Haverá lugar para filosofias asiáticas na filosofia brasileira?
Matheus Oliva da Costa
Doutor em Ciências das Religiões. Doutorando em Filosofia (UNIFESP)
05/11/2026 • Coluna ANPOF
Ocorre no Brasil um processo transformador da filosofia, mais precisamente na filosofia institucional e universitária: cada vez mais filosofias que foram historicamente marginalizadas nos últimos dois séculos começam a ter espaço nos currículos, publicações e eventos. Como uma iniciativa da própria ANPOF, em 2023, registrou-se em uma pesquisa empírica dos currículos que nossas graduações de filosofia ainda são muito eurocentradas, mas já começam a surgir, como na UFCA ou UFRB, algumas disciplinas de “filosofias africanas”. Na UFRN há grupos de estudos de filosofias indígenas e a UFMA apresenta disciplina desse tema. Na UNESPAR, UERR, UFSC e UNINTER há “filosofia da América Latina” (ou equivalentes). Claramente, essas iniciativas são fruto ou foram fortificadas pelas leis 10.639/03 e 11.645/08 que tornaram obrigatório o ensino de história e culturas africanas e indígenas nas escolas.
A mudança curricular e de abertura intelectual na filosofia brasileira já começou, e aumenta a cada dia; contudo, parece ter excluído as filosofias asiáticas. Ao contrário dos casos anteriores, não há nenhuma disciplina de “filosofias chinesas”, “filosofias indianas” ou “filosofias japonesas”. Existe uma excelente exceção: a UNIFESP, que tem duas cadeiras docentes de filosofias asiáticas, uma de filosofia islâmica, e outra de filosofia judaica, que apresentam diversas disciplinas sobre autores, debates e história da filosofia medieval que incluem as falsafas, ou seja, filosofias escritas em árabe. Nesse último caso, têm sido mais aceitáveis essas cadeiras, e mesmo outras disciplinas similares em outras universidades, pela justificativa de que filósofos judeus e islâmicos tiveram contato direto com leituras gregas, para citar o argumento mais forte, o que legitimaria inseri-los na história geral da filosofia. Na UFCA oferta-se uma optativa de “filosofias orientais”, em geral. Mas filosofias asiáticas, guardadas as exceções, têm sido historicamente omitidas e ignoradas pela comunidade acadêmica da filosofia no Brasil, em termos curriculares oficiais.
É verdade que já existem publicações consideráveis de filosofias asiáticas em diversas revistas, inclusive as mais renomadas, como a Trans/form/ação da UNESP ou a Kriterion da UFMG. Bem como há bons livros, sejam traduções de pesquisas como os cinco volumes dos Textos Selecionados de Filosofia Chinesa da coleção Série Investigações Filosóficas da editora UFPEL, traduções de clássicos pela editora UNESP, sejam obras autorais sobre filosofias indianas, chinesas, japonesas e budistas em diversos livros das edições do Projeto Orientalismo da UERJ ou da editora Phi. E essas publicações, mesmo que minoritárias no cenário brasileiro, crescem a ponto de já proporcionar referências suficientes para um estudante de filosofia que lê apenas em português fazer uma pesquisa de qualidade em sua graduação.
Da mesma forma, há grupos de estudo, GT da ANPOF e eventos. Há grupos cadastrados pelo CNPq dentro da área da filosofia, como o NUR (Núcleo de Pesquisas em Filosofia Islâmica, Judaica e Oriental) da UNIFESP, e o grupo Filosofias Bárbaras (Grupo de Pesquisa em Filosofia Intercultural) da UFCA que inclui “filosofias orientais” como linha de pesquisa. Mesmo que poucos saibam, existe um GT da ANPOF de “filosofia oriental”, que busca agregar pesquisadores dos PPG de filosofia sobre o tema, tendo, historicamente, baixa procura nos congressos bianuais da ANPOF e não tendo nenhum outro encontro além desse bianual. Existem muitos eventos pontuais de alta qualidade, mas apenas dois realizaram várias edições: a Jornada de Filosofia Oriental da USP, de que falaremos mais à frente, e o Colóquio Internacional de Filosofia Oriental (da Unicamp). Enquanto o último faz uma opção declarada pelo uso do termo “oriental”, a Jornada da USP tem se transformado.
A tradicional Jornada de Filosofia Oriental da USP começou em 2012 como expressão da busca de estudantes de Filosofia da USP por conhecimento, especialmente de Lucas Machado, com apoio de alguns docentes do Departamento de Filosofia, como Osvaldo Pessoa Júnior e Marcus Sacrini. Essa busca foi motivada pela pergunta: “Alguns dizem que não existem filosofias “orientais”, e outros dizem que existem, então, afinal, quais seriam as expressões intelectuais que podemos encontrar na Ásia?”. Ou seja: colocar em questão e investigar, por nós mesmos, o que existe de filosofia asiática.
