Tradução - O Funeral de Karl Marx
João Barreto Leite
Mestrando em Filosofia na UFMG
09/09/2025 • Coluna ANPOF
O presente texto é uma tradução em língua portuguesa do texto Das Begräbnis von Karl Marx. A versão alemã foi escrita por Friedrich Engels em 1883 e publicada no jornal Der Sozialdemokrat, baseada em um discurso concedido por ele em língua inglesa. Como o próprio título nos evidencia, a ocasião do pronunciamento foi o funeral de Karl Marx, que ocorreu no cemitério de Highgate, em Londres, no dia 17 de março de 1883.
Trata-se de um texto, escrito em um momento de luto, sobre uma das figuras mais importantes para a organização dos trabalhadores em toda a história. Longe de ficar andando em círculos em torno da dor que a perda de Marx certamente causou para seus amigos próximos, familiares e colegas, o discurso aborda algumas das realizações deste pensador de imensurável valia. Engels fala de duas dimensões fundamentais para compreendermos quem foi Marx: se por um lado era um homem que valorizava, pesquisava e promovia avanços científicos, nunca esquecia que esses avanços eram muito maiores na realização dos potenciais revolucionários que carregavam. Falarei disso nesta breve introdução.
Conforme Engels sugere, por ter realizado importantes avanços no campo das ciências, Marx é comparável a Darwin. Enquanto o último descobriu como ocorre a evolução das espécies, Marx descobriu quais os fundamentos do desenvolvimento da história humana, e com ela suas instituições e sociedades. Estes fundamentos do desenvolvimento da história estão assentados nos antagonismos presentes no interior de cada sociedade. O antagonismo de classe, que, conforme Engels afirma em seu A origem da família, da propriedade privada e do Estado (1884) é responsável pela criação do estado e pela dominação de uma classe sobre a outra:
O Estado, [...] é a admissão de que essa sociedade se enredou em uma contradição insolúvel consigo mesma, cindiu-se em antagonismos irreconciliáveis e é incapaz de resolvê-los. Porém, para que esses antagonismos, essas classes com interesses econômicos conflitantes, não consumam a sociedade e a si mesmos em uma luta infrutífera, tornou-se necessário um poder que aparentemente está acima da sociedade e visa abafar o conflito, mantê-lo dentro dos limites da “ordem”; e esse poder, que é oriundo da sociedade, mas colocou-se acima dela e tornou-se cada vez mais estranho a ela, é o Estado.[1]
Esse poder, que em cada momento da história aparenta estar acima da sociedade, emulando um ideal de justiça respaldado pelas demais instituições, é produzido precisamente pelo antagonismo que na contingência de cada lugar e cada momento histórico determina o caráter de classe do Estado. O que Marx fez, uma de suas contribuições, foi descobrir que esse antagonismo está no cerne do desenvolvimento das sociedades, e que as alterações na forma como esse antagonismo está disposto no interior da sociedade, as mudanças na correlação de forças entre as classes produzidas pelas mais diversas causas, é a causa dos desenvolvimentos e das mudanças mais drásticas ocorridas na história, nos casos mais notórios, são as causas das revoluções. A passagem a seguir, do próprio Marx, em Para a Crítica da Economia Política, expressa como o pensador entendia a formação das instituições políticas e jurídicas a partir das relações de produção:
A totalidade dessas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta uma superestrutura jurídica e política, e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciência. O modo de produção da vida material condiciona o processo em geral de vida social, político e espiritual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência.[2]
Muito embora a descoberta da determinação que o antagonismo originado nas relações de produção realiza na superestrutura política e jurídica já fosse suficiente para fazer de Marx um dos mais importantes pensadores de toda a história, ainda havia mais a ser feito. Para o fundador do socialismo científico a descoberta da lei do desenvolvimento da história humana deveria contribuir para a abolição do antagonismo de classes responsável pela fundação dos Estados.
O Funeral de Karl Marx (Das Begräbnis von Karl Marx), de Friedrich Engels (1883)
Discurso realizado em língua inglesa no cemitério de Highgate, em Londres, no dia 17 de Março de 1883.
Em 14 de março, quinze minutos para as três da tarde, o maior pensador vivo parou de pensar. Deixado sozinho por apenas dois minutos, nós o encontramos em sua poltrona calmamente adormecido – mas para sempre.
O que o combativo proletariado europeu e americano, o que a ciência histórica perdeu ao perder este homem, isso não pode de modo algum ser mensurado. Logo o suficiente a lacuna que a morte desse gigante abriu será sentida.
