¡¿Pero qué dices?! Em defesa da língua espanhola nas seleções de pós-graduação em filosofia

Fernando Moreira-Zau

Professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFF

18/06/2025 • Coluna ANPOF

Recentemente o Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal Fluminense tomou a importante decisão de adotar o espanhol como uma alternativa de língua estrangeira para a prova de seleção de discentes para o mestrado e o doutorado. A partir do recém-lançado edital para composição das turmas de 2025, os candidatos podem optar pelo espanhol, ao lado do alemão, francês e inglês. Essa mudança marca uma importante revisão da posição histórica do programa, que já havia rejeitado a língua em ocasiões anteriores. Com isso, a UFF entra no seleto grupo de pós-graduações em filosofia que valida a língua espanhola em seus processos de admissão.

É lamentável que, apesar de ter amplo e histórico reconhecimento em várias áreas do conhecimento, o espanhol soe ainda à filosofia brasileira como uma língua menor ou desimportante. E isso em triste desprestígio à longa e fundamental contribuição filosófica de pensadores e pensadoras da Espanha, América Latina e Caribe.

Muito se diz que ele seria supostamente muito fácil. E como a reivindicação de sua adoção chega principalmente por via estudantil, não é raro que o tema seja tratado como uma espécie de “preguiça discente”. Trata-se o caso como se estudantes estivessem em busca de um caminho menos rigoroso e menos meritório para o acesso aos mestrados e doutorados da área. Daí se pretende concluir que adotar o espanhol seria o mesmo que baixar a régua, dar um jeitinho, adotar atalhos inapropriados... Em última análise, adotá-lo seria colocar em risco a qualidade do programa, um obstáculo no caminho da almejada excelência acadêmica.

Hoje, nesta coluna, não estou interessado em discutir se o espanhol seria distante “o suficiente” do português, se seria difícil “o bastante”. Essas abstrações não parecem levar muito longe. Neste momento, meu objetivo é enfrentar a conclusão que se extrai daí; a saber, de que adotar o espanhol rebaixaria a qualidade de um programa de pós-graduação em nossa área.

Sinceramente, desconheço qualquer embasamento sério dessa curiosa hipótese. Mas conheço, isto sim, importantes indícios em sentido contrário. Valorizar a língua espanhola parece não só não atrapalhar, mas até mesmo parece contribuir com o fortalecimento e qualificação dos programas que o adotam.

Entre 2019 e 2020 estive dedicado a pesquisar os editais de seleção para o ingresso aos mestrados e doutorados em filosofia. Com a pandemia de covid-19, tive que abandonar o trabalho em andamento, mas, por sorte, ele já havia avançado bastante em relação a alguns pontos. Àquela altura, tinham sido analisados os editais de seleção de 41 programas de pós-graduação em instituições públicas ou privadas por todo o Brasil.

Para a prova de proficiência em língua estrangeira, a maior parte dos programas oferecia as opções do inglês, francês, alemão e/ou italiano. Alguns poucos ofertam também grego e latim. Um único ofertava o árabe. Até aquele momento, apenas sete permitiam provas em espanhol: Cefet/RJ, PUC-Rio, UFABC, UFPR, UFRJ (PPGF), UFSC, Unioeste.

Todos os sete seguem ofertando-o entre suas línguas estrangeiras. Alguns deles o adotaram por volta de 2015/2016. Ou seja, estamos diante de experiências razoavelmente consolidadas. Conversei com alguns dos docentes da UFPR, UFRJ, UFSC e Unioeste. O balanço foi sempre muito parecido. Quando do surgimento da proposta de adoção do espanhol, houve alguma controvérsia. Temiam-se consequências negativas nos projetos de pesquisa, nos trabalhos e na nota do programa. Alguns acreditavam que a qualidade acadêmica da área poderia estar em risco diante da ampliação do horizonte linguístico. Porém, depois de aprovada sua inclusão, não houve consequências ruins ou arrependimentos. Antes muito polêmica, a língua passou a ser encarada com naturalidade, mesmo por aqueles que antes eram contrários.

Algumas das pessoas com quem conversei enxergam mesmo um impacto positivo da medida. Houve aparentemente maior retenção de bons projetos e o aumento na busca de estudantes estrangeiros provenientes da América do Sul. Ou seja, a ampliação da política linguística do programa, na avaliação desses professores, melhorou a qualidade geral das pesquisas e fortaleceu a internacionalização do programa.

Mas será que podemos confiar nessas opiniões? Acredito que sim. Aliás, essa leitura é fortalecida pelas avaliações da Capes. Dos sete programas em questão, cinco subiram de nota depois de implementar o espanhol. O Cefet/RJ passou de nota 3 para 4; a Unioeste de 4 para 5; a UFPR e a UFRJ (PPGF) de 5 para 6; e a UFSC chegou à nota 7, a pontuação máxima no atual sistema de avaliação. Os dois outros programas mantiveram suas notas: a UFABC com a nota 4 e a PUC-Rio com 5.

Aliás, a UFABC é a única que possui um sistema mais restritivo para o espanhol, pois exige dos candidatos e candidatas uma justificativa especial para permitir a prova na língua. Mas, considerando o sucesso na adoção irrestrita em outras universidades, talvez seja o caso de repensar essa limitação.

É claro que a subida de nota dos programas se deve a um conjunto complexo de fatores. Uma mudança na política linguística por si só não determina o resultado final. Porém, é importante notar que em nenhum dos casos apresentados se confirmou o receio de queda de qualidade. Pelo contrário, o que podemos ver são resultados muito bons, inclusive com programas atingindo as notas 6 e 7, consideradas pelas Capes como “excelência constatada em nível internacional”.

Até que se prove o contrário, esses resultados foram obtidos com o espanhol, e não apesar dele.

Em suma, talvez possamos avançar nacionalmente nesse ponto. Quando a questão da língua espanhola chega a nossos colegiados, não deveríamos discutir se ela rebaixaria o nível de nossos candidatos ou programas. Essa é uma falsa questão. Ao invés disso, proponho que o debate se dê, com profundidade, a respeito da relação do espanhol com outras questões fundamentais: Como ele pode transformar e democratizar nossos mecanismos de acesso? Como pode ajudar a desmontar dispositivos institucionais de exclusão? Como ele se relaciona com nossa realidade? De que forma ele complexifica nossos paradigmas de internacionalização? Quais compromissos epistêmicos assumimos com ele? A quem atendemos? Com quem e em que termos estamos dispostos a dialogar?

¿Y ahora qué?
 

Agradecimentos:

Não posso encerrar este texto sem agradecer à doutoranda e doutorandos Daniela Lima Barros, Rafael Lima Barros e Ottávio Rodrigues. Tive a alegria de poder dialogar com eles longamente sobre o tema e aprender com suas ideias e seus engajamentos.


A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.

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