Radar Filosófico - Desacordos mais-que-profundos: e se o animot discordasse?

Cello Latini Pfeil

Doutorando em Filosofia (PPGF/UFRJ)

21/10/2025 • Coluna ANPOF

E se o monstro discordasse? É esse o questionamento que me acompanha desde que comecei a estudar sobre desacordos profundos, há cerca de nove meses. Esse conceito, inaugurado por Robert Fogelin em 1985 com inspiração na obra Da Certeza de Wittgenstein, sugere que certos desacordos não podem ser resolvidos por vias racionais, pois desacordos profundos, ao contrário de desacordos ordinários, adviriam de colisões entre formas de vida, envolveriam certezas fulcrais, que Wittgenstein metaforiza como se fossem as dobradiças de uma porta: sem dobradiças firmes, uma porta não consegue se movimentar, e o mesmo se aplica a nossas concepções de mundo.

Desde que ingressei nesse campo de estudos, algumas questões me incomodaram: uma forte concentração em um ideal de racionalidade, que parece ser compartilhado pelos autores, apesar de suas discordâncias teóricas; uma forte tendência a distinguir elementos epistêmicos de elementos tidos como não-epistêmicos. Há outras diferenciações em torno do conceito de desacordo: podem existir desacordos entre pares, desacordos passionais, desacordos irresolúveis, desacordos profundamente profundos, desacordos mais profundos que outros etc. Mas, subjacente às suas definições, encontramos um arquétipo de racionalidade, um modelo de humanidade, um desejo de categorização e depuração conceitual e a afirmação de que um desacordo existe somente se as partes em disputa reconhecerem sua existência. Ou seja, ambas as partes teriam de possuir linguagem para que houvesse, em curso, um desacordo propriamente dito.

Desde então, me aproximei da filosofia da desconstrução de Derrida, especialmente de seu texto O animal que logo sou, em que Derrida questiona a nomeação do animal enquanto tal: por um lado, o humano que nomeia o animal encerra sua existência a um nome que este animal não compreende; por outro lado, o animal, tido como um ser desprovido de linguagem, é incapaz de responder à nomeação que lhe é atribuída. Por exemplo, estando nu, o humano – nesse caso, Derrida – se percebe observado por um animal, e o animal, embora também esteja desprovido de vestimentas, não está de fato nu. A concepção de vestimenta é cabível apenas aos humanos. O animal, que é, portanto, jamais-nu, é, no entanto, designado enquanto animal e enquanto nu, ainda que não possua os meios – linguagem – para compreender – racionalmente – o que está em questão. Não poderia haver relação de desacordo entre humanos e animais, pois uma das partes – previsivelmente, o animal – seria incapaz de reconhecer um desacordo enquanto tal; seria incapaz de compreender a nudez que lhe é atribuída. Para dar conta desse entrave, Derrida sugere que nos refiramos aos animais sempre entre aspas, “animal”, ou que empreguemos outra palavra, animot, estando cientes de que jamais seremos capazes de, com nosso vocabulário humano, apreender a existência do “animal”.

Ao contrário do “animal”, a princípio desprovido de linguagem, os monstros se encontram em outro lugar, nas bordas, sejam estas da linguagem, sejam de determinada territorialidade. As monstruosidades, como pensa Luiz Nazário em A Natureza dos Monstros, não são desprovidas de linguagem, pois manejam a linguagem dos humanos e representam, para ela, uma ameaça. Estando na linguagem, um monstro é capaz de responder, assim como de discordar. Mas, então, o que ocorre quando um monstro fala? Testemunhamos esse acontecimento no discurso de Paul B. Preciado, Eu sou o monstro que vos fala, assim como no poema de Susy Shock, Eu, Monstro Meu. Ao enunciar suas monstruosidades, ainda que dentro do registro de linguagem dos humanos, os seres designados enquanto monstros deslocam o horizonte de possibilidades da linguagem humana. A racionalidade deixa de ser prerrogativa para a resolução de um desacordo, seja este profundo ou ordinário. Pois reconhece-se que há um desacordo mais-que-profundo em curso: entre, de um lado, formas de vida modernas/coloniais, que possuem como solo comum uma noção de racionalidade, um arquétipo de humanidade; e, de outro lado, formas-de-vida hifenizadas, cujos hífens borram as fronteiras entre natureza e cultura, entre humanidade e monstruosidade, constituindo, portanto, uma ameaça à tradição filosófica ocidental, a qual, segundo Rafael Haddock-Lobo, se engaja em um desejo por logos, por secura e rigidez conceitual. Em seu livro Por um pensamento úmido, Haddock-Lobo nos presenteia com a noção de umidade do úmido, uma umidade que a tradição filosófica ocidental recusa veementemente; uma umidade recusada por não poder ser precisamente medida, nem avaliada com exatidão: não há antônimo exato de umidade, então toda comparação entre úmidos é variável.

A partir dessa discussão, indago, em meu artigo “Desacordos mais-que-profundos: e se o animot discordasse?”, se as discordâncias entre humanos e monstros, entre humanidade e monstruosidades, constituindo conflitos entre formas de vida e formas-de-vida, poderiam ser consideradas desacordos mais-que-profundos – mais-que-profundos não por serem mais profundos do que outros desacordos, e sim porque é por sua umidade, e não por sua profundidade, que podemos traçar os caminhos e sentir, umidamente, a intensidade da discordância. Talvez, assim, possamos, remetendo a Robert Fogelin, pensar em uma (i)lógica dos desacordos mais-que-profundos.

Artigo publicado na Revista Ensaios Filosóficos, n. 31 (2025) Acesse aqui

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