Assim como Darwin descobriu a lei do desenvolvimento da natureza orgânica, Marx descobriu a lei do desenvolvimento da história humana: o simples fato até então encoberto por proliferações ideológicas, de que os seres humanos, antes de qualquer coisa, precisam comer, beber, morar e se vestir, antes que possam se dedicar à política, ciência, arte, religião, etc; que, portanto, a produção dos mantimentos materiais imediatos, e com ela o estágio de desenvolvimento correspondente de um povo ou de uma época, estabelece o fundamento a partir do qual se desenvolveram as instituições do estado, os conceitos jurídicos, a arte, e até mesmo as ideias religiosas dos seres humanos envolvidos, e que, a partir da qual, portanto, devem ser explicadas, e não o contrário como tem acontecido até agora.
Isso não é tudo. Marx também descobriu a lei específica do movimento da forma de produção capitalista de hoje e da sociedade burguesa resultante dela. Com a descoberta da mais-valia subitamente fez-se a luz, enquanto todas as investigações anteriores, tanto as dos economistas burgueses como as dos críticos socialistas, se perderam na escuridão.
Duas dessas descobertas deveriam bastar para uma vida. Já é afortunado aquele a quem é concedido realizar apenas uma delas. Mas em cada área individual submetida à investigação por Marx, e esses campos eram muitos, e nenhum deles foi tratado apenas de modo superficial, em cada um, até mesmo na matemática, ele realizou descobertas próprias.
Assim foi o homem da ciência. Mas isso ainda estava longe de ser metade do homem. A ciência era para Marx uma força historicamente movente, uma força revolucionária. Dessa forma, ele podia ter alegria pura com uma nova descoberta em qualquer ciência teórica, da qual a aplicação prática talvez ainda não fosse previsível – ele sentia uma alegria completamente diferente se fosse uma descoberta que logo impactava de modo revolucionário a indústria, o desenvolvimento histórico em geral. Dessa maneira, ele acompanhou o desenvolvimento das descobertas no campo da eletricidade e, por fim, ainda acompanhou as de Marc Deprez.
Pois Marx era, antes de tudo, um revolucionário. Contribuir, dessa maneira ou de outra, para a queda da sociedade capitalista e das instituições estatais criadas por ela, contribuir para a libertação do proletariado moderno, ao qual ele havia concedido pela primeira vez a consciência de sua própria condição e de suas necessidades, a consciência das condições de sua emancipação – essa era a sua verdadeira missão de vida. A luta foi seu elemento. E ele lutou com uma paixão, uma tenacidade, um entusiasmo como poucos. Primeiro a “Gazeta Renana” (Reinische Zeitung) em 1842, o parisiense “Avante” (Vorwärts) de 1844, a “Gazeta Alemã de Bruxelas” (Brüsseler Deutsche Zeitung) de 1847, a “Nova Gazeta Renana” (Neue Reinische Zeitung) de 1848/49, o “New-York Tribune” de 1852-1861. Além disso, muitos panfletos de militância, trabalho em associações, em Paris, em Bruxelas e em Londres, até finalmente a grande Associação Internacional dos Trabalhadores ser fundada como coroamento de tudo – realmente, esse foi mais um resultado que seu autor pode se orgulhar, mesmo se nada além disso fosse realizado.
E por isso foi o homem mais odiado e mais caluniado de seu tempo. Governos, tanto os absolutistas quanto os republicanos, expulsaram-no; tanto burgueses, conservadores quanto democratas radicais, mentiam sobre ele em uma competição de difamações. Ele afastou tudo isso assim como uma teia de aranha, não prestava atenção a isso, respondia apenas quando havia uma pressão extrema. E ele morreu, admirado, amado, chorado por milhões de colegas revolucionários que residem desde as minas da Sibéria, passando por toda a Europa e América, até a Califórnia, e eu ouso afirmar: Ele poderia ter ainda vários adversários, mas praticamente não tinha mais inimigos pessoais.
Seu nome continuará a viver ao longo dos séculos, assim como sua obra!
Referências
ENGELS, Friedrich. Das Begräbnis von Karl Marx. In: MARX, Karl;?ENGELS, Friedrich (org.). Marx?Engels?Werke. Band?19: März?1875–Mai?1883. Berlin: Dietz Verlag, 4.?Aufl., 1973, p.?335–339.
ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. Tradução de Nélio Schneider. São Paulo: Boitempo, 2019.
MARX, Karl. Para a Crítica da Economia Política. In: MARX, Karl. Para a crítica da economia política; Salário, preço e lucro; O rendimento e suas fontes: a economia vulgar. Traduções de Edgard Malagodi. São Paulo: Abril Cultural, 1982, p. 2-134.
[1] Engels, 2019, p. 173.
[2] Marx, 1983, p. 25.
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