Inicialmente, foram usados os termos “oriente” e “oriental”, em um sentido de expansão do que já era conhecido e estudado de “filosofias ocidentais” de maneira exclusivista na USP. Paulatinamente, a já clássica crítica de Edward Said contra o orientalismo cresceu a cada encontro ao longo dos anos, deixando o termo “oriente” e afins cada vez mais de lado, ainda que mantendo-o no título do evento, por tradição. Melhor ainda, a diversidade e a profundidade com que as filosofias asiáticas foram apresentadas e discutidas mostravam que há, sim, filosofias provenientes da Ásia. Há, na história da Ásia, muitas técnicas argumentativas como método do fazer filosófico, há teorias explicativas dos mais diversos campos, há formas de provocações críticas ao pensamento comum e hegemônico, há práticas de modo de vida filosóficos, há escolas filosóficas com séculos e milênios de linhagens e textos e há debates entre elas.
Entre vários estereótipos baseados em uma certa visão de Hegel (que ele mesmo superou posteriormente), muitos foram derrubados por apresentações e debates das Jornadas, como a acusação de que “filosofias orientais são religiosas, logo, não são filosofias”. Algumas dessas filosofias asiáticas têm caráter religioso, como as filosofias indianas ligadas ao Vedanta ou ao Budismo, tal como as filosofias criadas entre islâmicos, judeus e cristãos até hoje. No entanto, outras filosofias da Ásia são claramente distintas de toda forma religiosa, como os Lokayata indianos, ou os legalistas e os naturalistas chineses. Outras tradições são ambíguas quanto a isso, variando entre autores, como a Escola de Kyoto, no Japão. Seja como for, é uma falácia dizer que todas as “filosofias orientais” são apenas expressões religiosas. Bem como, muitas das expressões religiosas mostram-se como tendo valor filosófico, argumentativo, sistemático e crítico, tal como as filosofias medievais europeias. É falacioso também dizer que, por ser também religioso, não pode ser filosófico.
Outro fruto das Jornadas foi a criação da ALAFI, Associação Latino-Americana de Filosofia Intercultural. Além da crítica contra o orientalismo, foi notado também que a mesma justificativa que estava sendo construída para estudar e pesquisar filosofias asiáticas, serve também para estudar filosofias formuladas em todas as culturas e tempos. Ou seja, a Jornada, que começou focada em filosofias asiáticas, expandiu os horizontes dos participantes para a necessidade de estabelecer justificativas e posturas interculturais em filosofia, tendo como principal influência o filósofo Ram Mall (com publicações na revista parceira Polylog e na recente revista Tarka, da ALAFI), entre outras referências.
Diante das informações sintetizadas acima, a Jornada, na edição deste ano de 2026, muda de nome, expressando todas essas mudanças: Jornada de Filosofias Asiáticas e Interculturais da USP. De filosofia “oriental”, mudamos para o termo “asiática”, que é mais geopoliticamente localizável e menos carregado – uma tendência mundial, é preciso lembrar. Incluímos o termo intercultural, deixando claro que não é uma questão meramente territorial, mas de expansão dos horizontes filosóficos para além do eurocentrismo, abrangendo filosofias das mais diversas origens culturais. Afinal, como os filósofos Ram Mall, Raúl Fornet-Betancourt, Magobe Ramose e tantos outros/as mostram, toda filosofia é culturalmente situada, mas pode e frequentemente vai além do seu contexto.
Essa mudança me motivou a escrever este texto para fazer uma pergunta que me questiono há anos: haverá lugar para filosofias asiáticas na filosofia brasileira? Tendo em vista os dados sintetizados acima, parece que há espaço para publicações, grupos de estudo e eventos. Mas não parece ter espaço em termos de presença institucional tal como outras filosofias têm: ou seja, em disciplinas. Por consequência, também vai continuar sem existir nenhum concurso sobre filosofias asiáticas. Se esse é o caso, para que um pesquisador estudaria filosofias asiáticas em sua trajetória de formação no mestrado e doutorado? Não há razão profissional. Tudo isso cria um ciclo vicioso: não há espaço institucional para estudar filosofias asiáticas, e a falta de espaço para estudar filosofias asiáticas nas disciplinas dos currículos oficiais gera falta de interesse. Segue-se que, mesmo tendo uma enorme lista de filosofias (nyaya, madhyamaka, moísta, daoista, confucionista, escola de Kyoto, etc.), essas tradições seguem ignoradas e omitidas das disciplinas de graduação no Brasil.
Concluo esse breve texto com uma provocação: um frequente argumento contra a inclusão dessas filosofias nas graduações é a falta de espaço e tempo; mas e se, em vez de ter cadeiras de filosofias indianas, chinesas, tibetanas e japonesas, os autores, problemas e temas dessas filosofias já fossem lidos, estudados, pesquisados e problematizados em aulas de introdução à filosofia, história da filosofia, ética, estética ou epistemologia? Que tal pensar um ensino de filosofia que, na trilha da lei 11.645/08 e na interpretação pluriversal de Renato Noguera, incluísse tanto filosofias africanas e indígenas quanto filosofias asiáticas? Não passou da hora de filosofias asiáticas começarem a ser tão lidas aqui no Brasil quanto já são lidas nos grandes centros universitários de filosofia na Europa, América do Norte e Ásia? Isso só vai ocorrer se existirem disciplinas oferecidas regularmente que incluam referências asiáticas. Não precisamos, necessariamente, criar várias outras disciplinas, mas, da filosofia, em geral, abrir espaço para ler criticamente as várias filosofias asiáticas.
A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.