Sobre a vida breve de uma disciplina de filosofias da existência
Daniel Arruda Nascimento
Professor da Universidade Federal Fluminense e do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Espírito Santo
13/10/2026 • Coluna ANPOF
Escrevo agora para dividir uma experiência incompleta. Bem ao estilo da vida humana, que é ao mesmo tempo abundância e insuficiência. Ou segundo o trabalho próprio de um professor, que a exemplo do lavrador planta sem saber se as sementes que colocou na terra vão brotar ou sem mesmo ver o resultado da sua ação. Seja como for, nós professores aprendemos uns com os outros.
Exerci as funções de diretor de um instituto da universidade durante oito anos e nesse período enfrentei algumas vezes situações que envolviam a saúde mental dos estudantes. Não havia na estrutura da unidade acadêmica qualquer apoio psicológico mais concreto, nem mesmo um lugar onde pudessem conversar e expressar os problemas que carregavam. Estabelecemos parcerias com serviços de psicologia aplicada e psicólogos sociais, mas eles não chegaram a cobrir a nossa demanda. Em parceria interinstitucional, a organização de fóruns de saúde mental em conjunto com cursos da área da saúde procurou colocar em relevo o assunto, os eventos foram oferecidos a toda a comunidade acadêmica, mas o seu formato congressista ajudou muito pouco e as boas ideias que ali surgiam estavam quase integralmente bloqueadas por deficiências estruturais, ausência de profissionais e restrições orçamentárias.
Nesse ínterim das minhas atuações como diretor que procura soluções, cheguei a participar com entusiasmo de um projeto denominado Oficina do cuidado. Vinculado ao curso de Medicina de uma universidade irmã que compartilha conosco o campus universitário, fui convidado pela professora psiquiatra responsável pela sua execução a acompanhar o seu funcionamento durante o semestre letivo. Entrei na sala de aula como um participante comum. Um pequeno grupo de aproximadamente oito estudantes se reunia semanalmente dentro de uma disciplina do curso para conversar a partir de dinâmicas e perguntas propostas pela professora. Os estudantes se inscreviam na disciplina sabendo do que se tratava. A professora realizava alguns encontros e os repetia com outros grupos de estudantes. Notei que o desafio seria aplicar algo semelhante em um grupo maior e menos disponível.
Pouco tempo depois, formulei o esboço de uma disciplina optativa na área das filosofias da existência para o curso de Direito ao qual estou vinculado e consegui a sua aprovação pelos meus colegas de departamento. Pensei que a filosofia teria algo a contribuir com a vida dos estudantes, não apenas nas aulas que já lecionava em filosofia política e do direito. Ainda que fora de um viés estritamente terapêutico, a intenção seria criar um espaço extraordinário de escuta, diálogo e reflexão, trazendo à pauta as questões do sentido da vida e dos caminhos da existência. Com uma ênfase inicial na leitura de pensadores da filosofia moderna e contemporânea, havia ali o objetivo de possibilitar o conhecimento e a composição de reflexões qualificadas sobre tópicos de ressonância nas filosofias da existência, incluindo-se temas que tangenciam a ética e o cuidado de si. Não seria o caso de substituir o apoio psicológico quando necessário, evidentemente. Nem se aplicava a casos nos quais o sofrimento mental é intenso. Contudo, considero que o estudo da filosofia pode motivar o despertar e auxiliar a pensar criticamente o próprio caminho. Ajuda igualmente a compreender problemas, aquilatar paradoxos e contradições, superar dificuldades, tomar decisões bem orientadas. Os estudantes que o desejassem poderiam participar.
Depois da pandemia do coronavírus que interrompeu nossos afazeres mais corriqueiros, quando tivemos que elaborar disciplinas extensionistas respondendo à exigência de integrar a extensão universitária ao currículo do curso, agarrei a chance. Consegui a redução do número de vagas na disciplina de sessenta para trinta, sabendo que esse ainda era um número grande demais, mas sem encontrar outra alternativa possível. A inscrição na disciplina seria ainda facultativa. Para integralizar o currículo, os estudantes precisam cursar algumas disciplinas extensionistas, mas podem escolher entre as diversas opções oferecidas.
