A liberdade intelectual em Schopenhauer
Vinícius Edart
Doutorando em Filosofia na UFPR
23/07/2025

de Antonio Alves
Editora Dialética, 2024
280 páginas | Acesse aqui
Antonio Alves publicou a obra A liberdade intelectual em Schopenhauer, em 2024, como uma forma de extrapolar os limites acadêmicos em sua pesquisa, defendida no ano anterior (2023), pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), sob a orientação de Agnaldo Pavão. No livro publicado pela Editora Dialética, com 279 páginas, o pesquisador realiza profundas investigações sobre a liberdade intelectual no sistema de Schopenhauer - quase um estudo genealógico do conceito. Além disso, apesar de se tratar de um texto inicialmente produzido para constituir uma dissertação, o pesquisador de Arthur Schopenhauer apresenta de modo muito bem fundamentado sua tese sobre a loucura nos santos e nos ascetas, contando com importantes acréscimos em relação à sua produção acadêmica.
A tese que Antonio Alves defende é a de que a loucura, do modo schopenhaueriano, não estaria apenas conectada aos gênios, mas também se manifestaria no intelecto dos ascetas e dos santos, ou ainda nos negadores da vontade em geral. Para isso, o autor apresenta didaticamente a teoria da loucura schopenhaueriana em diálogo com uma diversidade de autores, a exemplo de Erasmo de Roterdã e Foucault, mas também autores menos populares como Holbach e Xenofonte. Ao estabelecer esta relação, Antonio Alves se pergunta se não teria havido negligência ou arbitrariedade na definição da loucura de Schopenhauer ao relacioná-la com a genialidade e deixar passar o aspecto da negação da vontade dos ascetas, por exemplo. Assim, o autor da obra se propõe a estabelecer essa relação, e o faz de maneira quase literária, com abundância de exemplos clássicos e atuais, citando a investigação do roubo da imagem de Nossa Senhora Aparecida (padroeira do Brasil), em 1978, na Basílica Histórica de Aparecida, associando este caso a uma espécie de loucura, mais especificamente, à loucura divinatória.
Antonio utiliza, além dos exemplos históricos, argumentos evolucionistas em relação ao impulso à preservação da vida. Ele até mesmo confronta a noção de prudência schopenhaueriana com a noção de negação da vontade, levantando questões acerca da coerência interna do filósofo alemão. Segundo a perspectiva do autor, a negação da vontade se constituiria, em um nível extremo, numa insanidade mental.
A liberdade intelectual em Schopenhauer é também uma discussão do determinismo schopenhaueriano, do fatalismo demonstrável e do fatalismo transcendente, criando pontes com filósofos que vão de Cícero a Kant. Ao mesmo tempo, busca na realidade brasileira alguns pontos de apoio, como no caso da responsabilidade penal, dado que os indivíduos não seriam livres. O determinismo, porém, não é apresentado a partir unicamente do ponto de vista da causalidade simples, mas o que Antonio Alves realiza é uma breve análise dos determinismos no plural, evidenciando a superficialidade da postura de quem adota o argumento do preguiçoso como modo de vida.
Vale ressaltar que a obra apresenta uma exegese rigorosa do sistema schopenhaueriano, satisfatoriamente rigorosa, de modo que o autor não é, em momento algum, injusto ao tecer reflexões inaceitáveis ou minimamente duvidosas. Este livro não é apenas hermenêutico, ele é propositivo, provocador, como uma tentativa de reanalisar Schopenhauer no século XXI. Assim como o próprio filósofo acrescentava o conhecimento científico em suas obras, na medida em que tinha acesso, esta obra contribui para a possibilidade de pensar a loucura nas obras do filósofo, mas permite e provoca questões sobre o modo de pensar a loucura nos dias de hoje. Não há dúvidas de que Antonio é schopenhaueriano, pero no mucho.
A obra é indicada para quem busca ler uma maneira brilhante de como conciliar a filosofia ocidental e a filosofia brasileira, da perspectiva do sul global, mas mais especificamente de um paranaense. Ela é também indicada a quem se interessa pela hermenêutica filosófica do sistema de Schopenhauer, pois é uma obra com potencial de agradar e desagradar tanto os mais ortodoxos quanto os mais heréticos.