Estados Unidos, Trump e o Despotismo
Diego Andrade Nascimento
Mestrando em Filosofia na UFS
01/12/2025 • Coluna ANPOF
Por muito tempo, os Estados Unidos da América (EUA) se consideraram a terra da liberdade e da oportunidade. Diversos homens e mulheres deixaram seus países de origem em busca do “sonho americano”, mas, nos últimos anos, esse ideal do século XX tornou-se um pesadelo nacional. O fim daquele sonho foi declarado a partir da segunda vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, instaurando o que podemos considerar como o início de um governo despótico.
Em uma obra de 1767, um jovem senhor discutia os efeitos nocivos da corrupção interna dos diversos Estados relatados na história humana. Esse foi Adam Ferguson, filósofo escocês que, em Ensaio sobre a história da sociedade civil, investigou as razões que levaram as nações a declinarem. Para ele, “nação alguma jamais entrou em decadência interna a não ser pelos vícios de seus membros”[1]. Essa condição, enunciada pelo escocês, pode ser observada nos diversos ataques desferidos pelo atual presidente à democracia estadunidense.
Essa corrupção interna da sociedade estadunidense, pode ser observada, quando relembramos dos ataques de 6 de janeiro ao Capitólio, pois, como afirmou o professor Martins (2025), foi “uma tentativa de subverter os resultados de uma eleição presidencial legítima”[2]. Tal ação provocou ainda mais divisão interna no país — republicanos versus democratas, embora tenha servido ao seu principal objetivo: a instabilidade institucional.
Com isso, mesmo não tendo sido eleito, Donald Trump instigou um levante popular e tentou cessar o poder democrático na “América”. Como pontuou Sant’Anna: “Foi muito grave porque foi uma tentativa de insurreição popular para interromper um processo democrático”[3]. Todavia, algo importante foi notado por Martins e Sant’Anna, esses ataques revelavam os limites morais que se esperam de um estado democrático.
Embora não estivesse tratando acerca dos governos democráticos, mas, de maneira geral, sobre a corrupção dos governos. O filósofo escocês compreende que um governo despótico surge quando se ataca a liberdade civil:
Durante a vigência de uma Constituição livre, quando os indivíduos são membros de ordens e desfrutam de privilégios ou estão cientes de seus direitos pessoais, os membros de uma comunidade são, uns em relação aos outros, objetos de consideração e respeito, tudo o que fazem na sociedade civil exige talentos, sabedoria, persuasão e vigor, além de poder.[4]
Quando um país possui uma constituição livre, o que existe é o sentimento de respeito e a possibilidade de considerar o outro como membro de sua comunidade. Assim, há uma união de talentos em prol da sociedade civil. Contudo, atualmente, encontramos nos Estados Unidos um sentimento de segregação e movimentos anti-liberdade institucionalizados, por exemplo, o fim das políticas públicas de inclusão, o DEI (Diversidade, Igualdade e Inclusão). Em sua visão, essas políticas colocariam os americanos brancos em desvantagem.
Outro elemento necessário ao desmonte da liberdade nos EUA são os ataques aos imigrantes, indivíduos que estavam e continuam em busca do “sonho americano”. Nesse contexto, o slogan “Make America Great Again” tornou-se o objetivo central de Trump e de seus apoiadores: eliminar os indesejados, vistos como responsáveis pelo enfraquecimento da sociedade estadunidense, para assim torná-la “grande outra vez”. Trata-se de um retorno a um passado distante e idealizado que, na visão do então presidente dos Estados Unidos, possuía uma única identidade nacional: a do branco estadunidense. Como afirmou Stephen Miller, vice-diretor de políticas e assessor de segurança nacional: “Usaremos todo o poder das forças federais sob o comando e a direção do presidente Trump para salvar este país da ocupação”[5].
Esses ataques, entre outros, revelam a persistência e o fortalecimento de um governo despótico nos EUA, que encontrou em Donald Trump sua representação. Inimigo da liberdade que tanto declara defender, constrói um país opressivo e temeroso de existir quando contradiz seu ideal de nação. Mas não apenas isso, funda-se um país “na corrupção e na supressão de todas as virtudes civis e políticas”[6], pois deseja que seus cidadãos participem movidos pelo medo. Ao fazerem isso, satisfazem a paixão de alguns, em detrimento do gênero humano, e edificam a paz social sobre as ruínas da liberdade e da confiança, a partir das quais surgem o gozo, a força, e a elevação da mente humana”[7].
Todavia, se o filósofo escocês estiver certo, isso não levará os EUA ao mesmo fim de Roma; antes, eles retornarão, de alguma forma, ao rumo do progresso. Enquanto a economia demonstra sinais de desgaste, a desigualdade aumenta, as políticas públicas cessam e o ataque às universidades se intensifica — em uma disputa de eles contra nós.
A única coisa que nos resta é observar com atenção a mudança geopolítica internacional. A derrocada do imperialismo estadunidense revela a fragilidade dos discursos imperialista-nacionais, que excluem a diferença e instauram a submissão por meio da força bélica e econômica. Embora esteja em declínio, não devemos subestimá-los, internamente, o sentimento nacional pode reverter sua condição e (re)conduzi-los ao progresso nacional.
Contudo, podemos questionar: quanto tempo levarão para retornarem ao caminho do progresso?
Referências
AMERISE, Atahualpa. Stephen Miller: o arquiteto da política de imigração de Trump. BBC, 15 jun. 2025.
CARLOTTI, Tatiana. O sonho americano acabou? Estudo aponta como pobreza cresceu na superpotência. Disponível em: . Acesso em: 2 out. 2025.
DA, C. N. N. Governo Trump suspende funcionários federais de programas de diversidade. Disponível em: . Acesso em: 2 out. 2025a.
DA, C. N. N. O que é “DEI”, programa de diversidade que Trump pôs fim nos EUA. Disponível em: . Acesso em: 2 out. 2025b.
LODI, Gabriella. Invasão do Capitólio: relembre tumulto durante certificação presidencial nos EUA. Disponível em: . Acesso em: 2 out. 2025.
“Make America Great Again”: entenda o lema de Trump em bandeira de bolsonaristas. Disponível em: . Acesso em: 2 out. 2025.
O sonho americano acabou oficialmente. Disponível em: . Acesso em: 2 out. 2025.
CNN BRASIL. Especialista: Trump acredita que imigrantes enfraquecem o tecido social dos EUA. Disponível em: . Acesso em: 2 out. 2025.
Notas
[1] Ferguson, 2019, p. 380.
[2] Lodi, 2025.
[3] Lodi, 2025, itálico da autora.
[4] Ferguson, 2019, p. 374.
[5] Amerise, 2025.
[6] Ferguson, 2019, p. 374.
[7] Ibid