A Filosofia ainda precisa aprender a circular em Libras
Diego de Souza Avendaño
Professor do Instituto de Filosofia da Universidade Federal de Uberlândia
11/08/2026
Especial Lançamentos de livros - XXI Encontro Anpof

de Rafael Rodrigues Testa, João Antonio de Moraes e Lucimar Bizio
Santé Publicações, 2026
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Mas ensinar filosofia é transmitir um patrimônio universal bem estabelecido? Se assim fosse, bastaria garantir a presença dos conteúdos no currículo, escolher os textos adequados e conduzir o estudante através deles. A história recente do ensino de filosofia no Brasil sugere, contudo, que a questão não é tão simples. Em 2008, a Filosofia tornou-se disciplina obrigatória em todas as séries do ensino médio. Menos de uma década depois, a reforma de 2017 substituiu essa garantia pela fórmula mais imprecisa dos “estudos e práticas” de filosofia. Em 2024, uma nova alteração da Lei de Diretrizes e Bases voltou a situá-la entre os componentes que integram as Ciências Humanas e Sociais Aplicadas na formação geral básica. Presença curricular, portanto? Certamente. Presença contínua, com tempo, professores, materiais e condições adequadas de ensino? A resposta já não é tão evidente. Algo semelhante, mas não idêntico, ocorre com a Libras. Reconhecida legalmente como meio de comunicação e expressão em 2002, regulamentada em 2005 e incorporada obrigatoriamente à formação de professores, a língua ganhou, em 2021, novo amparo com a inclusão da educação bilíngue de surdos como modalidade da educação escolar na própria LDB. Duas décadas de reconhecimento institucional não é pouca coisa. Mas seriam suficientes? Ainda que uma lei possa reconhecer uma língua; não pode, por si só, produzir uma linguagem. Pode assegurar um direito, mas não fabrica imediatamente os instrumentos por meio dos quais esse direito se torna experiência escolar.
É nesse intervalo — entre a lei e a aula, entre o currículo e sua realização, entre o reconhecimento da língua e a disponibilidade do vocabulário — que o Sinalário de termos lógico-filosóficos encontra seu lugar. Ao assumir que a filosofia precisa circular em outras línguas, corpos, gestos e formas de vida, a obra reúne sinais-termo para o ensino de lógica, epistemologia e filosofia da ciência em Libras. Inclusão, aqui, não é adaptação tardia de conteúdos prontos, mas construção de instrumentos conceituais, linguísticos e visuais. Em áreas nas quais pequenas diferenças terminológicas alteram o sentido de um argumento, o acesso ao vocabulário não é detalhe auxiliar: é parte constitutiva da aprendizagem.
Publicado em 2026 pela Santé Publicações e MOV8 Produções, o livro resulta do trabalho de Rafael Rodrigues Testa, João Antonio de Moraes e Lucimar Bizio, com ilustrações de Podre Flores. Integra as ações do projeto LogLibras, dedicado à elaboração de materiais didáticos de lógica para estudantes surdos em perspectiva bilíngue e intercultural, e dialoga com o FiloLibras. A composição da equipe ajuda a explicar sua força: Testa aproxima lógica e educação inclusiva; Moraes articula filosofia, informação e produção de materiais em Libras; Bizio reúne experiência em Linguística Aplicada, educação de surdos e acessibilidade. Flores, por sua vez, torna visível na página uma língua que se realiza no movimento, na orientação das mãos e na expressão corporal.
Dir-se-á que um sinalário não resolve o problema. É verdade. Mas que espécie de crítica seria essa? Nenhum vocabulário filosófico nasceu completo; nenhum termo adquiriu estabilidade antes de circular, ser disputado, corrigido, abandonado ou retomado. Mesmo entre ouvintes, palavras como “razão”, “experiência”, “forma” ou “representação” carregam histórias que as impedem de funcionar como etiquetas transparentes. Por que seria diferente em Libras? A procura por alguma estabilidade terminológica não elimina a variação da língua: cria um terreno no qual seus usos podem ser comparados e discutidos. Nesse contexto, o Sinalário organiza-se como um conjunto de verbetes que combinam definição, explicação, exemplo e representação visual. Não se trata, portanto, de um glossário visual ou uma lista de equivalências entre palavras em português e Libras. Cada entrada procura situar o conceito em seu uso e oferecer apoio à consulta, à mediação em sala e às videoaulas produzidas no projeto de modo a constituir um valioso acréscimo à própria formação na licenciatura em filosofia. O livro foi construído por duas frentes complementares: de um lado, o levantamento e a sistematização de sinais já presentes em contextos educacionais e acadêmicos; de outro, a incorporação de sinais desenvolvidos para responder a lacunas terminológicas encontradas no ensino de lógica.
