Negritude no mito da caverna

Fabíola Menezes de Araújo

Doutora em Filosofia pela PUC- Rio e em Teoria Psicanalítica pela UFRJ

09/12/2025 • Coluna ANPOF

Em colaboração com GT Filosofia e Raça da Anpof 

Segundo Dostoiévski, onde “Deus está morto”, tudo é permitido. O autor russo nos orienta a pensar no caso de ser a inveja de Deus a causa de sua morte: porque ser um Deus é ter o direito de vida e morte; o inumano, quando (se) fantasia, mata por diversão. Por fantasia de superioridade - ou de inferioridade - transfere-se o horror a outrem. Para quem? Para os homi que mata minino (sic): onde não há Ibejin, há  caquinha. 

No racismo brasileiro, se mata por diversão. Isso porque há folia na cultura. E não é só a contra-cultura que aqui manda. A seriedade - sobretudo de onde se demanda a manutenção de privilégios que se assentam em uma estrutura capitalista racista e misógina - ordena a morte. Somos nós os bandidos das policia (sic), que mata primeiro e depois inventa o fragrante. Somos nós o outro, o selvagem, das Oropa que deseja - e não deseja - curar-se.

Referida, na República, como protagonizada pelas 'médicas por natureza', essa cura merece a nossa atenção. Conforme descritas no Livro V (R. 455e7), essas médicas seriam mulheres a fim de se desnudar para realizar a medicina em questão: a cura da alma, isto é, a cura da cidade como um todo. Mantendo-se virtuosas: talvez para acabar com os crimes, lemos aí uma promessa de paraíso. Mas qual a disponibilidade de nos vermos como essas mulheres que, nuas, curariam a cidade? A cura dos crimes – a cura do Real de todos os deslimites de gerações de jovens – como obter afinal? Quem foi obrigado a se desnudar na chacina? Os mortos. 

Tomando como paradigma o feminismo negro (Lecci, 2021), a cura pode estar na medida do real. Por sermos mães e provocadas a agir por justiça mas também por nós, rezamos pelos desnudados que identificamos com as vítimas da chacina mais letal já protagonizada por um Estado racista e misógino.

Mais uma vez, na outra ponta de uma história marcada por várias ontologias machistas mas nenhuma feminista: Como, na condição de mulheres peladas, curaríamos em Kallipolis? Performaríamos que espécie de cura, afinal: com música, talvez dança? Na morte, quando somos a morte, o não-ser, aí talvez a cura possa ser levada a cabo. Assim como os jovens que se suicidam ao  se tornarem ‘adultos para o tráfico’, matando o feminino que em nós habita, alcançaremos a cura? Em que suicídio haverá cura? 

Suportar hábitos ‘fora do comum’, suicídios de projetos onde se poderia ser feliz, tratar-se-á de uma estratégia feminista, ou meramente socrática? 

Urge a seguinte pergunta: Será que, quando destinadas à cura dos cidadãos, trabalhando para a cura da cidade toda, a virtude das guardiãs de Kallipolis, nossa virtude, não viria a ser causa de nossa própria escravidão? O enaltecimento de uma virtude guerreira pode, mas não deve, redundar em uma idealização castradora ou, nos termos de Nussbaum (1995), deformadora do desejo. 

Para Karl Popper, conforme a crítica de Nussbaum, trata-se, nessa interpretação, de um Platão ‘ditador’, que expulsa a poesia, banindo a mimesis, do enaltecimento de ditames da cidade ideal. A fim de que esses fossem estritamente seguidos de modo independente dos desejos das guardiãs, no projeto platônico, é como se estivéssemos atreladas a uma sela que seria a própria revolução. Despidas, serviríamos a qual rei filósofo? Pois bem, e se esse rei prometesse-nos plena liberdade, em função do que seria algo como governar em conformidade ao Axé e a justiça de Xangô… ladinas, america-ladinas, Epahei! Pois agora digo e afirmo: ainda assim, conforme nos parece, não seria justo que nossa morte servisse de cura para  todos. 

Durante o cotidiano racista, tornado rotineiro, nós mulheres já somos vistas e tidas como o que? Como devendo servir apenas. Mas agora a faca está conosco. Como podemos usufruir de corpos de pomba?

Para se tentar sair da angústia, os racistas se exercitam: exercitam o racismo deles em nós. São um exército capacitado, agora, pela internet. Em Crítica da razão negra, Achille Mbembe trata do que considera uma “reintrodução global da relação colonial” (2018. p. 14-15). Para descrever o sistema capitalista, Mbembe esclarece que “agora uma parte do trabalho consiste em transformar o real em ficção e a ficção em real” (p. 18). 

