Irã, irracionalidade e contradição
Felipe G. A. Moreira
Doutor em Filosofia pela University of Miami; pesquisador de Pós-Doutorado na USP
05/05/2026 • Coluna ANPOF
“Pergunto-me”, diz Luiz Felipe Pondé na Folha de São Paulo, “se quem torce pelo Irã preferiria ir para Nova York ou Teerã?”. A resposta, Pondé sugere ser óbvia, é Nova York. Ele conclui então que “há uma grave dissociação cognitiva nessa torcida pelo Irã”. Note que ‘torcida pelo Irã’ não é uma expressão particularmente precisa. Ela pode se referir a atitudes bastante diferentes. Por exemplo, querer que os EUA e Israel não matem uma civilização inteira; crer que seria benéfico se o Irã tivesse hegemonia no oeste da Ásia ou acreditar que um país regido por leis diferentes daquelas dos países que fazem parte da OTAN tem o direito de existir bem como de explorar seus recursos naturais.
Consideremos agora uma pessoa que, como muitas, tem duas características.
a) Ela torce pelo Irã em algum desses sentidos.
b) Ela preferiria visitar ou morar em Nova York em detrimento de Teerã.
Pondé dá a entender que a adoção da conjunção de a) e b) é uma espécie de irracionalidade, isto é, uma “grave dissociação cognitiva”. Mas existem – a pretensão dessa coluna é explicitar – dois motivos para se disputar essa visão.
O primeiro motivo é que embora a conjunção de a) e b) possa parecer envolver uma espécie de tensão, ela não é uma contradição. ‘Contradição’ se refere a algo que tem e, ao mesmo tempo, não tem uma dada propriedade. Por exemplo, como debatido em mais detalhe por Ricardo Sousa Silvestre, alguns cristãos têm a crença que Cristo tem e, ao mesmo tempo, não tem a propriedade de ser humano. Se esse é o caso, Cristo seria uma contradição. Outros exemplos de contradição são: torcer e, ao mesmo tempo, não torcer pelo Irã; e preferir e, ao menos tempo, não preferir visitar ou morar em Nova York em detrimento de Teerã. O mesmo não parece ser o caso da conjunção de a) e b).
Ademais, algumas razões para alguém adotar a) são as seguintes: o ciclo de incontáveis intervenções militares e de outra ordem (e.g., cultural) dos EUA precisa parar; Israel se vale de um conceito injustificado de autodefesa; devemos optar pelos pobres, como sugerem teólogos ou filósofos da libertação; não é uma opção pelos pobres torcer para o lado mais forte belicamente etc. Existem também várias razões para se adotar b). Por exemplo, não falar persa mas inglês; não ter nem ouvido falar dos pontos turísticos de Teerã mas apenas dos de Nova Iorque; ter recebido uma oferta de emprego para viver nessa última mas não em Teerã etc. Ora, uma pessoa que envolve a) e b) numa rede de crenças caracterizada por essas razões não tem nada de irracional; não carece de logos.
Mas suponhamos que ao procurar justificar a) e b), alguém eventualmente de fato se compromete com uma contradição como: o governo iraniano é e, ao mesmo tempo, não é justo; os EUA são e, ao mesmo tempo, não são uma democracia; democracias em geral existem e, ao menos tempo, não existem etc. Mesmo nesse caso, essa pessoa não estaria sendo irracional. Esse é o segundo motivo para se disputar a visão de Pondé.
O que o justifica é que se o mero comprometimento com uma contradição fosse uma condição suficiente para irracionalidade, é provável que não haveria nenhum animal digno da alcunha de portador de logos. Isso porque pessoas reais de carne e osso usualmente ou quiçá inevitavelmente se comprometem com contradições. Como Walt Whitman coloca no poema, “Canção de mim mesmo”: “Eu contradigo a mim mesmo?” / Pois bem, então eu contradigo a mim mesmo / Eu sou vasto, eu contenho multitudes”.
Ademais, não são poucos os lógicos, como Newton C. A. da Costa, que rejeitam o princípio da explosão segundo o qual de uma contradição qualquer coisa se segue. De fato, uma pessoa que crê em qualquer coisa ou em tudo e, ao menos tempo, em nada poderia plausivelmente ser vista como sofrendo de uma “grave dissociação cognitiva”. Mas não é nisso que creem os que adotam a conjunção de a) e b).
Esses – como os dois supracitados motivos indicam e ao contrário do que Pondé insinua – parecem ser, sim, animais lógicos. Sugerir o contrário é uma violência “sutil” – quiçá a mãe ou o pai de todas as outras violências, como eu indico aqui.[1]
Nota
[1] O presente trabalho foi realizado com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Brasil. Processo 2024/13530-2. As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações expressas neste material são de responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a visão da FAPESP.
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