O Relógio do Juízo Final: ainda mais próximos de um perverso fim
Anderson Fernandes dos Santos
Doutorando em Filosofia na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR)
03/03/2026 • Coluna ANPOF
O ano é 2026. Diga-se de passagem que, mal começamos o ano e o ano começou mal para a comunidade científica mundial, que tem um novo e inquietante sinal de alerta: o Relógio do Juízo Final foi ajustado para 85 segundos antes da meia-noite (STARKEY, 2026), o mais próximo do fim simbólico em toda a sua história desde 1947.
Por mais que não seja um relógio físico, que conta o tempo real até um evento predestinado, a meia-noite do Relógio do Juízo Final representa o momento máximo de perigo civilizacional, ou seja, um ponto no qual as ameaças para a sobrevivência humana alcançarão um nível literalmente irreversível. Criado por um grupo de cientistas (OSTBERG, 2026), o Relógio do Juízo Final já teve seu ponteiro ajustado 26 vezes, movendo-se para mais perto ou mais longe da meia-noite conforme variam as avaliações de risco global. Por exemplo, nos primeiros anos da Guerra Fria, em 1953, o relógio foi ajustado para 2 minutos antes da meia-noite após testes de bombas de hidrogênio realizados por americanos e, então, soviéticos, um dos momentos mais tensos da história nuclear. O período em que o relógio foi colocado mais distante da meia-noite, foi em 1991, quando o fortalecimento de tratados de controle de armas e o anúncio do fim da Guerra Fria ocorreu, mas, a oscilação deste indicador ao longo das décadas passou a compor uma reflexão e uma avaliação ampliada de riscos que vão além da guerra nuclear.
Para indicar 85 segundos para meia-noite, os cientistas que definem o Relógio do Juízo Final apontam para vários domínios de perigo simultâneo (STARKEY, 2026): a tensão entre potências nucleares e o esgarçamento de acordos de controle armamentista, as mudanças climáticas aceleradas, a aplicação de tecnologias disruptivas sem regulação adequada com riscos de desinformação e até aplicações perigosas em biotecnologia e, também, ameaças biológicas modernas, incluindo potenciais usos maliciosos ou acidentais. Esses fatores, quando considerados em conjunto, aparecem como indicadores interligados de uma vulnerabilidade civilizacional ampla e, ao que se presta esse escrito, um pano de fundo para ressoar com reflexões filosóficas sobre responsabilidade e futuro.
É aqui que a filosofia de Hans Jonas (1903-1993) encontra relevância renovada. Em sua obra e em sua vida, Jonas defendeu uma ética da responsabilidade orientada para o futuro, apontando para a responsabilidade humana em face da tecnologia, que nos oferece um quadro conceitual para interpretar esse alerta contemporâneo. Numa de suas principais obras, O Princípio Responsabilidade (1979), Jonas denuncia que “Nenhuma ética anterior vira-se obrigada a considerar a condição global da vida humana e o futuro distante, inclusive a existência da espécie.” (JONAS, 2006, p. 41) Em vista da conquista ensandecida de mais poder e controle, a tecnologia “introduziu ações de uma tal ordem inédita de grandeza, com tais novos objetos e consequências que a moldura da ética antiga não consegue mais enquadrá-las”. (JONAS, 2006, p. 39)
No centro de sua reflexão está o imperativo de agir antes que seja tarde demais, um eco que reverbera de forma perturbadora no ajuste do relógio para 85 segundos. A vida, por sua precariedade e vulnerabilidade, impõe-se como valor que deve ser resguardado, pois,
não seria possível supor que a humanidade que ainda está por vir possa concordar com sua própria inexistência ou desumanização, [...] existe uma obrigação incondicional de existir, por parte da humanidade, que não pode ser confundida com a obrigação condicional de existir, por parte de cada indivíduo. Pode-se discutir a respeito do direito individual ao suicídio, mas não a respeito do direito de suicídio por parte da humanidade. (JONAS, 2006, p. 86)
O Relógio do Juízo Final, mesmo não se tratando de uma previsão cronológica, como apontado anteriormente, é, sim, uma metáfora extremamente carregada, expressando, na simbologia do tempo, a avaliação de especialistas sobre quão vulnerável a humanidade está frente às suas próprias ações e o posicionamento mais próximo da meia-noite até hoje não ilustra uma contagem literal, mas pronuncia, de maneira veemente, um alarme global sobre a possibilidade de autodestruição.
Da mesma maneira, o juízo final de Jonas também não é um evento iminente, mas, sim, a consequência de uma negligência ética sistemática diante do poder tecnológico crescente. Em 1992, Jonas concedeu uma entrevista intitulada “Más cerca del perverso fin” e nela, ele é explícito ao apontar que “perspectivas distantes claramente não levam à mudanças de comportamento” (JONAS, 2001, p. 36, tradução própria), ou seja, ao passo que permitimo-nos adiar o convite a enxergar o momento presente como um limiar ético, nos aproximamos ainda mais da capacidade de colocar a própria sobrevivência da espécie em xeque.
O deslocamento do Relógio do Juízo Final para um ponto mais próximo da meia-noite não é apenas mais uma notícia alarmante, mas um episódio reflexivo, ou seja, um espelho da condição humana técnica descrita por Jonas na ocasião: “Temos perturbado o equilíbrio em demasia [...]. A técnica e as ciências nos converteram de dominados pela natureza em seus soberanos, o que me leva a fazer um balanço filosófico e perguntar se a natureza moral do ser humano pode permitir isso.” (JONAS, 2001, p. 38, tradução própria)
Diante desse quadro, no qual instabilidades geopolíticas, colapsos ambientais e tecnologias desreguladas convergem para um mesmo horizonte de risco, os motivos que levaram ao adiantamento do Relógio do Juízo Final revelam, diante da perspectiva jonasiana, que não estamos apenas perante a possibilidade de falhas técnicas ou políticas, mas, sobretudo, de uma crise de responsabilidade coletiva.
Essa constatação simboliza não apenas a consciência do iminente perigo, mas, também, a chance de reconhecer que essa metáfora nos interpela a agir não como espectadores de um relógio que avança, “o assunto não pode ser silenciado, deve ser revisitado, constantemente reexaminado, e devemos sempre colaborar para fomentar uma consciência culpada em relação ao hedonismo monstruoso” (JONAS, 2001, p. 48, tradução própria), nos tornando, assim, responsáveis conscientes por cada segundo que se escoa na história humana.
Referências
JONAS, Hans. Más cerca del perverso fin y otros diálogos y ensayos. Madrid: Los Libros de La Catarata, 2001.
JONAS, Hans. O Princípio Responsabilidade: Ensaio de uma Ética para a Civilização Tecnológica. Tradução de Marijane Lisboa, Luiz Barreto e Renato Janine Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto, 2006.
OSTBERG, René. Doomsday Clock. Encyclopædia Britannica, 30 jan 2026. Disponível em: https://www.britannica.com/topic/Doomsday-clock/. Acesso em 01 fev. 2026.
STARKEY, Sarah. It is 85 seconds to midnight: 2026 Doomsday Clock Statement. Bulletin of the Atomic Scientists, 27 jan 2026. Disponível em: https://thebulletin.org/2026/01/press-release-it-is-85-seconds-to-midnight/. Acesso em 01 fev. 2026.
A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.