Nota pública de repúdio à anulação do concurso da USP e exigência de reintegração de Érica Bispo
22/10/2025 • Notas e Comunicados
GT Filosofia e Raça da Anpof
O Grupo de Trabalho Filosofia e Raça da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (Anpof) vem a público repudiar, com máxima veemência, a anulação do concurso realizado pela Universidade de São Paulo (USP) em que a pesquisadora Érica Cristina Bispo, mulher negra, foi aprovada em primeiro lugar.
Vivemos em uma sociedade marcada pelo racismo. Desde o colonialismo, os corpos negros são tratados como inferiores e, portanto, incapazes de ocupar espaços de poder e decisão. Ao anular um concurso em que uma professora negra foi aprovada em primeiro lugar, a Universidade de São Paulo reforça este caráter preconceituoso com relação aos afrodescendentes, tratados, segundo Frantz Fanon, como sub-humanos. Infelizmente, o racismo institucional ainda se constitui como marca indelével da nossa história.
A decisão representa uma instrumentalização seletiva de dispositivos administrativos para a manutenção da exclusão racial nos espaços acadêmicos.
Segundo o estudo do analista de dados da Rede Liberdade, Alexandre Kakuhama, publicado pelo jornal Alma Preta, realizado a partir de dados públicos da USP e do Diário Oficial do Estado, entre 2022 e 2025, a presença de docentes negros passou de 2,64% para apenas 3,96%. A presença indígena, por sua vez, permaneceu estagnada em números residuais: apenas 4, dentre os mais de 5.000 docentes da instituição de ensino paulista. A projeção feita pela equipe técnica aponta que, se mantido esse ritmo, a USP levaria mais de 80 anos para alcançar uma representação proporcional à da população negra no estado de São Paulo. Infelizmente, essa não é uma característica exclusiva da USP, mas uma marca colonial das universidades brasileiras. Diante desse cenário, quando uma professora negra consegue furar a bolha branca, seu concurso é anulado.
Em depoimento público em seu perfil no Instagram, Érica Cristina Bispo denunciou que os seis candidatos brancos se mobilizaram junto com outros setores internos da universidade para impedir sua posse, mesmo após a homologação legítima de sua aprovação. Essa denúncia, feita de forma pública e transparente, reforça o caráter institucional do racismo que ainda rege o campo universitário brasileiro, onde a presença negra continua sendo tratada como exceção a ser contida.
Érica Cristina Bispo é intelectual e pesquisadora amplamente reconhecida, com contribuições decisivas para os estudos raciais, a antropologia e as epistemologias negras. Sua aprovação representa não apenas um mérito pessoal, mas um avanço coletivo na luta por uma universidade verdadeiramente plural, colorida e democrática. A anulação de seu concurso, contudo, expressa um movimento de reação institucional da branquitude, que se vale de mecanismos burocráticos para proteger privilégios e excluir sujeitos racializados do exercício legítimo do magistério público.
Não se trata de um caso isolado, mas da continuidade de uma tradição de exclusão — uma colonialidade — que atravessa a história da universidade brasileira. Desde a marginalização sistemática de intelectuais negras e negros dos espaços de poder e decisão, até episódios recentes em universidades federais e estaduais — em que candidaturas de docentes negras foram anuladas sob pretextos técnicos — o que se observa é a persistência de uma lógica de colonialidade do poder e do saber que estrutura nossas instituições.
Segundo a própria Érica Cristina Bispo, o que está em jogo é a tentativa de atribuir às pessoas negras uma suposta incapacidade intelectual para assumir cargos docentes universitários. Atribuir aos negros a incapacidade de compor o quadro docente das universidades públicas é uma prática racista, histórica e inaceitável.
O GT Filosofia e Raça da Anpof reafirma que não há filosofia, ciência ou ética possível sem justiça racial. O episódio ocorrido na USP é mais do que um desvio procedimental: é um sintoma da recusa da universidade em reconhecer a legitimidade da produção intelectual negra.
Diante disso, exigimos a imediata revogação da anulação do concurso e a reintegração da aprovação de Érica Cristina Bispo, bem como a adoção de medidas institucionais que impeçam a repetição de práticas racistas disfarçadas de tecnicismo.
O combate ao racismo não é uma escolha política: é um dever constitucional, ético e civilizatório. Mais do que isso: todos os intelectuais anticoloniais, contracoloniais, e decoloniais concordam que excluir pessoas negras dos espaços acadêmicos e de decisão é um ato racista e político — de conivência com a opressão e com a desigualdade.
Conclamamos a comunidade filosófica, os movimentos negros, as entidades acadêmicas e a sociedade civil a se mobilizarem em solidariedade ativa com Érica Cristina Bispo e em defesa da justiça racial e da reparação histórica na universidade pública brasileira.