Silêncio e vozes: o ensino de Filosofia como espaço de inclusão e escuta na educação de surdos
Jeferson de Moraes Reis
Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)
22/08/2025 • Coluna ANPOF
Historicamente falando, a sala de aula de Filosofia é o espaço privilegiado no qual o diálogo deveria florescer, no entanto, muitos estudantes surdos ainda enfrentam o silêncio como principal obstáculo – não por falta de voz, mas por ausência de escuta. Tal constatação, surgida na prática docente, revela uma das contradições mais evidentes da educação contemporânea: a promessa de inclusão nem sempre se concretiza em experiências pedagógicas que reconheçam a diferença como valor, e não como deficiência. Como ensinar Filosofia para aqueles que não ouvem com os ouvidos, mas com os olhos, os gestos, os sinais? Como tornar acessível uma disciplina cujo cerne está no diálogo, no logos, na argumentação? A reflexão sobre tais questões, distante de ser apenas pedagógica, nos leva ao cerne da própria Filosofia: o modo como nos relacionamos com a linguagem, com a episteme e com o outro.
Na célebre Alegoria da Caverna que Platão nos apresenta no Livro VII d’A República encontramos uma rica metáfora da educação como forma de libertação da ignorância e de elevação da alma em direção à verdade. Ali os prisioneiros, desde o nascimento, vivem acorrentados, obrigados a olhar para sombras que se projetam na parede imediatamente a sua frente, acreditando que elas são a realidade.
Platão escreve que “[...] a educação não é o que alguns indivíduos proclamam ser ela, a saber, inserir conhecimento na alma que dele carece, como inserir visão em olhos cegos. [...] [ademais] o poder do aprendizado está presente na alma de todos” (A Rep., VII, 518c, grifo do tradutor, acréscimo nosso). Dessa forma, educar, na visão platônica, não consiste em simples transmissão de conhecimento, mas mover a alma, converter o olhar, transformar o modo de ver e compreender o mundo. Ora, o que está em jogo aqui é mais do que audição ou fala: é a capacidade de ver, compreender e dialogar. E isso é possível mesmo sem ouvir sons, pois o logos não se reduz à oralidade.
Se tomarmos a Filosofia como esse movimento de saída da caverna, podemos compreender que o estudante surdo também participa desse processo de elevação da alma – basta apenas que lhe sejam garantidos os meios adequados para isso. A Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS, nesse sentido, pode ser compreendida como um outro logos, uma forma legítima de mediar a ascensão do pensamento filosófico. A surdez, muitas vezes, é tida apenas do ponto de vista da falta: quem não ouve, quem não fala “como os outros”, mas essa é uma visão demasiadamente reducionista. A comunidade surda tem uma cultura própria, uma língua legítima – a Libras – e modos próprios de pensar e de expressar, Se Platão nos convida à superação das aparências e das sombras, talvez seja hora de superarmos também os preconceitos sobre quem pode ou não filosofar.
Na caverna platônica, o verdadeiro obstáculo não está simplesmente nos sentidos, mas na ignorância alimentada por um mundo que limita o olhar. Tal qual os prisioneiros que se habituaram às sombras, nós, na maioria das vezes, nos habituamos à ideia de que só quem fala e ouve pode participar do diálogo filosófico. No entanto, a escuta, em sentido filosófico, é mais que um ato sensorial: é uma atitude de abertura ao outro, de atenção e de reconhecimento.
Em minha experiência como professor de Filosofia no Ensino Médio – mesmo sendo de apenas quatro anos - tive a oportunidade de trabalhar com estudantes surdos e fui totalmente surpreendido. Primeiro, porque me senti impotente, sem saber exatamente como lidar com a situação. Diante da presença de alunos que se comunicavam por uma língua que eu só tive breve contato na graduação, experimentei a sensação desconfortável de não saber como “chegar até eles”, já que me faltavam estratégias, repertório, recursos.
Aos poucos a realidade da sala de aula foi me ensinando. A parceria com os intérpretes de Libras, somada à autonomia e à inteligência crítica dos próprios estudantes surdos, me fez superar esse primeiro obstáculo. Eles me mostraram que, muitas vezes, não é preciso saber tudo, basta apenas estar disposto a escutar de verdade. E escutar, nesse contexto, significa estar presente, observar com atenção, respeitar os tempos de tradução e reconhecer outras formas de expressão filosófica.
Foi nesse processo que compreendi, na prática, que a escuta filosófica não depende única e exclusivamente da audição, mas sim de uma postura sensível diante do outro, pois um gesto, um olhar, uma pausa: tudo isso pode ser escuta. E, paradoxalmente, foram os próprios estudantes que não ouvem com os ouvidos que mais me ensinaram o que é verdadeiramente escutar.
Se tomarmos a Filosofia como uma prática de conversão da alma – tal qual Platão, e não apenas como simples exercício discursivo, fica evidente que a inclusão de estudantes surdos no ensino filosófico não apenas é possível, mas é necessária e enriquecedora. O estudante surdo não é um corpo estranho à Filosofia, mas alguém que pode contribuir para repensarmos os modos como nos relacionamos com o saber e com a linguagem.
Filosofar é, antes de tudo, sair da caverna – e isso exige coragem. A presença de estudantes surdos nas salas de aula nos desafia a sair de nossas próprias cavernas metodológicas, a questionar o que entendemos por diálogo, por linguagem, por escuta. Se seguirmos como Platão, entenderemos que a linguagem é ponte, e não muro. Que a escuta é atitude, e não apenas audição. Que ensinar Filosofia é, no fim das contas, ajudar cada sujeito a ver com os próprios olhos – ou, no caso, a pensar com as próprias mãos. Que nossas escolas, nossas salas de aula e nossas práticas possam, cada vez mais, ser espaços em que o silêncio não seja exclusão, mas presença. E que a Filosofia, fiel à vocação libertadora, continue iluminando os caminhos da inclusão.
A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.