A RELAÇÃO DE NIETZSCHE E FOUCAULT COM O ASCETISMO: A EDUCAÇÃO DOS AFETOS PARA A CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO AUTÔNOMO
Edição: Janeiro - Junho: v. 1 n. 51 (2025) • Revista Ideação
Autor: Ronaldo Pelli
Resumo:
Em seu livro Genealogia da moral, Friedrich Nietzsche fez críticas ao ideal ascético, associando tal noção ao cristianismo. Seu adversário aqui é o sacerdote ascético, personagem que não precisa pertencer diretamente ao sistema eclesiástico. Cerca de 100 anos depois, Michel Foucault elegeu o tema da askésis, algo como “treinamento espiritual”, para ajudá-lo a pensar o dispositivo da sexualidade em suas obras História da sexualidade, volumes II e III. Após as fases da Arqueologia do saber e da Genealogia do poder, esta é considerada um terceiro momento na produção intelectual de Foucault, chamada de Estética da existência. Ela aparece na década de 1980, logo depois que o pensador francês tinha se debruçado sobre o fortalecimento do credo neoliberal nos países do Atlântico Norte, e mostra histórias em que pensadores gregos e romanos da Antiguidade propõem um cuidado de si para se formarem como sujeitos autônomos, em que não são escravos nem mesmo dos próprios impulsos. O pensamento foucaultiano sobre essa arte de viver poderia ser visto, assim, como uma continuação dos seus estudos sobre o neoliberalismo, tanto quanto poderia também ser encarado como uma resposta às críticas nietzschianas ao ideal ascético. Entretanto, Nietzsche também se importava com a construção de um novo sujeito, de uma nova subjetividade que não obedecesse aos imperativos da moral de origem cristã. Portanto, Nietzsche e Foucault teriam mais similaridades que discordâncias nesse quesito: ambos querem pensar como seria possível a construção desse personagem outro, que não fosse facilmente capturado pelos próprios movimentos da moral em que está inserido nem fosse tão refém dos solavancos dos seus desejos. Este artigo, assim, vai pensar a relação de ambos os pensadores quando o assunto é o ascetismo, encarado aqui como uma espécie de educação dos afetos com o fim de constituir o sujeito autônomo.
Abstract:
In On the Genealogy of Morality, Friedrich Nietzsche critiques what he terms the “ascetic ideals,” linking it to the Christian tradition. Nietzsche's principal adversary here is the “ascetic priest,” a figure that need not to be confined strictly tothe clerical domain. A century later, Michel Foucault engages with the concept of askesisin volumes II and III of The History of Sexuality. Foucault employs this theme to explore the dispositiveof sexuality, marking what is referred to as the third phase of his intellectual journey, the “aesthetics of existence.” This phase, emerging in the 1980s, follows his earlier explorations in the Archaeology of Knowledge and The Genealogy of Power, and comes after his analysis of the rising neoliberal ethos in North Atlantic nations. Foucault’s narratives delve into the ancient practices of self-care aiming to cultivate an autonomous subject —one not enslaved by external moral or even by its own desires. Foucault's meditations on this “art of living” can be interpreted as an extension of his critique of neoliberalism, but they also resonate as a potential response to Nietzsche’s earlier condemnation of the ascetic ideal. However, while Nietzsche devoted attention to the “physiological” issues in the ascetic ideals, he was equally preoccupied with the conception of a new subjectivity that goes beyond the constraints of Christian moral imperatives. Thus, rather than presenting Nietzsche and Foucault as adversaries, this inquiry posits that they share a common ground: both thinkers are concerned with the possibility of forging a new kind of subject, one who resists the prevailing moral frameworks and the caprices of desire. This study will therefore investigate the interplay between Nietzsche and Foucault on the matter of asceticism, here conceptualized as a form of education of the affects aimed at the cultivation of an autonomous subject.
ISSN: 2359-6384
DOI: https://doi.org/10.13102/ideac.v1i51.11316
Texto Completo: https://periodicos.uefs.br/index.php/revistaideacao/article/view/11316
Palavras-Chave: Nietzsche, Foucault, Ascetismo, Neoliberalismo
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