesso em 17, ago, 2023.
IFG. Reitoria do IFG recebe visita da ministra das mulheres, Cida Gonçalves. Disponível em:
<https://www.ifg.edu.br/ultimas-noticias/41415-ministra-visita-ifg> Acesso em 03, mar, 2025.
KILOMBA, G. Memórias da plantação - episódios de racismo cotidiano. Tradução Jess Oliveira. Rio de Janeiro: Editora Cobogó, 2019, s.p. [recurso eletrônico/pdf].
MUCHAIL, Salma Tannus. “Filosofia hoje – decorrências éticas”. Revista PUC-VIVA, ano 07, n.° 27, julho a setembro de 2006, p. 88-93.
UFG. Pró-Reitoria de Extensão e Cultura: PROEC. Escutas feministas: projeto interinstitucional de pesquisa interdisciplinar e extensão em interseccionalidades na área das Humanidades, 2017. Disponível em: <https://proec.ufg.br/. Acesso em 05, mai., 2017.
Notas
[1] TEIXEIRA, 2018, p. 244.
[2] TANNUS, 2006, p. 91. As palavras entre colchetes são intervenções nossas.
[3] Cf. Edital 02/2022/PROEX/IFG - ações de extensão-faixa 1.
[4] Nos anos de 2022 e 2023.
[5] Ano de criação do GT Filosofia e Gênero (do qual somos integrantes), no XVII Encontro Nacional da ANPOF, realizado em Aracaju - SE, em outubro de 2016.
[6] Cadastradas na Pró-Reitoria de Extensão e Cultura da UFG, em outubro de 2017, como “Escutas feministas: Projeto interinstitucional de pesquisa interdisciplinar e extensão em interseccionalidades na área das Humanidades”, sob a coordenação de Carla Milani Damião, professora na Faculdade de Filosofia da UFG, a primeira a tomar a iniciativa de coordenar o projeto nos anos de 2017 e 2018. No ano de 2019, sob a coordenação de Adriana Delbó Lopes, também professora na Faculdade de Filosofia da UFG, o projeto foi encerrado.
[7] É importante mencionar aqui esses elementos - voz, palavra, escuta - a partir dos quais Adriana Cavarero, em seu livro Vozes plurais - filosofia da expressão vocal considera “a narrativa como forma de expressão filosófica, em que a voz de quem relata ganha uma importância associada à subjetividade relacional. A voz precede a palavra e reforça a unicidade de seu portador” (Cf. DAMIÃO, Carla, M.; FELÍCIO, Carmelita, B. F.F., 2021, p. 57-58).
[8] KILOMBA, 2019, s. p.
[9] TEIXEIRA, 2018, p. 241.
[10] hooks, 2013, p. 85-86.
[11] ANZALDÚA, 2005, p. 712.