Richard Rorty x Jürgen Habermas - Quem Ganha?

José Crisóstomo de Souza

Professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFBA

09/07/2025 • Coluna ANPOF

(Ainda uma excelente entrada, crítica e produtiva, à filosofia dos nossos dias).

Você ganha. Aceitei o desafio, verdadeira provocação, de uma gentil colega, de condensar em uma página o conteúdo essencial desse debate, cujo material, anos atrás, selecionei, organizei, traduzi e introduzi. Uma condensação extrema (agora um pouquinho acrescida), para quem tenha algum preparo técnico no campo da filosofia, aqui vista em movimento, contradição – e escolha. Fica como um pequeno presente, para completar o serviço, que eu ainda devia aos milhares de leitores que o livro alcançou, e a outros tantos mais que ainda segue alcançando.[1]

O interesse do livro está justamente em se oferecer como uma via de entrada no terreno da filosofia dos nossos dias. No espírito, não de simples leitura interna, mas de reconhecimento vivo de seus temas e escolhas, de sua discussão e questões, para uma apropriação crítica e um domínio de seu vocabulário. Isso segundo o lema de que “quem conhece apenas um pensamento (bom ou ruim), não conhece na verdade pensamento algum.” Depois desse livro, muita gente no Brasil finalmente escreveu sobre o assunto, o saudoso amigo Jean-Pierre Cometti queria publicar o livro na França, e o querido, já ido, Dick Bernstein, da New School, mesmo sem muito português, quis insistentemente ter um exemplar. Aproveito a ocasião para lembrá-los, e ao próprio, inestimável, Dick Rorty.

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Como mostro em Filosofia Racionalidade, Democracia, os debates entre Rorty e Habermas são travados entre dois filósofos de duas tradições dominantes distintas, um provindo de Marx e do Idealismo Alemão, outro da Filosofia Analítica, entretanto também influenciado por Marx (e Trotsky), se consideradas sua juventude e ambiente familiar.

Embora muitas vezes ainda tomados como antípodas, um sério e racionalista, Habermas, outro pós-moderno e relativista, Rorty, ambos reivindicam igualmente a democracia, o pragmatismo (de um mais peirciano, de outro mais deweyano) e, ao seu modo, a virada linguística da filosofia, em sua versão analítica e pós-analítica, mas também heideggeriana e pós-estruturalista. Coincidem, ainda, numa noção de verdade como justificação à audiência/comunidade concernida. Envolvida aí alguma idealização desta, universalista em Habermas mas não em Rorty, com uma vírgula “realista-pragmatista”, adicional, colocada depois pelo primeiro.

Significativo – e frequentemente desconsiderado – é que Jürgen Habermas, nesses debates, não só se assuma como filósofo pragmatista kantiano, e considere que integra uma família pragmatista que inclui outros do mesmo tipo, de procedência bem diferente, como Hilary Putnam. Mas também digno de registro é que ele, nesses debates, finalmente critique Richard Rorty (que prefere Hegel a Kant) como menos pragmatista do que ele, por não recuperar intuições realistas do mundo da vida, exigidas pela prática, o que chamei acima de sua vírgula realista-pragmatista.

No fim de contas, o pragmatismo de Habermas preocupa-se em incluir ainda incondicionalidade e universalidade, para suas pretensões de validade/verdade, por receios de alemão, entenda-se a experiência do nazismo, e essa é sua idealização kantiana. Enquanto o pragmatismo de Rorty, alegadamente com ânimo democrático americano democrático, até faz pouco mais confiante, prefere abrir mão daquelas pretensões, para colher benefícios do lado de uma maior efetividade prática, mas também do lado da abertura à novidade e à criação.

Essa é uma tinta romântica e nietzschiana que Rorty se permite, acreditando que verdade como justificação (para uma boa comunidade empírica, boa mas nada universal) já é o suficiente e o melhor e o possível, para exorcizar recaídas em violência no campo dos negócios humanos, em especial no da política, como no caso do nazismo, o que, vimos, Habermas mais teme.

Bem entendidos, os pragmatismos de ambos, Habermas e Rorty, têm pretensões a algo como 'transcendência de contexto', porém não do mesmo tipo: a do primeiro kantiana, digamos que racionalmente determinada, a do segundo romântica, aberta à imaginação. Embora seja verdade que ambos se declaram anti-logocentristas, Rorty mais completamente. Ou seja, ambos atribuiriam prioridade à prática, frente à teoria, embora, como entendo, estariam melhor se fizessem isso menos ‘linguocentricamente’. Isto é, não o fizessem entendendo prática como essencialmente prática linguística, como na mania de praticamente toda a enclausurada filosofia metropolitana de nosso tempo, seja “continental”, seja “anglo-saxônica”.

