Precisamos de uma filosofia brasileira?

Jerônimo Erig Weiller

Doutorando em Filosofia na UFRGS

22/07/2025 • Coluna ANPOF

Não pretendo questionar aqui se brasileiros devem fazer filosofia; trato isso como algo certo, assim como o valor da filosofia. O que gostaria de abordar é uma questão menos debatida que o valor de fazer filosofia e, portanto, talvez mais instigante: deveríamos buscar ter um movimento filosófico propriamente brasileiro?

Alguns exemplos talvez esclareçam o que tenho em mente. Todos conhecem o idealismo alemão; o pós-modernismo é um movimento fortemente associado à França; todos relacionam pragmatismo com os Estados Unidos; estudamos, nas aulas de história da filosofia, os empiristas britânicos. É claro, alguns filósofos podem pertencer a um desses movimentos sem ser desses países: Judith Butler é uma filósofa americana considerada uma feminista pós-moderna, e muitos filósofos hoje fora dos Estados Unidos, quando não se consideram pragmatistas, ao menos afirmam buscar levar adiante a tradição. Ainda assim, os movimentos têm suas origens nesses países e os seus maiores nomes advêm de lá. É desejável que exista um movimento filosófico como esses que todos associem naturalmente ao Brasil?

Que razões teríamos para buscar isso? Uma primeira que pode ser levantada é que seria uma questão de soberania nacional. Mostrar ao mundo que temos uma filosofia própria indicaria que somos uma nação soberana, que deve ser respeitada no cenário global, capaz de produzir trabalhos intelectuais próprios, sem se submeter às potências globais.

Embora esse seja um fim nobre, parece-me muito otimista acreditar que o desenvolvimento de um movimento filosófico próprio vá ter grandes impactos quando o assunto é soberania nacional. Certamente fatores econômicos, militares ou mesmo outros produtos culturais que caracterizem soft power seriam mais relevantes. Infelizmente, a maioria das pessoas não conhece mais do que alguns grandes nomes da filosofia ocidental dos gregos até o século XIX (normalmente começando com Sócrates, que elas confundem com Platão e Aristóteles, e terminando com Nietzsche, que elas pensam ser um ateu niilista).

Um fim um pouco mais factível, para o qual o surgimento de um movimento filosófico autóctone parece mais capaz de contribuir, é demonstrar a capacidade dos brasileiros para fazer filosofia de qualidade. Certamente, se aqueles grandes filósofos do primeiro mundo ficarem sabendo que há um movimento filosófico brasileiro, vão passar a olhar para nós com outros olhos, não?

Talvez. Isso pode contribuir para o destaque do Brasil no cenário acadêmico de filosofia internacional. Mas não pensemos que isso necessariamente seria algo bom. Todo movimento filosófico, mesmo quando não tem um conjunto de teses aceitas por todos os seus membros, tem ao menos tendências próprias: tendências quanto a aceitar ou rejeitar certas teses e definições, tendências quanto ao estilo de escrita, tendências quanto aos assuntos que são abordados etc. E diferentes filósofos avaliarão essas tendências de maneiras diferentes. Sem dúvida muitos filósofos analíticos não têm muita simpatia pelo pós-modernismo. Não me parece impossível que muitos, consequentemente, olhem com desconfiança para filósofos franceses, ainda que apenas inconscientemente.

Um movimento filosófico nacional contribuirá para o destaque do potencial dos filósofos brasileiros à medida que esse movimento for visto como um bom exemplo de filosofia. O que é “boa filosofia” é uma questão extremamente complexa e controvertida, mas suponhamos que exista boa filosofia e que a maioria dos filósofos consegue, de modo geral, distinguir um ótimo texto de filosofia de um péssimo.

Quero sugerir que tentar fomentar o desenvolvimento de um movimento filosófico nacional seria prejudicial à produção de boa filosofia no país. Todo movimento tem alguma tendência como as mencionadas acima, e, se um filósofo começar a escrever já pensando em defender uma tese, adotar um estilo ou usar um método só por ser típico do movimento nacional, sem questionar a sua adequação, aumentam as chances de ele fazer má filosofia. Nos aproximamos da verdade e de uma boa filosofia conforme nos permitimos questionar e não partir de dogmas.

Isso não impede, é claro, que movimentos nacionais surjam sem que filósofos tenham o objetivo de começá-los. Isso ocorreu várias vezes na história da filosofia e é de se esperar, já que filósofos próximos geograficamente tendem a trocar mais ideias entre si e sofrem influências semelhantes do meio social. Caso aconteça naturalmente no Brasil, melhor ainda! Pode ajudar a mostrar nosso potencial filosófico (alguns diriam que a filosofia da libertação é um movimento natural desse tipo no âmbito da América Latina). Mas nosso objetivo, e o objetivo de cada filósofo brasileiro, deve ser primariamente produzir boa filosofia, não um movimento particular.

Acho que podemos tomar a Austrália como um exemplo para nos espelharmos. Não há nenhum movimento filosófico comumente associado à Austrália famoso no nível do pragmatismo, do pós-modernismo, do idealismo alemão ou de outros do gênero. E, apesar disso, a Austrália é respeitada por ser um país de onde surgem muitos trabalhos filosóficos de alta qualidade, grande parte da tradição analítica, mas mesmo fora dela.

Pode ser argumentado que o fato de se tratar de um país de primeiro mundo de língua inglesa contribua para o seu prestígio, mas, ainda assim, é inegável que muita filosofia de qualidade é produzida por australianos, mesmo que não tenham um movimento famoso para chamar de seu. A variedade é tal que temos grandes nomes defendendo posições tão opostas quanto o materialismo (David Armstrong) e o dualismo (Frank Jackson, David Chalmers), ou a teoria do erro da moralidade (John Mackie), o utilitarismo (Peter Singer) e o tomismo (John Finnis).

Talvez uma variedade de ideias como essa conviesse ao Brasil, afeito à antropofagia e sempre misturando tradições e visões de mundo distintas.


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