Radar Filosófico - Gaslighting como violência gramatical
Fábio Praxedes
Mestrando em Filosofia na UFPE
Marcos Silva
Professor Adjunto do Departamento de Filosofia da UFPE
04/07/2025 • Coluna ANPOF
O fenômeno do gaslighting pode ser caracterizado enquanto um tipo de manipulação peculiar na qual a vítima é induzida a duvidar de suas próprias percepções e experiências ao ponto de desesperar-se ao questionar sua própria sanidade. Mas como é possível que dúvidas possam levar alguém a perder a confiança em algo tão fundamental? Que tipos de dúvidas seriam essas? Por que tal ataque a certezas fundamentais pode ser tão danoso psicologicamente para a vítima? Como é possível resistir a um ataque desse tipo?
Diante de tais questionamentos, Trächtler em From doubt to despair: a wittgensteinian perspective on gaslighting (2022) caracteriza o gaslighting enquanto um tipo de injustiça epistêmica, ou seja, consistindo em um tipo de dano causado a alguém especificamente em sua capacidade enquanto conhecedor (cf. Fricker, Epistemic injustice: power and ethics of knowing, 2007). Além disso, a autora também apresenta uma série de reflexões epistemológicas baseadas no Sobre a Certeza (1969), obra póstuma de Wittgenstein, onde fornece uma caracterização detalhada acerca da natureza de nossas práticas de duvidar.
No presente artigo, em continuidade com a abordagem wittgensteiniana apresentada por Trächtler, entendemos que para que possamos suscitar qualquer dúvida, é preciso que algo permaneça inquestionável. Por exemplo, no nosso cotidiano, caso surjam dúvidas do tipo “Será que tranquei a porta de casa ao sair?”, ou “Será que acertei o resultado dessa equação?” sabemos como podem ser sanadas tais dúvidas, quais procedimentos realizar, e o que vale como uma resposta suficiente para esses questionamentos; a confiança em nossos sentidos, em nossa memória, nossa sanidade, permanece isenta de dúvida na hora da checagem de tais dúvidas.
Continuamente, estamos de acordo sobre a compreensão de que o tipo de dúvida caracteristicamente presente em casos de gaslighting viola nosso jogo de linguagem cotidiano de duvidar. Pois, nesses casos, o que está sendo colocado em dúvida é precisamente aquilo que permanece indubitável em nossas práticas cotidianas. Não é por acaso que diversos relatos de vítimas de gaslighting descrevem tal experiência como sentir que estão "enlouquecendo”, “perdendo a cabeça”, ou que “sua vida não faz sentido”.
Todavia, argumentamos que apesar de apresentar relevantes consequências epistêmicas, o gaslighting deva ser entendido enquanto uma forma de violência que incide sobre a capacidade de fazer sentido da vítima, nos critérios que estruturam sua capacidade de avaliação de experiências, isto é, em sua gramática. Ao endossarmos a proposta wittgensteiniana de uma distinção categorial entre certeza e conhecimento, entendemos que nossas práticas epistêmicas de justificação repousam sobre um sistema de regras e crenças articuladas e compartilhadas que constituem e determinam o sentido de nosso vocabulário epistêmico. Como consequência desta visão, temos que nossas certezas condicionam nossas práticas relacionadas ao jogo da dúvida.
Assim, a partir da proposta de conceituação do gaslighting enquanto um tipo de violência gramatical, somos capazes de explicar o tipo de dano epistêmico decorrente dessa prática em função de um ataque a algo ainda mais profundo: à lógica do uso dos nossos conceitos, às certezas mais básicas de uma pessoa, as quais estrutura sua capacidade de veicular significado em suas práticas e sentido para sua vida.
Diante desse quadro, torna-se premente reconhecer que uma resistência eficaz ao gaslighting exige uma abordagem que vá além da esfera individual, voltando-se prioritamente para elementos estruturais, públicos e comunitários. Em consonância com inúmeros relatos de pessoas que sofreram gaslighting, o papel das redes de apoio se revela fundamental: a vítima se torna capaz de se manter firme em suas crenças através da reabilitação dos critérios que conferem significado às suas práticas mais cotidianas. Em outras palavras: ao encontrar validação mútua entre pares que compartilham experiências semelhantes, a vítima recupera a autoridade gramatical sobre si mesma, reabilita e reforça o sentido de suas práticas no mundo. Assim, a resistência normativa e autodefesa gramatical se dão também no nível do reconhecimento público e coletivo dos modos de vida marginalizados, reabilitando os critérios normativos que estruturam nossa gramática cotidiana.