O corpo que desequilibra: notas sobre a relação em si a partir de O desconhecido de si e dos outros (2023)
Marcelo Vinicius Miranda Barros
Doutor em Filosofia pela UFBA
30/07/2025 • Coluna ANPOF
A ontologia da “relação em si”, tal como desenvolvida na obra O desconhecido de si e dos outros (2023), não pretende substituir os debates clássicos sobre o corpo, a consciência ou o simbólico, mas deslocar o eixo de sua formulação. Trata-se de um esforço que busca recuperar, de maneira fenomenológica, a dimensão constituinte da relação enquanto tensão expressiva, evitando a hipóstase do sujeito ou do desejo como fontes originárias do sentido.
Diferente das abordagens que partem da consciência como primado ontológico – como em Sartre – ou da linguagem como organizadora do real – como em Lacan –, essa proposta parte da constatação de que o aparecer fenomenal já é relacional, e que não há uma “relação da relação”, como se ela fosse um objeto tematizável entre outros. O que aparece não é uma substância nem um símbolo, mas um campo de forças assimétrico no qual corpo e mundo emergem de forma coemergente.
Nesse contexto, a relação em si não é uma entidade, nem um "antes" cronológico ou causal da consciência; trata-se de uma condição constituinte do sentido, que só se torna fato quando aparece – e cuja aparição só se dá como consciência. A consciência é, portanto, o modo fenomênico dessa relação, e não seu fundamento. Como já intuía Hegel em sua concepção dialética, não há sentido fora da relação: o próprio aparecer é mediação, ou seja, relação constituinte. Como o próprio livro afirma: “não existe relação que não seja, de alguma maneira, uma relação de aparecer, isto é, não há relação sem fenomenalização e vice-versa; com efeito, não há primazia da consciência fenomenológica” (Barros, 2023, p. 193).
A consciência, então, deve ser pensada como forma singularizada e concreta de atualização do campo relacional, o que evita tanto o solipsismo cartesiano quanto o estruturalismo universalizante. A consciência é intencionalidade – ou seja, doação de sentido – mas esse sentido não é originado por ela; a consciência é o nome que damos à atualização fenomênica da relação quando essa atualização se dá como sentido vivido. A rigor, a atualização da relação já é sentido, porque não há relação sem sentido e não há sentido “fora” da relação. Se dissecarmos o que chamamos de consciência, encontraremos apenas atualizações desse campo relacional. Não há uma instância autônoma chamada “consciência” que decide ou escolhe a partir de um lugar puro: há apenas o sentido que emerge da tensão dialética entre o que se dá e o que se torna. A consciência, nesse quadro, não é origem, mas fenômeno da relação – uma forma de sua expressão encarnada.
A corporeidade, nesse sentido, aparece como a expressão imediata da relação – não seu receptáculo, mas sua efetuação concreta. O corpo não é apenas um suporte para o fenômeno: ele é o fenômeno. O corpo é o ato expressivo imediato – ele não “significa”; ele é o que aparece, sem simbolizar. Essa tensão não é um problema a resolver, mas o próprio modo de ser da relação: ela se sustenta porque não há substrato, só movimento puro.
A relação em si é uma estrutura primária de coemergência diferencial não-sintética. Trata-se de um processo imanente de diferenciação constitutiva, onde termos e relação surgem contemporaneamente como pura negatividade relacional. Não há anterioridade, causa ou produto: os "termos" são modulações instantâneas da própria tensão relacional, e a relação é devir contínuo sem teleologia. O real é devir: ele é relação dialética.
O sujeito, por sua vez, não é nem fonte nem consequência, mas o próprio acontecer situado da tensão relacional. O sujeito é o nome que damos, como quando nomeamos um “rio” que nunca é o mesmo, mas que persiste como fluxo, como padrão de repetição diferencial. Não há identidade estável nesse fluxo – apenas intensidades transitórias que se reiteram como ficções nominais. A identidade é uma estabilização ilusória, assim como o “eu” é nome para o ritmo reiterado da relação se atualizando. A crise existencial de que “nada mais faz sentido” também é, paradoxalmente, um sentido: um modo de atualização do campo tensivo.
