Nota de repúdio do GT Filosofia e Gênero da Anpof: A versão fascista da necropolítica

31/10/2025 • Notas e Comunicados

GT Filosofia e Gênero da Anpof

Através dessa Nota, nós, do GT Filosofia e Gênero da Anpof, estamos nos unindo a todas as Instituições que se manifestaram em defesa dos direitos humanos e contra a chacina perpetrada pelo Governo do Estado do Rio do Janeiro contra parcela da sua população, moradora da periferia da Leopoldina (Penha), sob o pretexto de desmantelar as atividades da facção do narcotráfico denominada Comando Vermelho naquele território.

Em 28 de outubro de 2025, na cidade do Rio de Janeiro, uma operação conjunta da Polícia Civil e Militar do Estado do Rio de Janeiro realizada no conjunto de favelas conhecido como “Complexo da Penha” e “Complexo do Alemão”, na Zona Norte da cidade, resultou em mais uma chacina do povo empobrecido, promovida pela violência de Estado, resultando ao menos em 130 vítimas civis e quatro policiais (dois policiais civis e dois policiais militares do BOPE). Uma cifra que tende a aumentar. O número de mortes é mais que o dobro da então mais letal operação policial do Rio, que ocorreu em maio de 2021, com 28 mortos no Jacarezinho. Houve uma mudança de escala no uso político da morte, que ninguém esperava, por mais pessimista e realista que este uso fosse.

Toda a operação foi conduzida pelas polícias locais sob o comando direto do governo do Estado, ocupado por Cláudio Castro (PL). Há muito que a “guerra às drogas” vem servindo de álibi às forças da segurança pública para promover uma verdadeira limpeza étnica nos territórios ocupados pelas frações da população urbana que têm apenas as favelas e periferias para habitar. Nos últimos tempos, além da criminalização da pobreza[1], o uso indiscriminado do termo “narcoterrorismo” por parte do governo do Estado e de veículos da imprensa generaliza, criminaliza e legitima a violência de Estado sob o discurso de combate ao crime, reproduzindo a mesma lógica xenofóbica sem a qual a história da escravização da mão-de-obra africana poderia não ter acontecido. Pois, como teria sido possível sustentar a ficcionalização do negro como sub-raça sem antes inventar o próprio conceito de raça?

Quem viveu o período das chacinas do Rio de Janeiro dos anos 90, o assassinato de Chico Mendes, os massacres de Carandiru, de Eldorado dos Carajás ou da Candelária etc., não pensaria que dobraríamos a meta do extermínio de pobres, pretos e pardos na primeira metade do século XXI. Diz a Rede de Observatórios da Segurança que “a cada quatro horas uma pessoa negra foi morta, em 2022, pela Polícia”[2].

A colonização como fato histórico acabou, mas a colonialidade do poder, que nos mantém na periferia do capitalismo mundial, permanece procurando argumentos para continuar expropriando o trabalho dos mais frágeis e vulneráveis por já terem sido fragilizados e vulnerabilizados/as pelo Capital, e inventar razões para mantê-los encarcerados e longe da fruição do pouco de direitos e bem-estar que a democracia liberal ainda pode lhes oferecer. O ideal para o Capital, e o Estado burguês que o gerencia, seria ser capaz de realizar as duas penas ao mesmo tempo. E quando nenhuma das duas for suficiente, sempre será possível partir para a “solução final”: a chacina, o extermínio, o deslocamento do sujeito que está à margem para o não-lugar definitivo.

Do ponto-de-vista de gênero, a situação tampouco é simples. Pois se hoje quem enterra os corpos dos mortos são as mães, as avós, as mulheres e as irmãs, quem foi assassinado anteontem foram homens, homens jovens, e até mesmo meninos. A guerra urbana de policiais contra pretos, pobres e periféricos é uma guerra de homens contra homens. O patriarcado capitalista de alta intensidade[3], representado pela masculinidade hegemônica em sua versão fascista, atualmente no poder (representado pelas assembleias eleitas pelo povo, mas também por todo sistema jurídico, financeiro, corporativo, militar, etc.), reserva às masculinidades periféricas, às mulheres periféricas e de cor, bem como às suas crianças e aos seus velhos, valas de sangue e morte. Assim como as franquias de Jason e Freddy Krueger, o Capitalismo Gore[4][5] chegou até nós.

Como feministas que buscam a emancipação humana da tríade opressora nascida na e  sustentadora da modernidade colonial europeia (o capitalismo, o patriarcado e o racismo), a qual ainda hoje tem a hegemonia material e simbólica da mundanidade que nos rodeia, não poderíamos nos calar diante do horror disfarçado de norma. Posicionar-se contra o governador do Rio de Janeiro é um modo de dizermos ao mundo, e mesmo a nós, que não perdemos a capacidade de distinguir o humano do inumano; que não normalizamos a injustiça, o horror e a iniquidade; que não compactuamos com a régua neoliberal que define os que têm direito à defesa de sua vulnerabilidade e aqueles que não o têm; que existem vidas matáveis e vidas não-matáveis; vidas que merecem o luto e outras que merecem ser lançadas em valas; vidas que têm o direito de não terem suas casas e territórios invadidos e vidas que não têm este direito; vidas que são autorizadas a se autodefender de diferentes formas e vidas que são mortas por aqueles que deveriam defendê-las.

Cláudio Castro foi eleito pelo seu eleitorado para, num primeiro momento, levar adiante a radicalização da política xenofóbica de segurança iniciada já por Wilson Witzel no período Bolsonaro; e para, num segundo momento, assegurar ao seu público-eleitor um assento no Senado, aumentando o raio de alcance dos seus interesses em Brasília. As eleições já começaram.  O massacre não foi um acaso ou um excesso não pretendido, mas um projeto político-eleitoral. Nós, professoras, pesquisadoras, feministas, universitárias, mães, já fizemos nossa escolha e dizemos não à continuidade da gestão Cláudio Castro e à barbárie racista, patriarcal e neoliberal na Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

 


[1] WACQUANT, Loïc. As prisões da miséria. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

[2] O dado é revelado no novo boletim Pele Alvo: a bala não erra o negro. In: https://dssbr.ensp.fiocruz.br/rede-de-observatorios-revela-que-a-cada-quatro-horas-uma-pessoa-negra-foi-morta-pela-policia-em-2022/#:~:text=A%20cada%20quatro%20horas%20uma%20pessoa%20negra%20foi%20morta%2C%20em,no%20dia%2016%20de%20novembro. Acesso em 29 de outubro de 2025.

[3] SEGATO, Rita. Crítica da colonialidade em oito ensaios e uma antropologia por demanda. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.

[4] VALENCIA, Sayak. Capitalismo Gore. São Paulo: Sobinfluencia edições, 2024.

[5] Significado de Gore: substantivo

1.        Sangue derramado, especialmente quando coagulado.

2.        assassinato, derramamento de sangue, violência, etc.

Aquele filme de terror tinha sangue demais.” In: https://www.dictionary.com/browse/gore