Agora vale a pena  perguntar: que a violência de gênero e de raça seja resultado do capitalismo, nos parece claro, mas não seria também que a violência gera o capitalismo? O trabalho realizado pela cibercultura é uma realização do sistema capitalista, mas esse sistema não pode ser pensado como propício para canalizar uma violência que seria anterior ao próprio sistema? Que a internet seja racista e que essa situação ainda venha a piorar, nos parece ser o ponto de Mbembe. Assim compreendido: o capitalismo das máquinas cibernéticas é gerador do capitalismo que gera mais máquinas. Pelo capitalismo, pelo liberalismo, os racistas se desdobram; forjam a cada vez novos cárceres - agora com base em identidades cibernéticas -, mas sempre levando em conta seja a nossa exclusão, seja a nossa morte. Hoje, homens, e mulheres cis, em um pacto com o capeta, passam a se proteger narcisicamente. Em prol desse narcisismo, perpetuam a lógica racista. Tratam-se de engrenagens da hierarquia patriarcal, em que o silenciamento de mulheres negras é, via de regra, a norma. O usufruto de nossa força de trabalho é naturalizado não apenas como um costume, mas como um imperativo. 

No Mito da Caverna  (R. VII, 514a-517c), não: nesse mito, se mata por inveja ou por ciúme. Os prisioneiros da caverna se divertem com imagens, competindo para decidir quem vê da melhor forma as sombras refletidas na parede da caverna. Eles não se divertem com o ato da morte em si. 

E quem morre, ao final? 

Será o liberto. Será um negro(a)? Na volta, sem o MNU (Movimento Negro Unificado), em seu retorno à caverna, quando externada através da violência, tem lugar a morte, os demais prisioneiros são referidos como miseráveis. Nesse mito, são criticados a inveja e o desejo de poder (R. VII, 516d). Não é criticada a morte por diversão. 

Inveja e desejo de poder – senão os pilares do sistema capitalista. A ‘caca’, ou a ‘caquinha’, isto é, as fezes, os restos que saem da bunda, podem (ainda) ter o racismo como motor? O grego kaká soa próximo ao pretuguês de Lélia Gonzalez: a caca dos brancos como uma parte de nós.

O outro dos polícia, dos homi é também o lixo que fala (GONZALEZ, 1984, p. 227) nas palavras de Lélia. Pois – “O lixo vai falar, e numa boa”! ‘Misérias’ é a tradução da ‘kaka’ que, já na caverna platônica, fizeram os assassinos. 

Por exemplo, na chacina do dia 28 de outubro de 2025, no ato de reconhecimento de serem jovens os negros mortos: em nome do Bem; Bem de quem, e para quem, a final?! Ora, precisamos aprender a nos defender menos de nosso inconsciente, e mais de uma consciência, por definição, e historicamente, escravocrata. Para isso, até a personagem da ‘negra raivosa’ imperiosamente é vida. 

A própria compreensão dos assassinatos já é, para nós, estranha. Estranha à verdadeira ambição do filósofo, qual seja, de vislumbrar por meio da Palavra como se alcançar a estratégia platônica que promete salvação e paz. Tornar a cura da psiquê, isto é, da alma da cidade como um todo disponível. Ou indisponível? E para quem? Onde estará a cura da cidade?


Referências

ARAÚJO, FABÍOLA MENEZES DE O véu do inconsciente e a questão da angústia. CADERNOS DE PSICANÁLISE (CÍRCULO PSICANALÍTICO/RJ), v.35, p.149 - 168, 2013. Disponível em: [http://www.cprj.com.br/imagenscadernos/caderno28_pdf/14.pdf]. Acesso em 27/03/2024, p. 155-156).

GONZALEZ, Lélia. Revista Ciências Sociais Hoje, Anpocs, 1984, p. 223-244. Disponível em: <In: Revista Ciências Sociais Hoje, Anpocs, 1984, p. 223-244. Numeração de páginas original à esquerda, na seqüência da di>. Acesso em 15 dez. 2024.

____. Lélia Gonzalez: por um feminismo afro-latino americano. Ensaio, Intervenções e Diálogos. RIOS, Flavia; LIMA, Márcia (orgs.) Rio de Janeiro: Zahar, 2020, pp 67-83.

LECCI, Alice Lino. (2021) Feminismo negro e a crítica à cultura brasileira. Blogs de Ciência da Universidade Estadual de Campinas: Mulheres na Filosofia, V. 7, N. 2, 2021, p. 16- 30. Recuperado em 14/09/2025 em: <O feminismo negro e a crítica à cultura brasileira>.

MBEMBE, A. Crítica da razão negra. 1ª edição [2013]. São Paulo: N-1, 2018.

NUSSBAUM, Martha. A República de Platão: a boa sociedade e a deformação do desejo. Trad. Ana Carolina da Costa e Fonseca; Luiz Fernando Quintanilha; Lúcia Maria Britto Corrêa; Paulina Terra Nólibos. Porto Alegre: Bestiário, 1995.

PLATÃO. (2016) A República. (Carlos Alberto Nunes. 4 ed. (rev. e bilíngue), Trad. Belém/PA: Edufpa. 


A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.

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