Ao falar do desejo como substituído pelo ritmo diferencial e não por carência, contorna-se o existencialismo de Sartre e o estruturalismo de Lacan sem fazer do corpo uma substância vitalista. O desejo é substituído por um devir imanente não impulsionado por falta, mas por diferença pura. Ainda assim, não se trata de uma indeterminação absoluta. A assimetria relacional que estrutura o campo impede a dissolução: ela garante diferenciação concreta sem polaridade fixa. A tensão não se resolve porque é não polarizada: não há polos fixos (sujeito/objeto) a serem reconciliados. A não-síntese é garantida pela assimetria radical: os "termos" são assimetrias dinâmicas no campo relacional. O corpo, por exemplo, não “equilibra” percepção e mundo; ele desequilibra-se como condição de aparecer.
O sentido não é dado pela consciência, nem garantido por uma estrutura simbólica. Ele é uma ressonância diferencial: emerge da diferença que vibra no campo relacional, como dobra transitória e não como identidade. A estabilidade é apenas um ritmo reiterado, como um rio que não é o mesmo, mas repete diferenças. Assim, não há sentido “fora” da relação, e não há consciência sem essa atualização contínua do sentido, que só se dá no próprio processo de diferenciar-se.
Essa concepção implica abandonar a ideia de polos fixos entre sujeito e objeto. Relação não é algo entre dois entes previamente dados. A relação em si é o que torna possível que haja qualquer figuração de termos. O que se descreve não é a interação entre elementos, mas a coemergência diferencial dos mesmos a partir da tensão.
Um exemplo simples ajuda a visualizar isso. Imagine que você caminha por um bosque úmido e escorregadio. Merleau-Ponty diria que seu corpo se ajusta ao terreno, tentando equilibrar percepção e movimento. A proposta relacional afirma outra coisa: o escorregão não é falha, mas acontecimento ontológico pleno. Ele rompe a ilusão de estabilidade, antecipa a intencionalidade (tornozelo torce antes do pensamento) e inscreve o mundo como caos de forças. A dor, o atrito, o susto não são dados separados; são confissões de uma tensão expressiva encarnada. O corpo aparece porque se desequilibra – e não apesar disso.
Esse desequilíbrio não é desvio ou erro, mas o modo de ser da relação em si. Não há equilíbrio estável porque o equilíbrio absoluto seria a invisibilidade absoluta. O aparecer exige instabilidade, e o corpo é a expressão encarnada dessa instabilidade constitutiva.
A consequência filosófica disso é que o corpo não possui uma relação – ele é a própria relação em ato. Ele não interpreta o mundo: ele é o mundo dobrado, afetado, torcido, sentido. Contra Lacan, o simbólico é secundário; ele não estrutura o real, mas captura tardiamente sua vibração. O gesto não representa a dor; ele é a dor tornada visível, audível, compartilhável. A linguagem nomeia aquilo que o corpo já expressou, ainda que com perda.
Essa tensão expressiva também desloca a ideia de sentido. O sentido não é fixo, nem revelado, nem construído a partir de um desejo que busca algo em falta. O devir substitui o desejo: é movimento imanente que não visa preenchimento, mas auto-alteração contínua. Não há síntese – como em Hegel –, nem negatividade pura – como em Sartre. O que há é diferença em ato, sem reconciliação. A relação em si é devir puro: instabilidade constituinte que não aponta para unidade, mas para intensificação.
Isso impede a fixação de identidades, dissolve a busca por fundamentos e nega a possibilidade de um metanível (não há “relação da relação”). A relação em si é auto-instânciante – não há estrutura mais fundamental. O corpo não é o portador da relação; é a carne expressiva da tensão. A consciência não é origem do sentido; é sua atualização fenomênica. O simbólico não dá forma ao mundo; ecoa sua diferença.
Em vez de um sujeito que doa sentido ao mundo, temos uma relação que se expressa na carne. Em vez de um desejo que impulsiona o movimento, temos o movimento como fonte da própria alteridade. Em vez de síntese, ressonância. Em vez de substância, fluxo.
Pensar assim não é recusar o sujeito, mas colocá-lo em seu devido lugar: ele é o nome que damos ao entrecruzamento de tensões em ato. O corpo desequilibrado, então, não é exceção. Ele é a regra. Porque só quando desistimos de estabilizar a tensão é que podemos escutá-la em sua inteireza.
Referência
BARROS, Marcelo, Vinicius, Miranda. O desconhecido de si e dos outros: a invenção do ser humano e quando deixamos de entender o mundo. São Paulo: Dialética, 2023.
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