O desconhecido de si e dos outros: a invenção do ser humano e quando deixamos de entender o mundo

Leonard F. Bresson

Doutor em Filosofia pela Université Paris Nanterre

27/06/2025

de Marcelo Vinicius Miranda Barros | Dialética, 2023
412 páginas | Link para compra
 

A primazia da relação: uma ontologia além da consciência e do simbólico

O livro O desconhecido de si e dos outros, de Marcelo Barros, constitui uma proposta ontológica de rara originalidade e ousadia no pensamento contemporâneo. Sua tese é clara e contundente: não existe ser sem relação, e não existe relação fundada em algo além de si mesma. A relação é o próprio modo de ser do real – não é meio, não é consequência, não é derivada. É o próprio acontecer, o próprio devir.

Embora a filosofia contemporânea tenha recorrido extensivamente à ideia de relação – seja na fenomenologia, na psicanálise ou nas ontologias da diferença –, este livro vai além de qualquer uso tradicional do conceito. O autor não trata a relação como uma articulação entre termos já dados, como sujeito e objeto, consciência e mundo, simbólico e real. Ao contrário, o que sustenta é que tais polos não existem previamente, mas são diferenciações internas do próprio processo relacional.

Esse deslocamento é radical e rigoroso. Frente à fenomenologia, especialmente à ontologia sartriana, o livro rompe com o que chama de primazia da consciência. Embora Sartre tenha sido um crítico da metafísica substancialista, ainda mantém o axioma fenomenológico clássico: ser é aparecer para uma consciência. Dessa maneira, a consciência (o Para-si) continua sendo a doadora de sentido, a condição para que o mundo seja mundo.

O livro não aceita esse pressuposto. Sua tese é que nem a consciência nem o mundo possuem primazia. O que tem primazia é a própria relação enquanto ato, enquanto devir, enquanto processo. E isso não significa postular um fundo metafísico, nem um substrato oculto, nem uma essência. Ao contrário, a relação é o próprio acontecer, não há relação da relação, assim como não há o relampejar do relâmpago.

Diante do célebre problema deixado aberto por Sartre – a origem do Para-si –, o autor responde de modo inovador: essa pergunta não se sustenta, porque supõe uma origem fora do acontecer. O Para-si não surge nem do Em-si nem de um milagre ontológico inexplicável. Ele é simplesmente uma diferenciação interna do próprio jogo da relação. O problema da origem, aqui, é dissolvido, não por evasão, mas por deslocamento ontológico.

A mesma operação é feita em relação à psicanálise estrutural. Se, para Lacan, o real é o impossível, o que não se inscreve, aquilo que retorna como furo no simbólico, aqui o real não é ausência, não é impossível, não é furo. O real é o próprio movimento da inscrição, do não-fechamento, do devir relacional. O sintoma, o furo, a fissura, o gozo – tudo isso são efeitos locais do próprio jogo da relação, não de um além da relação.

Um dos pontos mais inovadores da obra reside exatamente aqui: o sentido não é dado pela consciência, nem garantido pela ordem simbólica. O sentido emerge do próprio movimento da relação, que não é nem consciência nem simbólico, mas a dinâmica imanente do acontecer, do diferenciar-se, do constituir-se. Trata-se, portanto, de uma ruptura clara tanto com a fenomenologia da intencionalidade quanto com o estruturalismo psicanalítico.

Da mesma forma, a crítica à dialética hegeliana é precisa. Contra o que Derrida acusa em Hegel – a tendência de dissolver a alteridade na síntese –, o livro propõe uma dialética sem síntese, sem teleologia, sem destino. A dialética aqui é o próprio devir do real enquanto movimento espiralado, nunca totalizado, nunca fechado, nunca reconciliado.

Essa formulação evita o binarismo cartesiano (res cogitans vs. res extensa), supera os limites da fenomenologia da consciência e não recai na pura filosofia da diferença dispersa. O conceito de pré-ontológico, central na obra, não significa algo anterior no tempo, nem uma essência metafísica, mas sim aquilo que é condição imanente – a própria relação que permite que haja ser, mundo, consciência, sentido e diferença.

Importa frisar, de modo direto, que esta obra não é uma simples radicalização da fenomenologia, nem uma releitura da dialética, nem uma extensão da psicanálise. Trata-se de uma proposta ontológica autônoma, que rompe tanto com a metafísica clássica quanto com o fechamento fenomenológico e estruturalista.

Essa originalidade não reside no fato de empilhar críticas conhecidas, mas em propor um deslocamento estrutural de todo o problema da ontologia. Se, tradicionalmente, a pergunta era: “qual é o fundamento do ser?” – aqui a resposta não é um ser, nem um fundo, nem um substrato, mas o próprio movimento da relação enquanto acontecer, enquanto diferenciar-se, enquanto constituir-se.

Conclui-se, portanto, que O desconhecido de si e dos outros não é uma obra que reforça categorias já conhecidas, mas um projeto de reconfiguração do próprio campo da ontologia. A relação não é mais aquilo que surge entre termos, mas aquilo sem o qual nem mesmo termos podem existir. Mundo e consciência, sujeito e objeto, simbólico e real, são diferenciações internas e provisórias do próprio jogo incessante da relação.

Trata-se de uma contribuição que dialoga de igual para igual com as grandes formulações da filosofia contemporânea, oferecendo uma ontologia da relação que, sem recorrer a essências, a totalizações ou a transcendentais, se mantém fiel à imanência do real enquanto devir. Uma obra indispensável para quem busca compreender e repensar as tensões fundamentais da filosofia do nosso tempo.