Quem vê os indígenas que já estão transformando a universidade?

Caio Augusto Teixeira Souto

Docente do PPGF/UFAM.

Theo Fellows

docente do PPGF/UFAM

16/09/2026 • Coluna ANPOF

Muito se tem dito, com razão, sobre a baixa presença de indígenas nas universidades brasileiras e, em particular, nos cursos e programas de pós-graduação em Filosofia. O diagnóstico não deve ser relativizado. As barreiras de ingresso continuam numerosas; as políticas de permanência são insuficientes; currículos e processos seletivos permanecem muitas vezes pouco permeáveis a outras tradições de pensamento; e chegar à universidade não significa necessariamente encontrar nela condições para permanecer, pesquisar e escrever.

Mas talvez seja necessário acrescentar outra assimetria a essa discussão. Além das desigualdades de acesso à universidade, existem desigualdades regionais na circulação das informações sobre aquilo que as próprias universidades brasileiras já vêm fazendo. Num sistema acadêmico fortemente concentrado no Sul-Sudeste, certas experiências realizadas na Amazônia continuam sendo tratadas como periféricas mesmo quando talvez estejam antecipando transformações que interessam ao conjunto da universidade brasileira.

A questão não é substituir a narrativa da exclusão por uma narrativa triunfalista da inclusão. É perceber que, entre uma e outra, certos itinerários acadêmicos indígenas já não cabem inteiramente em nenhuma das duas.

Um exemplo pode ser encontrado no recém-criado Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Amazonas. O mestrado acadêmico do PPGF/UFAM foi autorizado em 2025. Portanto, trata-se literalmente de um programa em seus primeiros anos de existência. Ainda assim, ele já conta com indígenas entre seus discentes e possui em seu corpo docente permanente João Paulo Lima Barreto, do povo Yepamahsã (Tukano), licenciado em filosofia pela própria UFAM. Uma de suas duas linhas de pesquisa chama-se, significativamente, “Pensamento Filosófico na Amazônia”.

Ao longo de sua curta história, o PPGF/UFAM tem fomentado investigações acerca das epistemologias, ontologias e demais formas de saber desenvolvidas ao longo de séculos entre os povos originários da região. Sem abandonar por completo a tradição ocidental que moldou a prática filosófica no país, busca-se uma inclusão de novas vozes no debate acadêmico. Entende-se que a inclusão dos sujeitos indígenas é insuficiente se não for acompanhada pela inclusão de seus saberes.

Mais recentemente, o PPGF/UFAM deu outro passo. Em parceria com os programas de Pós-Graduação em Sociologia e em Sociedade e Cultura na Amazônia, integrou um edital conjunto com 25 vagas para pós-graduação, sendo 5 vagas de mestrado em Filosofia destinadas exclusivamente a indígenas, com uma particularidade decisiva: as aulas presenciais do curso serão realizadas no município de São Gabriel da Cachoeira, no Alto Rio Negro, município com mais de 90% da população indígena, de 24 etnias diferentes.

O que muda quando não são os indígenas que precisam se deslocar centenas ou milhares de quilômetros para chegar à pós-graduação, mas é a pós-graduação que se desloca?

São Gabriel da Cachoeira fica a mais de 800 quilômetros de Manaus. Para estudantes das comunidades e municípios da região, estudar na capital não significa simplesmente ir até o campus. Pode significar afastar-se durante anos de redes familiares, políticas, linguísticas e territoriais das quais sua própria pesquisa faz parte. A interiorização, nesse caso, não é apenas uma política de expansão geográfica da universidade. Ela altera o próprio itinerário que imaginamos quando falamos em formação acadêmica.

A seleção em andamento ajuda a dimensionar a demanda. O processo conjunto recebeu 87 candidaturas indígenas para as 25 vagas oferecidas pelos três programas, dando prova de uma enorme demanda reprimida na região. As atividades ocorrerão presencialmente e em caráter modular em São Gabriel da Cachoeira e têm antecedente em experiência de décadas de interiorização das licenciaturas no estado do Amazonas, e mais recentemente em experiências correlatas também na pós-graduação.

No Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia (PPGSCA/UFAM), uma turma iniciada em São Gabriel da Cachoeira reuniu trinta mestrandos indígenas de 10 povos diferentes. Entre os integrantes dessa experiência estavam também três educadores Yanomami cujas defesas ocorreram com a participação de Davi Kopenawa na banca avaliadora. Em outras palavras, aquilo que há poucos anos poderia ser descrito apenas como “acesso de indígenas à pós-graduação” começou a produzir outra coisa: dissertações indígenas, bancas atravessadas por autoridades intelectuais indígenas, novas metodologias de pesquisa e, agora, continuidade no doutorado e na docência.