Podemos acrescentar que ambos são filósofos não-correspondentistas, não-representacionistas, não-mentalistas, adversários da ‘razão centrada no sujeito’ e do ‘paradigma da filosofia da consciência’, e que, por tudo isso, concebem uma mudança considerável no papel tradicional da filosofia (para Rorty, quase seu fim). Para Habermas, de ‘juíza transcendental’ da cultura, a filosofia passa agora a partícipe interna a esta, como mediadora entre saberes especializados, e entre esses e o mundo da vida, embora mantendo-se ainda como guardiã da racionalidade.

Para Rorty, a filosofia assume-se agora como intervenção transformadora (sem papel privilegiado) na cultura, discursiva, no sentido prioritário da solidariedade (para ele um nome melhor para racionalidade), não, ‘autoritariamente’, no da verdade ou da objetividade – esta última tomada por Rorty como uma espécie de reminiscência de reificação ou alienação, até religião.

Embora Habermas, quando distingue sua posição da de seu parceiro histórico, Karl-Otto Apel (que tem pretensão a uma ‘fundamentação transcendental última’ para sua ética do discurso), pareça fazê-lo por concessões práticas, contextualistas, empiristas e destranscendentalizantes, à la  Rorty, ele decididamente não está disposto a acompanhar este último até o fim, numa empresa historicista, nominalista e naturalista. Já Rorty, com pretensões de minar o ‘platonismo’ da filosofia e da cultura, alega que o que faz é apenas acompanhar o próprio Habermas até o fim na via que este inaugurou, de ‘socialização da razão’ como simples disposição para o entendimento mútuo.

O fato é que Rorty, com sua própria virada intersubjetiva, justificacionista, na noção de racionalidade, quer abrir mais espaço do que Habermas concede, para seu “antiplatonismo”. Não só para um completo naturalismo não reducionista, destranscendentalizante, e para um contextualismo historicista. Também para uma radical contingência, do laço social e da própria individualidade, e, assim, para uma ‘poética’ invenção pública e uma livre autocriação privada. E isso Rorty faria sem abrir mão, no lado prático, da solidariedade, mas, ao contrário, colocando-a acima e no lugar da própria objetividade. Quer dizer, pondo justificação inteiramente no lugar de verdade, e pondo solidariedade inteiramente no lugar de objetividade e universalidade.

Por fim, Habermas e Rorty, maduros, se apresentam ambos como herdeiros dos ideais (a parte ‘prática”, referida a propósitos e valores) do Esclarecimento, são ambos filósofos ‘pós-metafísicos’, críticos do sujeito metafísico, moderno, adversários da ideia de razão como centrada nesse sujeito, e críticos moderados da própria Modernidade, cujos ideais originais eles querem tornar mais inclusivos e ver mais completamente realizados. Melhorar o Esclarecimento, torná-lo menos arrogante, seguro de si, torná-lo um Esclarecimento esclarecido.

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É isso que os debates mostram ao leitor, exposto de modo muito mais desdobrado pelos próprios dois autores, no livro: suas teses, suas estratégias argumentativas, suas engenhosas opções conceituais, as consequências que lhes interessa assegurar, suas lacunas mais ou menos ocultadas. A partir daí, alhures, aponto para uma melhor conclusão, nossa, para além de Habermas e de Rorty: um ponto de vista prático-social, criativo, entretanto material, artefatual. Mas isso é outra história.

O/a leitor/a profissional que tire suas próprias conclusões ou, por que não, arrisque alguma coisa própria, em espírito de independência e contraponto, de modo autoral. Pois é possível, sim, ir muito além da repetição ou adoção passiva – ingênua, acrítica, integrista, sem escolha e sem apropriação – do que dizem colegas, ocidentais e anti-ocidentais, de países metropolitanos.

Conhecer um autor também por seus críticos e concorrentes, e pelo estado das suas questões, é sempre a melhor ideia. Isso é que é pensamento, isso é que é filosofia, e isso é que é leitura filosófica de filósofas/os ou anti-filósofos/as, quaisquer que sejam elas ou eles.[2]


Notas

[1] Souza, J.C. de (org.), Filosofia, Racionalidade, Democracia: Os Debates Rorty & Habermas. São Paulo: Ed. Unesp, 2005. Devo a pronta publicação deste livro, pela valorosa Edunesp, ao discernimento, ágil e desburocratizado, de Jézio Gutierre. Infelizmente, seu projeto de realizar o lançamento em aniversário da Unesp, com a presença desses dois seminais filósofos, não se pôde realizar.

[2] Ambos, aliás, mais Rorty, menos Habermas, acompanharam o projeto do livro. E O Avesso de Marx, que acabo de publicar (2024), tem muito da mesma abordagem.


A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.

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