O progresso ilimitado e os limites da natureza: impossível conciliação
Felipe Teider de Godoi
Doutorando em Filosofia na PUCPR
23/10/2025 • Coluna ANPOF
Em colaboração com GT Hans Jonas da Anpof
Hans Jonas já alertava, no final da década de 1970, que a civilização tecnológica se apoia em uma promessa ilusória: a crença de que o progresso técnico pode aperfeiçoar indefinidamente a existência humana. Essa visão, descrita como uma “visão paradisíaca” (Jonas, 2013, p. 169), expressa uma confiança ingênua na tecnologia, vista quase como uma força redentora. No entanto, essa fé cega no avanço ilimitado acaba agravando os riscos ecológicos, pois o desenvolvimento técnico descontrolado ultrapassa os limites naturais do planeta. Como observam Souza et al. (2025, p. 21) “o tempo que nos resta até a autoaniquilação só tem se encurtado [...] não apenas pelos riscos nucleares e conflitos geopolíticos, mas também pelas mudanças climáticas” intensificadas pelo progresso sem freios.
Essa busca incessante por progresso não gera satisfação duradoura, já que a técnica, ao criar novas possibilidades, desperta continuamente novos desejos e objetivos. Para Jonas (2013, p. 16), as inovações tecnológicas “não conduzem a um ponto de equilíbrio ou de saturação”, mas impulsionam o surgimento de novas necessidades e de um “novo homem” moldado pela própria técnica. Essa dinâmica, segundo Souza et al. (2025, p. 22), “perturba o frágil equilíbrio da natureza” e converte as criações humanas em instrumentos de destruição. Embora reconheça o potencial da tecnologia para melhorar a vida, Jonas (2006, p. 229) defende que o progresso precisa ser moderado por limites éticos, uma vez que os interesses humanos estão intrinsecamente ligados à preservação da vida em todas as suas formas.
O centro de sua filosofia é o princípio responsabilidade, formulado diante do reconhecimento de que o poder humano alcançou uma escala inédita, “sem precedentes” (Jonas, 2006, p. 56), e que as antigas éticas já não são suficientes para guiá-lo. Diante disso, Jonas propõe uma ética da previsão e da responsabilidade, voltada para proteger a vida presente e futura. Ele adverte que “o poder leva consigo a tentação quase irresistível de empregá-lo, mas as consequências de seu uso podem ser perigosas, danosas e, quando menos, completamente imprevisíveis” (Jonas, 2013, p. 46). Nesse contexto, a ética deixa de ser mera abstração e passa a funcionar como um freio moral diante da tecnociência moderna, cujo “impulso dinâmico” (Jonas, 2006, p. 17) tende a escapar do controle humano.
A técnica, nesse contexto, deixa de ser apenas uma ferramenta subordinada ao homem e passa a funcionar como um processo autônomo, guiado por sua própria lógica interna e capaz de gerar consequências inesperadas, muitas delas desastrosas. Coyne e Hauskeller (2020, p. 166) destacam que “o poder só se torna um problema ético quando ameaça algo vulnerável”, o que, no caso da tecnociência, significa a própria vida. Assim, as reflexões de Jonas dialogam com os alertas científicos atuais sobre os limites planetários, que evidenciam as fronteiras naturais impostas pela Terra à expansão humana. De acordo com Richardson et al. (2023), seis dos nove limites ecológicos já foram ultrapassados, ampliando o risco de colapsos ambientais irreversíveis. Diante desse cenário, o pensamento jonasiano se mostra urgente: é preciso resgatar a prudência e a responsabilidade para impedir que o avanço técnico destrua o próprio ambiente de onde emergiu.
Mais recentemente, o relatório Planetary Health Check, do Potsdam Institute for Climate Impact Research (PIK, 2025), emitiu um alerta ainda mais grave: sete dos nove limites planetários já foram rompidos, entre eles a acidificação dos oceanos. Permanecem relativamente estáveis apenas o controle de aerossóis e a recuperação parcial da camada de ozônio. Esse quadro indica que a humanidade ultrapassou a capacidade de resiliência da Terra, ameaçando as condições mínimas de habitabilidade para grande parte das espécies, inclusive a humana. Como observa Hood (2023, s.p.), “a atividade humana e o apetite enfraqueceram a resiliência da Terra, empurrando-a muito além do ‘espaço operacional seguro’ que mantém o mundo habitável”. Esse diagnóstico revela que o planeta já dá sinais de esgotamento, exigindo mudanças imediatas nas práticas produtivas e no modelo civilizatório vigente.