A obra acerta, portanto, ao não se apresentar como repertório definitivo. Ao compreender que alguns sinais poderão ganhar ampla circulação; outros serão modificados; outros talvez desapareçam; a obra se concentra em construir um percurso. O percurso construído importa porque o problema enfrentado pelo livro é simples de formular, mas difícil de resolver: “como ensinar filosofia, especialmente lógica, quando parte decisiva de seu vocabulário ainda não circula de maneira suficientemente compartilhada em Libras?” A questão ultrapassa a ausência de correspondentes lexicais para termos técnicos. Em filosofia, as palavras carregam distinções, tradições de uso, disputas interpretativas e diferentes modos de organizar o pensamento. Distinguir validade e verdade, por exemplo, não é apenas memorizar definições; é aprender a realizar certos movimentos no interior de uma prática.
A dificuldade dos estudantes surdos não pode ser reduzida a um problema de tradução da aula originalmente pensada em português. Quando faltam sinais-termo compartilhados, a mediação de intérpretes se torna mais difícil, a continuidade entre aulas e materiais se fragiliza e a produção de recursos didáticos encontra novos obstáculos. Mais grave ainda: diminuem as condições para que os próprios estudantes tenham autonomia ao perguntar, argumentar, discordar, formular hipóteses e reconhecer diferenças conceituais em sua própria língua. Nesse sentido, o Sinalário não ocupa um lugar periférico à filosofia. Ele apresenta, por meios pedagógicos e visuais, as condições pelas quais alguém pode distinguir, argumentar, negar uma conclusão, formular uma hipótese ou pedir razões. Assume-se, assim, uma concepção de ensino de filosofia que não se limita à exposição de teorias, mas busca ensinar a filosofar e incentivar a autonomia para o exercício do pensamento.
A proposta editorial acompanha essa concepção. As versões impressa e digital foram planejadas com atenção à legibilidade, à navegação, ao ajuste de fonte e à compatibilidade com tecnologias assistivas. A datilologia dos verbetes acrescenta outra via de acesso, enquanto o ambiente digital permite acompanhar videoaulas, consultar atualizações e recorrer a ferramentas como o VLibras. A acessibilidade, portanto, não foi acrescentada ao final do processo, como uma correção feita quando o livro já estava pronto. Ela orientou a pesquisa, a ilustração, a organização dos verbetes e as próprias formas de circulação da obra. É aí que seu mérito se torna mais nítido. O Sinalário não trata a Libras como um canal neutro pelo qual conteúdos concebidos em português poderiam simplesmente passar. Mas seria possível transportar um conceito de uma língua a outra sem perguntar o que se preserva, o que se transforma e o que precisa ser reconstruído? Produzir um sinalário filosófico exige decidir como apresentar um conceito, quais diferenças ressaltar, como relacioná-lo a outros termos e em que situações ele pode ser mobilizado. Pesquisa terminológica, elaboração conceitual, representação visual e editoração acessível não constituem, aqui, etapas independentes. Formam um mesmo gesto pedagógico.
O livro interessa, por isso, não somente a especialistas em Libras ou educação inclusiva. Interessa aos docentes que ainda tratam a acessibilidade como tarefa exclusiva do intérprete; aos cursos de licenciatura que oferecem a disciplina de Libras sem perguntar de que maneira ela modifica o ensino de cada área; aos pesquisadores de lógica que raramente precisam pensar nas condições linguísticas de circulação de seus conceitos; e, enfim, à comunidade filosófica brasileira, que há muito reivindica um lugar para a filosofia no currículo, mas nem sempre pergunta quem consegue efetivamente habitar esse lugar. Incorporar o Sinalário aos cursos de graduação em Filosofia seria, portanto, apenas uma medida de inclusão? Talvez seja mais do que isso. Seria reconhecer que a filosofia brasileira também se faz na elaboração de materiais, na invenção de mediações e na resposta aos problemas que surgem na sala de aula. Afinal, quando um livro começa verdadeiramente a circular? Quando é publicado? Quando é citado? Ou somente quando entra em planos de ensino, bibliografias, pesquisas, videoaulas e conversas entre professores e estudantes?
O Sinalário de termos lógico-filosóficos não apenas fala sobre inclusão; ajuda a produzi-la. Se a filosofia vive também de seus modos de transmissão, obras como esta não podem ocupar um lugar secundário. Elas nos obrigam a perguntar quem pode participar da conversa filosófica, em que língua, por quais mediações e com quais instrumentos. Talvez o problema não seja apenas fazer com que a filosofia chegue a estudantes surdos, como se ela permanecesse intacta durante o percurso. Talvez seja necessário admitir que, ao circular em Libras, ao ganhar corpo em outros gestos e ao encontrar outras formas de experiência, a própria filosofia também se transforma. Ampliar seu acesso não é apenas aumentar o número daqueles que recebem um cânon já constituído. É ampliar a comunidade capaz de produzi-lo, interrogá-lo e modificá-lo.