Esses saberes, por muitos anos restritos a condição de objetos etnográficos, começam a se fazer presentes em todas as áreas, incluindo, naturalmente, a filosofia. A presença indígena na universidade deixa de ser um recurso de aperfeiçoamento da imagem antropológica de seus povos: suas técnicas, conceitos e práticas devem conviver ao lado dos saberes construídos por nossa tradição eurocêntrica.

Durante muito tempo, essa presença indígena na universidade foi pensada sobretudo a partir da categoria do acesso. Quantos ingressam? Quantos conseguem uma bolsa? Quantos permanecem? São questões fundamentais e continuarão sendo. Mas os itinerários que começam a se formar permitem acrescentar outras perguntas. Quem escreve? Quem orienta? Quem participa das bancas? Quem decide quais problemas merecem ser pesquisados? Em que língua se escreve? A quem se destina uma dissertação? O conhecimento produzido deve retornar de alguma maneira às comunidades envolvidas em sua produção?

Essas perguntas deslocam o problema do acesso para aquilo que poderíamos chamar de autorialidade indígena.

Autorialidade significa um regime de posições historicamente reservadas aos indígenas dentro dos dispositivos acadêmicos. De informantes e objetos de pesquisa, passam a pesquisadores; de personagens descritos por outros, passam a autores e coautores; de estudantes, passam a mestres, doutores e docentes; de pessoas sobre as quais se formulam políticas universitárias, passam a participar da formulação das instituições em que estudam e trabalham.

Esse movimento não ocorre apenas no Amazonas, nem seria razoável reivindicar para uma universidade qualquer espécie de pioneirismo exclusivo. Experiências na UFC, na UECE e na Universidade Federal do Cariri, por exemplo, foram recentemente lembradas nesta própria Coluna por Swení-Haóótí ao discutir a descolonização indígena da Filosofia. Há movimentos semelhantes em diferentes áreas e regiões do país. O problema é justamente compreender como essas experiências podem passar a se enxergar mutuamente. No afã de denunciarmos as barreiras que afastam os indígenas das universidades brasileiras, muitas vezes perdemos de vista as possibilidades de, unindo esforços, facilitar a superação dessas dificuldades.

Porque talvez exista aqui um problema tipicamente acadêmico: conhecemos melhor aquilo que circula pelos centros já consolidados de produção e divulgação do conhecimento. Uma experiência realizada em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília ou em alguma universidade estrangeira pode rapidamente tornar-se referência nacional; iniciativas construídas durante anos em São Gabriel da Cachoeira, Tabatinga ou outras cidades amazônicas permanecem conhecidas apenas regionalmente.

Muito se tem debatido, nos últimos anos, sobre a possibilidade de se pensar uma filosofia brasileira. Contudo, mais do que eleger temáticas e mapear os caminhos histórico da filosofia produzida em nosso país, é fundamental nos indagarmos sobre a participação de cada região na produção desse discurso. Qual é o peso da Amazônia nessa construção? Sem querermos resolver esta questão, propõe-se, no trabalho atualmente desenvolvido pelo PPGF/UFAM, a formação de um espaço autônomo de debate filosófico na Amazônia, no qual conceitos e problemas sejam formulados pelos diversos atores que se fazem presentes nessa região, incluindo aqueles historicamente invisibilizados.

Essa assimetria de visibilidade também produz teoria. Se enxergamos apenas a ausência, formulamos corretamente políticas para abrir portas. Mas, se começamos a acompanhar os itinerários daqueles que já atravessaram essas portas, aparecem outros problemas: permanência, autoria, coautoria, tradução, orientação, circulação, retorno aos territórios, metodologias de pesquisa indígena em filosofia, reconhecimento de diferentes autoridades intelectuais e, finalmente, participação indígena na própria definição do que uma universidade pode ser.

Por isso é importante continuar perguntando por que há tão poucos indígenas na Filosofia. Mas talvez já seja igualmente importante perguntar onde eles estão, o que estão escrevendo, que instituições estão construindo e por que algumas dessas experiências continuam invisibilizadas para boa parte da comunidade filosófica brasileira.


A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.