Essas evidências contemporâneas apenas confirmam as preocupações expressas por Hans Jonas ainda em 1979, quando discutia os limites ecológicos do desenvolvimento humano. O filósofo advertia que sustentar uma população crescente exigia práticas agrícolas cada vez mais intensivas com fertilizantes, poluição química, erosão e desmatamento, consideradas por ele “castigos advindos de uma agricultura cada vez mais intensiva e expansiva” (Jonas, 2006, p. 302). Além disso, alertava para o esgotamento das matérias-primas, já que a extração excessiva levaria a explorações mais profundas e custosas (2006, p. 303), e criticava o uso contínuo de combustíveis fósseis e os riscos da energia nuclear (2016, p. 305). Antecipando o cenário atual, Jonas afirmou indignado que “a frívola e alegre festa humana de alguns séculos industriais seria paga talvez com a alteração por milênio da feição do planeta” (2006, p. 304).
Diante disso, Jonas propõe o que Oliveira (2023, p. 69) chamou de catastrofismo metodológico, por meio da “heurística do temor” (Jonas, 2006, p. 71). Para o autor, imaginar o pior cenário não deve paralisar, mas instigar a mudança. Para ele, é mais adequado projetar o mal possível do que confiar cegamente em promessas utópicas. Seu novo imperativo ético resume-se em: “agir de tal modo que os efeitos da ação tecnológica não comprometam a possibilidade futura da vida” (Jonas, 2006, p. 48). Isso implica impor “freios voluntários” (Jonas, 2016, p. 21) ao progresso técnico, cultivando prudência e responsabilidade. Jonas alerta que tais freios não significam negar a tecnologia, mas orientá-la. A palavra alemã Zügel (rédea), usada por ele, indica não só frear, mas guiar: não se trata de inação, mas de um fazer correto, direcionado pelas lentes da ética. Assim, é preciso, nesse sentido, limitar o avanço dos poderes da tecnologia “em benefício da manutenção das condições da vida humana e extra-humana neste planeta, no presente e no futuro.” (Souza et al., 2025)
A ética do limite, proposta por Jonas, portanto, não expressa uma rejeição da técnica, mas uma postura realista voltada à preservação de um futuro habitável. Como reforça Oliveira (2023, p. 168), “em nome da garantia do futuro da humanidade” é necessário que a responsabilidade se enraíze no presente. Superar a lógica expansiva e desenfreada do progresso técnico requer coragem para imaginar a catástrofe e, assim, evitá-la, impondo freios éticos ao poder humano. A continuidade da vida na Terra dependerá de nossa capacidade de controlar o impulso de domínio e de cultivar uma cultura de prudência, solidariedade e cuidado intergeracional. Afinal, o “desequilíbrio tem a ver com a extrapolação dos limites da natureza” (Souza et al., 2025, p. 49), e a própria vida, que “diz um sim constante para si mesma” (Jonas, 2006, p. 307), convoca a humanidade à tarefa de proteger o que ainda vive e o que ainda pode florescer. Por isso, a ética jonasiana do limite não é apenas uma reflexão filosófica, mas um imperativo de sobrevivência planetária.
Referências
COYNE, Lewis.; HAUSKELLER, Michael. Hans Jonas, transumanismo e o que significa viver uma “vida humana genuína”. In: OLIVEIRA, J.; LOPES, W. E. S. Transumanismo: O que é? Quem vamos ser?. Caxias do Sul: Editora da Universidade de Caxias do Sul, 2020.
HOOD, M. (2023, 17 de setembro). Humanity deep in the danger zone of planetary boundaries: Study. Phys.org. 2023. Acesso em Julho 26, 2025, de
JONAS, H. Más cerca del perverso fin y otros diálogos y ensayos. Trad. Illana Giner Comín. Madrid: Catarata, 2001.
JONAS, H. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Tradução de Marijane Lisboa e Luiz Barros Montez. Rio de Janeiro: Contraponto, 2006.
JONAS, H. Técnica, medicina e ética: sobre a prática do princípio responsabilidade. Tradução do Grupo de Trabalho Hans Jonas da ANPOF. São Paulo: Paulus, 2013.
OLIVEIRA, J. Moeda sem efígie: a crítica de Hans Jonas à ilusão do progresso. Curitiba: Kotter editorial, 2023.
PLANETARY BOUNDARIES SCIENCE (PBScience). Planetary Health Check 2025. Potsdam: Potsdam Institute for Climate Impact Research (PIK), 2025. Disponível em: https://www.planetaryhealthcheck.org/wp-content/uploads/PlanetaryHealthCheck2025.pdf
STEFFEN, Will et al. Earth beyond six of nine planetary boundaries. Science Advances, v. 9, n. 37, eadh2458, 2023. Disponível em: https://www.science.org/doi/10.1126/sciadv.adh2458. Acesso em: 10 jul. 2025.
RICHARDSON, Katherine et al. Earth beyond six of nine planetary boundaries. Science Advances, v. 9, n. 37, p. eadh2458, 2023. Disponível em: https://www.science.org/doi/10.1126/sciadv.adh2458. Acesso em: 10 jul. 2025.
SOUZA, Gregori de; OLIVEIRA, Jelson; BUGALSKI, Lucas; VASCONCELOS, Thiago. Frágil equilíbrio: justiça climática e responsabilidade ambiental. Caxias do Sul: EDUCS, 2025.
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