Em uma primeira tentativa, montei a disciplina com o aparato teórico mais óbvio, com o que tinha ao alcance da mão, Søren Kierkegaard, Martin Heidegger, Jean-Paul Sartre e Emmanuel Lévinas. Textos clássicos para introduzir a atividade especulativa sobre a existência humana. Parecia-me bastante claro que eu deveria passar pelos temas mais frequentes nessa tradição, tais como liberdade e responsabilidade, igualdade e diferença, subjetividade e sentido, indivíduo e sociedade, interioridade e conhecimento de si, angústia e coragem, mundanidade, facticidade e finitude, modos de ser e projeto de si próprio, preocupação e cura, impessoalidade, cotidianidade e ambivalência, existência e essência, transcendência e contingência, escolha e luto, a ética como filosofia primeira, exterioridade, alteridade e infinito. Eram textos difíceis para a leitura de alunas e alunos que não portavam uma bagagem filosófica anterior compatível com a complexidade de sua linguagem. Além disso, uma estudante experiente nas demandas dos movimentos periféricos e dos questionamentos epistêmicos sinalizou corretamente para as limitações eurocêntricas e masculinas do plano de curso proposto. Isso mexeu profundamente com o elo que une docentes e discentes, na medida em que o curso deve interessar aos discentes. O semestre acabou e estávamos muito aquém do que eu pretendia.
Numa segunda tentativa, incluí referências africanas e brasileiras, poesia e música. Procurei aproximar a linguagem, facilitar o acesso, gerar maior sinergia. Incluí também uma discussão sobre os desejos e as expectativas que cada um nutria pela própria carreira profissional, o que chegou a render algum fruto. A certa altura dos meus investimentos para chegarmos a uma discussão mais pessoal e pertinente, onde se tornasse viável uma troca mais eficiente, uma outra estudante disse abertamente que aquilo não funcionaria porque ninguém quer se expor. Compreendi que essa era uma barreira muito difícil de transpor, ainda mais em um curso extremamente competitivo, no qual não se deve demonstrar dúvida ou fragilidade. Os estudantes do curso são cedo confrontados com a ideia de que devem investir em si mesmos e constituir uma imagem forte e superior é fundamental nesse processo. Escolados como empreendedores de si mesmos, são informados que os critérios do sucesso profissional serão a quantidade de prestígio e de dinheiro que conseguirão obter. Percebi também que, embora arrumar as carteiras em roda fosse uma boa ideia, o olhar do outro podia intimidar.
Promovi uma terceira tentativa. Desta vez, reconheci que a disciplina poderia ter um formato mais expositivo e esperar que cada estudante colhesse algo que pudesse usar para si, aproveitá-la de alguma maneira, que os encontros ajudassem mesmo que silenciosamente. Ampliei os horizontes para atrair a gregos e troianos. Entraram no plano de curso uma breve introdução sobre a origem e a evolução da vida no planeta, uma breve abordagem sobre a história da humanidade, algo como uma apresentação sobre a diversidade de cosmovisões do mundo, sobre a relação entre ensinamentos religiosos e filosofia, sobre a filosofia antes dos gregos, algumas provocações sobre a arte de fazer perguntas e a tradicional defesa da subjetividade. No conteúdo, elementos do estoicismo com Sêneca, das filosofias africanas bantu e adinkra, o quilombismo de Abdias do Nascimento e Beatriz Nascimento, aspectos do espírito franciscano e da filosofia chinesa com o taoismo. Ganharam espaço outros temas, tais como a vida conforme a natureza, ataraxia e serenidade, ancestralidade e futuro, a constituição de seres interrelacionais e a vida coletiva, o dom de si e o conceito jurídico de usus pauper, a noção de fraternidade universal, equilíbrio e experiência do vazio. O resultado foi uma turma calada, mas atenta. Na avaliação final do curso, duas estudantes disseram que a disciplina foi um descanso, um retiro, algo necessário porque não se tem outra oportunidade assim nos semestres letivos da universidade.
Por uma necessidade da distribuição de disciplinas na grade de horários do curso, assumi recentemente outra disciplina, deixando de ofertar essa que criei. Admito que não fiquei satisfeito com a sua realização, uma vez que o espaço de escuta e de aprendizado mútuo não se materializou como eu havia planejado. Avalio se devo retornar com a proposta nos anos que estão à frente e quais mudanças deveria promover. Sei também que os meus sentimentos e as minhas expectativas não são os mesmos dos estudantes que participaram das suas diferentes versões. Sabe-se lá se algum encontro teve o efeito de auxiliar a algum estudante a compreender a si e ao seu caminho, o que estava no coração da ideia inicial. De qualquer modo, muitas perguntas permanecem no ar para mim e para eles, fazendo repensar, o que torna o seu desfecho intensamente filosófico.
A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.