O interesse geral da filosofia
Luiz Fernandes
Mestrando em Filosofia na Universidade Federal de São Carlos
26/08/2025 • Coluna ANPOF
Os projetos político-pedagógicos dos programas universitários de Filosofia no Brasil, seja em nível de graduação ou de pós, reconhecem uma história da Filosofia como o conteúdo formativo necessário para a iniciação filosófica: não se pode partir de outro lugar, somente o itinerário ideativo dos filósofos antigos, medievais, modernos e contemporâneos europeus; estes são os válidos.
Tais projetos relegam à metafísica, no sentido de abranger universalmente o ser humano, o estatuto de Filosofia. Nenhum elemento constituinte do ser humano possui fonte de conhecimento seguro, remontando ao cartesianismo o desprezo pelo corpo e a exaltação da razão, pois esta é a verdadeiramente universal, e encontra-se em qualquer um, em qualquer lugar. A onipresença da razão é o que a faz imperativa no discurso filosófico: aquilo que é mundano é fonte de erros e equívocos. A condição do constructo de conhecimentos sistemáticos restringe-se ao que é suprassensível. Nesta linha de pensamento, “liberdade” é filosofia, “Gênero” não; “ética” é filosofia, “Raça” não; Os cânones restringem as possibilidades de erigir uma pluralidade. Já, seus missionários, satirizam e inferiorizam a diversidade.
Estranho seria se gênero, raça e sexualidade fossem características restritas de um grupo de indivíduos. Se a razão se dá em todo e qualquer ser humano, só pode ser pelo desconhecimento de outras categorias, pois foi pela falta de reconhecimento em si próprio do gênero que os filósofos utilizaram “homem” como sinônimo de ser-humano. Assim sendo, nunca foi uma questão ser homem ou mulher, homo ou hetero, pois, o mundo filosófico não é racional, é sentimental e restrito: é homem, branco e hétero. Daí, o não-espaço que tais temáticas ocupam na filosofia. O não-espaço não nega sua realidade, mas, ao contrário, afirma sua existência quase-que-marginal. Quase, já que o conteúdo filosófico não toca explicitamente nestas temáticas, mas a forma, sim; melhor dizendo, se escreve sobre a universalidade, mas o escritor, circunscrito numa individualidade também universal, relega às condições sociais algo de provisório e trivial. Seria supérfluo filosofar sobre algo que constitui o ser humano, em todas as civilizações, dos tempos mais remotos? Podemos ser impelidos a afirmar: trata-se de uma incognito: como filósofos influenciados por seu tempo, restava apenas aquilo para se dizer e, afirmar gênero como conteúdo filosófico estaria aquém-época. Para este argumento é necessário se fazer presente a seguinte questão: nossos atuais pesquisadores reconhecem a legitimidade dessas temáticas?
O Especialista em Filosofia de John Karley de Sousa Aquino[1] representa a bagagem dos sapientes em filosofia sob um grupo bem circunscrito de filósofos e suas obras de referência acadêmicas. O medo do erro e a ausência da atividade filosófica, neste tipo de formação, são pedras angulares que sustentam aquele que se afirma “filósofo”, culturalmente uspiano. Assim, este especialista é, na verdade, um comentador de textos, jamais um filósofo propriamente dito, pois ser implica, neste caso, exercer um discurso racional, e não se valer de um texto como uma lupa onto e cosmológica.
Aquino evoca uma crítica fundamental para a construção de uma verdadeira filosofia. Há pouca eficácia em sermos cópias de determinados personagens como se o que mais importasse fossem as versões mais atualizadas e, assim, mais corretas que as anteriores, i.e., as novas pesquisas e os novos estudos sobre autor X. De fato, nesse sentido desemboca-se antes em um conflito de ego, ao invés de algum compromisso com a realidade. Não é demais relembrarmos que não se aprende filosofia, mas filosofar, como uma atitude, não como um conteúdo: estamos diante de dados históricos, ainda que lidos como se fossem a Filosofia, mas trata-se antes de um sistema filosófico, um alicerce, jamais a Filosofia pronta e acabada[2].
Não é necessário descartar a leitura de Aristóteles, afinal o Estagirita desempenhou um papel fundamental na história da filosofia, é preciso dizer, ocidental: ocupou-se com a lógica, educou Alexandre, foi referência para filósofos medievais e modernos; ainda de acordo com a premissa inicial, podemos afirmar temáticas historicamente rejeitadas por estes autores sem partir do lugar já consagrado à filosofia, mas não podemos negar sua filosoficidade. Em outras palavras, o processo de construção da bagagem filosófica tem a possibilidade de se dar democraticamente, e isso demanda tanto uma transformação subjetiva quanto objetiva: é preciso re-conhecer o sistema aristótelico integralmente e, para isso, é imperativo lembrarmos seu apoio à escravidão.[3]
Notas
[1] Cf. AQUINO, John Karley de Souza. O especialista em Filosofia. Disponível em: https://anpof.org.br/comunicacoes/coluna-anpof/o-especialista-em-filosofia
[2] Cf. KANT, I. Lógica. AA IX, 25-6.
[3] Cf. ARISTÓTELES. Política, 1255a, 1255b.
A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.